‘Pequena Abelha’: popularizando o drama dos refugiados

O filme vai ser com a Julia Roberts em um dos papéis principais. Ela vai ser a Sarah, uma jornalista de uns 30 e poucos anos, bem-sucedida editora-chefe de uma revista de moda, casada com um colunista famoso. Julia Roberts substitui outra star que tinha sido cotada antes para o papel, Nicole Kidman, conforme informado na orelha do livro. Ou seja, “Pequena Abelha” vai ser um filme daqueles blockbusters que todo mundo vê e comenta, tipo o “Extraordinário”, que Julia Roberts também estrelou recentemente.

Mas por que estou falando de um filme que ainda nem começou a ser filmado? Porque, enquanto eu lia “Pequena Abelha”, um best-seller em 20 países, eu imaginei várias cenas como cenas de filme. Acho que Chris Cleave certamente escreveu seu texto pensando em uma futura adaptação cinematográfica, como tinha acontecido com seu primeiro livro, “Incendiary”. E foi bem-sucedido nisso.

Não é demérito para este simpático livro de 270 páginas. Pelo contrário, significa que Cleave conseguiu criar cenas fortes, que aumentaram a dramaticidade de um enredo já bastante dramático sobre uma garota de 16 anos que viveu um pesadelo em sua terra natal, a Nigéria, e buscou refúgio na Inglaterra. O livro tem todo tipo de brutalidade que se possa imaginar. Parece querer arrancar nossas lágrimas a fórceps. E a narrativa visual contribui muito para isso.

Mas os maiores méritos de “Pequena Abelha” são de duas ordens: ideológica e narrativa. No primeiro caso, por popularizar um tema tão árduo que é o dos refugiados. Escancarar o absurdo de alguém não ter direito a uma vida digna apenas por ser de outro país. Abelhinha, a protagonista do livro, é, afinal, tão igual a qualquer um de nós. Ela tem uma sombra em seu passado e em suas memórias, mas tornou-se uma jovem mais forte por isso mesmo, além de ter se fortalecido aprendendo o idioma correto, falado por todos os outros, o que a aproximou dos demais. Inteligente, boa, forte… Vamos lendo e nos apaixonando cada vez mais por Abelhinha. E aí fica inevitável pensar: mas por quê? Por que ela não pode morar na Inglaterra, ou em qualquer outro lugar? E daí para “Por que qualquer outro refugiado não poderia encontrar abrigo onde haja um mínimo de humanidade?” é um pulo.

No segundo caso, porque Cleave constrói uma narrativa muito interessante, para além da questão das cenas de cinema. Ele usa o recurso de intercalar, a cada capítulo, a voz narrativa. Primeiro, é a da Abelhinha, depois a da Sarah, depois volta pra Abelhinha, e assim por diante, sempre em primeira pessoa, com dois estilos bem diferentes entre si. Ao usar esse recurso, ele cria suspense, mas também vai formando uma teia física que une as duas mulheres da trama, tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo, a nigeriana e a britânica, que já eram unidas por um passado que só será revelado ao leitor lá pela centésima página.

Esse elo entre Abelhinha e Sara, físico e narrativo, é fundamental para gerar a empatia do leitor com as duas e, consequentemente, com a questão ideológica de pautar o drama dos refugiados para o mundo. Chris Cleave fez isso tão bem em seu livro que tornou-se best-seller. E agora ele vai alcançar muito mais simpatizantes, quando aquele sorrisão cativante de Julia Roberts aparecer no telão de cinemas pelo mundo afora.

Que assim seja!

Pequena Abelha
Chris Cleave
Tradução de Maria Luiza Newlands
Editora Intrínseca, 2010
270 páginas
De R$ 20 a R$ 39,90

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‘Extraordinário’, um filme peculiar – e pelos motivos menos esperados

Para ver no cinema: EXTRAORDINÁRIO (Wonder)
Nota 9

Extraordinário não é um filme incrível apenas por trazer a história de Auggie Pullman, um garotinho de 10 anos que tem uma deformação no rosto e precisa superar os olhares insistentes, o bullying, o estranhamento, a não aceitação e até mesmo o asco que outras pessoas, as [muitas aspas]normais[muitas apas], sentem por ele possuir uma diferença escancarada no rosto. Também não é incrível apenas por essa história, que tinha tudo para ser pesada, ser contada com delicadeza e graça por causa da narrativa sob a perspectiva de um protagonista mirim (o que já tinha acontecido no outro filme estrelado pelo pequeno Jacob Trembley, “O Quarto de Jack).

Extraordinário não é incrível apenas por nos fazer chorar do início ao fim, em cenas intercaladas por sorrisos ou até risadas, por aquele quentinho no peito, depois de alguns socos no estômago, pelo morde-e-assopra dos filmes que fazem pensar, cheios de frases maravilhosas, ainda que muitas sejam belos clichês (“choose kind“). Não é incrível apenas por abordar dois temas tão urgentes, como a inclusão e o bullying, de forma tão absolutamente bem construída, em roteiro, direção e atuações impecáveis – com destaque para, além de Trembley, a sempre ótima Julia Roberts, o sempre ótimo Owen Wilson, e a excelente, até então desconhecida para mim, Izabela Vidovic.

Estamos falando de um filme com potencial para ser indicado a vários Oscar, especialmente por melhor roteiro adaptado de uma novela homônima que R.J. Palacio escreveu depois de levar seu filho a uma sorveteria e vê-lo chorar ao olhar para uma criança com a síndrome de Treacher Collins – a mesma do pequeno personagem Auggie Pullman. Mas também forte merecedor de estatuetas de melhores atuações e melhor maquiagem.

O que achei mais incrível neste pequeno filme foi Continuar lendo