‘Extraordinário’, um filme peculiar – e pelos motivos menos esperados

Para ver no cinema: EXTRAORDINÁRIO (Wonder)
Nota 9

Extraordinário não é um filme incrível apenas por trazer a história de Auggie Pullman, um garotinho de 10 anos que tem uma deformação no rosto e precisa superar os olhares insistentes, o bullying, o estranhamento, a não aceitação e até mesmo o asco que outras pessoas, as [muitas aspas]normais[muitas apas], sentem por ele possuir uma diferença escancarada no rosto. Também não é incrível apenas por essa história, que tinha tudo para ser pesada, ser contada com delicadeza e graça por causa da narrativa sob a perspectiva de um protagonista mirim (o que já tinha acontecido no outro filme estrelado pelo pequeno Jacob Trembley, “O Quarto de Jack).

Extraordinário não é incrível apenas por nos fazer chorar do início ao fim, em cenas intercaladas por sorrisos ou até risadas, por aquele quentinho no peito, depois de alguns socos no estômago, pelo morde-e-assopra dos filmes que fazem pensar, cheios de frases maravilhosas, ainda que muitas sejam belos clichês (“choose kind“). Não é incrível apenas por abordar dois temas tão urgentes, como a inclusão e o bullying, de forma tão absolutamente bem construída, em roteiro, direção e atuações impecáveis – com destaque para, além de Trembley, a sempre ótima Julia Roberts, o sempre ótimo Owen Wilson, e a excelente, até então desconhecida para mim, Izabela Vidovic.

Estamos falando de um filme com potencial para ser indicado a vários Oscar, especialmente por melhor roteiro adaptado de uma novela homônima que R.J. Palacio escreveu depois de levar seu filho a uma sorveteria e vê-lo chorar ao olhar para uma criança com a síndrome de Treacher Collins – a mesma do pequeno personagem Auggie Pullman. Mas também forte merecedor de estatuetas de melhores atuações e melhor maquiagem.

O que achei mais incrível neste pequeno filme foi Continuar lendo

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Estética sem conteúdo

Assista se tiver tempo sobrando: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
(The Grand Budapest Hotel)
Nota 6

budapeste

Eu estava ansiosa para assistir ao filme “O Grande Hotel Budapeste”. Afinal, com nove indicações ao Oscar, empatado com “Birdman” como o melhor do ano, deveria ser bem bom.

Por isso, tenho que dizer que fiquei decepcionada.

Se bem que, analisando as categorias a que o filme concorre, muito está explicado. Fotografia, figurino, edição, maquiagem e direção de arte são prêmios que valorizam a estética. E a estética desse filme é, realmente, impressionante. O filme é bonito de se ver. Colorido, vivo, intenso, com uma fotografia sempre enquadrada de modo impecável (geralmente privilegiando o centro da tela, como você pode ver AQUI). Além disso, é um amontoado de bizarrices e personagens esquisitos que lembra um pouco Amélie Poulain, filmes do Tim Burton e outros tantos que existem por aí, nessa linha, inclusive do próprio diretor Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”).

E, puxa, o que não faltam são atores incríveis. É um elenco até um pouco desperdiçado, porque os atores Ralph Fiennes e Tony Revolori ficam com quase tudo, enquanto monstros do cinema, quase todos indicados ou premiados pelo Oscar, como Willem Dafoe, Jude Law, Edward Norton, Murray AbrahamTom Wilkinson, Adrien Brody, Mathieu Amalric, Bill MurrayOwen Wilson e Tilda Swinton fazem só pontinhas, são praticamente figurantes. Mas isso também é legal: ajudam a dar vida a pequenos coadjuvantes que compõem a excentricidade geral. Nenhum deles concorre ao Oscar, diga-se de passagem.

O que faltou para que eu gostasse do filme, então? História.

Geralmente não ligo se um filme for feio e nem mesmo se tiver atores “marromenos”, desde que a história seja sensacional. Tanto que vários filmes independentes, baratíssimos, conquistam meu coração por terem um roteiro bem-amarrado. O contrário, no entanto, me parece imperdoável. E, no caso de “O Grande Hotel Budapeste”, mesmo sendo baseado em livro, mesmo sendo contado em tom de fábula, com direito a capítulos (fórmula que costuma dar certo), mesmo se passando em uma república fictícia, o que também dá mais espaço à imaginação — com tudo isso, enfim, ainda é um filme sem história. Se me perguntar do que se trata, o famoso “o que acontece?”, eu resumo em duas linhas. The end.

Por isso, vá lá que ganhe todos aqueles prêmios estéticos do Oscar, mas espero que não fique com o melhor roteiro original e, muito menos, com o grande prêmio de melhor filme, porque não é o caso. O cômico e o excêntrico são legais, mas precisam de conteúdo para se justificarem. Wes Anderson tem que aprender mais com seu colega francês Jean-Pierre Jeunet.

Veja o trailer:

Leia também:

A Paris de todas as belas épocas

Para ver no cinema: MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris)

Nota 9

Eu sempre disse que queria ter sido jovem nos anos 60 ou 70. Seriam meus anos de ouro. Depois, comecei a achar que outras épocas poderiam ser ainda mais interessantes, como os anos 20.

Essa é a época de ouro do protagonista deste filme, o simpático Gil (Owen Wilson). Anos 20, e em Paris, mais especificamente. Época de Cole Porter, Pablo Picasso, Hemingway, Fitzgerald, Salvador Dalí, T.S. Eliot, Luis Buñuel e tantos outros gênios e loucos, que rendem belas piadas.

Acontece que, para quem vivia naquela época, o fascinante mesmo eram os anos dourados de 1890, com Gauguin, Degas e Lautrec. A Belle Époque, como se diz.

Acontece que, para os afortunados daquele tempo, o ideal mesmo era a Renascença. A idade da luz. E assim por diante.

Dá-se um apelido encantador para cada uma dessas épocas — de ouro, da luz, bela etc — porque só o passado merece tantos adjetivos belos. Aos nostálgicos, o presente parece cinza e opaco.

Sábio é quem consegue perceber a beleza dos anos dourados de décadas atrás — e aproveitar o que deixaram de melhor, através de livros e discos e pensamentos –, sem perder a beleza do presente, já que Paris, dizem por aí, continua linda até hoje.

Mais sábio ainda é quem consegue discernir as boas e más coisas deste presente. Ficar com as primeiras e usá-las para viver cada vez melhor esta “vida misteriosa”, dia após dia, e descartar as segundas, que só nos causam dor ou amolação. Como o amigo pedante e arrogante da noiva (e outros personagens irritantes, que só Woody Allen consegue criar, mas não vou detalhar aqui, pra não estragar o filme).

De resto, “Meia-noite em Paris” nos faz querer pegar o primeiro barco para aquela cidade e desejar que caia uma chuva e que possamos apreciá-la até debaixo d’água. E nos faz desejar viver intensamente o presente, sugando tudo o que o passado nos oferece — como a linda Let’s Do It, verdadeiro hino ao amor.

Este novo filme de Woody Allen é, surpreendentemente, fantástico (no sentido da fantasia mesmo). Mágico. E até agora estou sob efeito de seu encantamento. Que dure!