‘Extraordinário’, um filme peculiar – e pelos motivos menos esperados

Para ver no cinema: EXTRAORDINÁRIO (Wonder)
Nota 9

Extraordinário não é um filme incrível apenas por trazer a história de Auggie Pullman, um garotinho de 10 anos que tem uma deformação no rosto e precisa superar os olhares insistentes, o bullying, o estranhamento, a não aceitação e até mesmo o asco que outras pessoas, as [muitas aspas]normais[muitas apas], sentem por ele possuir uma diferença escancarada no rosto. Também não é incrível apenas por essa história, que tinha tudo para ser pesada, ser contada com delicadeza e graça por causa da narrativa sob a perspectiva de um protagonista mirim (o que já tinha acontecido no outro filme estrelado pelo pequeno Jacob Trembley, “O Quarto de Jack).

Extraordinário não é incrível apenas por nos fazer chorar do início ao fim, em cenas intercaladas por sorrisos ou até risadas, por aquele quentinho no peito, depois de alguns socos no estômago, pelo morde-e-assopra dos filmes que fazem pensar, cheios de frases maravilhosas, ainda que muitas sejam belos clichês (“choose kind“). Não é incrível apenas por abordar dois temas tão urgentes, como a inclusão e o bullying, de forma tão absolutamente bem construída, em roteiro, direção e atuações impecáveis – com destaque para, além de Trembley, a sempre ótima Julia Roberts, o sempre ótimo Owen Wilson, e a excelente, até então desconhecida para mim, Izabela Vidovic.

Estamos falando de um filme com potencial para ser indicado a vários Oscar, especialmente por melhor roteiro adaptado de uma novela homônima que R.J. Palacio escreveu depois de levar seu filho a uma sorveteria e vê-lo chorar ao olhar para uma criança com a síndrome de Treacher Collins – a mesma do pequeno personagem Auggie Pullman. Mas também forte merecedor de estatuetas de melhores atuações e melhor maquiagem.

O que achei mais incrível neste pequeno filme foi Continuar lendo

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A força de Jack

Não deixe de assistir: O QUARTO DE JACK (Room)
Nota 9

jack

O filme não é baseado em fatos reais, mas poderia ser. É sobre as centenas de crianças e adolescentes que são sequestradas para virarem escravas sexuais, presas em porões sujos, onde são abusadas por anos a fio. Muito raramente, essas meninas são descobertas, ou conseguem escapar, tornando-se assunto para o noticiário mundial. No caso d'”O Quarto de Jack”, a menina em questão é Joy, ela está presa há sete anos em um barracão trancado e engravidou de seu sequestrador. Jack nasceu e, no momento em que o filme começa, ele está completando 5 anos de idade. Cinco anos trancado em um quarto, que é todo o mundo que ele conhece.

Jack não conhece as árvores. Nem os cachorrinhos. Nem milhares de comidas que outras crianças adoram. Ele não tem espaço para correr, para soltar pipa ou jogar bola. Ele não tem bola. As únicas pessoas que ele conhece — e que pensa serem as únicas reais deste planeta — são sua mãe e o “velho Nick”, apelido para o sequestrador, que aparece quase todas as noites para estuprar Joy, enquanto Jack dorme trancado no armário.

Mas ele não acha que esse mundinho é terrível, porque, afinal, é o único que ele conhece e o único que pensa existir. Não tem com o que comparar, como sua mãe.

Não se preocupem, não estou entregando o filme todo. A história de verdade acontece quando Joy traça um plano de fuga. E Jack, subitamente, descobre que o mundo é muuuuuito maior do que aquele quartinho. Que cabe mar, montanhas, florestas. Ou certamente muitas escadas, objetos e outras tantas pessoas reais.

O filme concorre ao Oscar 2016 em quatro categorias, as mais importantes da premiação: melhor roteiro (de Emma Donoghue), direção (de Lenny Abrahamson), melhor atriz principal (a excepcional Brie Larson, que interpreta Joy) e melhor filme do ano. O pequeno Jack é interpretado pelo ator Jacob Tremblay, que não foi indicado ao Oscar, mas já ganhou nada menos que 12 prêmios por sua atuação.

O grande mérito deste filme comovente, que nos faz chorar do início ao fim, é contar o horror dessa história de sequestro (que bem poderia ser o enredo de um episódio de Law & Order) do ponto de vista do garotinho de 5 anos. A câmera acompanha de perto seu olhar, seus toques, suas primeiras descobertas tardias. A primeira vez que ele pisa num chão frio. A primeira vez que ele come cereais. E assim por diante. Ou seja, o horror é filtrado pela inocência infantil, tornando o filme, que é absurdamente triste, ao mesmo tempo encantador. Me lembrou o ótimo livro “Festa no Covil“, que é narrado por um garotinho de 7 anos, testemunha ocular do mundo cruel do tráfico de drogas. “O Quarto de Jack” nos ensina que as crianças, talvez justamente por serem tão inocentes, são muito mais capazes de superar as grandes tragédias humanas.

São, portanto, muito mais fortes que os adultos, em vários sentidos.

Veja o trailer do filme:

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