85 anos depois, ainda há vinhas da ira

vinhas

“As Vinhas da Ira” é um daqueles poucos livros que você lê e sofre o impacto das cenas e palavras durante o resto da vida. Mais: é um livro que retrata uma situação específica — a vida itinerante dos boias-frias norte-americanos durante a Depressão dos anos 1930 naquele país –, mas de uma maneira universal. Tanto que até hoje podemos fazer um paralelo daquela realidade com, digamos, a dos imigrantes africanos na França ou com a de moradores de ocupações aqui mesmo, em Beagá.

Não foi à toa que o livro rendeu um Pulitzer a John Steinbeck e o consagrou como um dos autores mais importantes da literatura universal, vencedor do Prêmio Nobel. É um clássico sobre temas universais, como a miséria, a esperança, a solidariedade, a família, o sonho e o trabalho.

Steinbeck tece a história em capítulos alternados: em alguns, ele pinta o quadro geral, sem nomes para os personagens, como se estivesse abrindo sua lente grande-angular. Em outros, ele dá um zoom na família Joad, que tem o pai, o tio John, a mãe (a personagem mais extraordinária da história), os filhos Tom, Al, Noah, Rosa de Sharon, as crianças Ruthie e Winfield, o avô, a avó, Connie (marido de Rosa) e o ex-pregador Casy, que traz as principais reflexões sobre o que está acontecendo.

Assim, enquanto acompanhamos a saga dessa família, somos sempre interrompidos por um contexto maior, que a situa em meio a milhares/lhões de outras famílias em situação idêntica.

São nesses momentos de generalizações que o autor escreve as pérolas sobre a gaita e o violão e sobre os pecadores, que reproduzi aqui no blog nos últimos dias, além de outros pensamentos sobre a força motivadora da ira (em contraste com o desalento da tristeza) e histórias paralelas de quem foi testemunha ocular daquela migração leste-oeste: donos de postos de gasolina, vendedores de carros velhíssimos, donos de oficinas, garçonetes de beira de estrada etc.

Durante e ao fim da leitura, depois de termos viajado tantos quilômetros com aquela família, e de termos passado por tantos perrengues e injustiças, vemos a ira crescendo dentro da gente, junto a um cansaço enorme, uma sensação de impotência. Poucos são os livros que alimentam sentimentos tão intensos nos leitores.

Senti falta do humor que está sempre presente nos livros de Steinbeck — mas talvez não fosse o caso de abrir brecha para a graça, mesmo. O que é contado ali — e ainda ocorre, em várias partes do planeta — é muito cruel. O único respiro de leveza no romance é observar que, mesmo na miséria total, é possível haver dignidade e solidariedade entre os humanos, inclusive entre completos desconhecidos. Se isso era possível até naquele cenário, por que não seria também no nosso Brasil de hoje?

As Vinhas da Ira (Original: The Grapes of Wrath, de 1939)
John Steinbeck
BestBolso edições
585 páginas
De R$ 24,65 a R$ 59,63

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A gaita e o violão: um trecho de ‘As vinhas da ira’

Neste último mês tenho lido, vagarosamente, o clássico da literatura “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck. Sensacional, e logo vai ganhar uma resenha aqui no blog, porque já estou nas últimas páginas. Por enquanto, deixo vocês com um trechinho, sobre meus dois instrumentos musicais favoritos, que são descritos nas páginas 417 e 418. Bom proveito:

gaitavelha“Uma gaita é fácil de se carregar. Tira ela do bolso de trás das calças e bate ela na mão, pra cair a poeira, a sujeira do bolso e os fiapos de fumo. Bom, agora ela tá boa. Pode-se fazer muita coisa com uma gaita: pode-se arrancar um som agudo e penetrante e acordes simples, e também uma melodia de acordes rítmicos. Pode-se moldar a música com as mãos em concha, fazendo-a lamentar-se, chorar que nem uma gaita escocesa, torná-la volumosa, cheia como um órgão ou fina e amarga como o sopro das montanhas. E pode-se tocar e guardar o instrumento no bolso. Ter ele sempre no bolso, sempre acompanhando a gente. E pode-se sempre tocar e aprender novos truques, novos métodos de se moldar o som com as mãos, modular ele com os lábios, sem precisar de ninguém que nos ensine essas coisas. E pode-se fazer experiências sozinho, às apalpadelas… sozinho na sombra de uma tarde, ou então depois do jantar, à entrada da tenda, enquanto as mulheres lavam a louça. Pode-se bater com o pé no chão, vagarosamente, para marcar o compasso; as sobrancelhas a subir e descer, seguindo o ritmo. E se acaso se perde o instrumento, ou se alguém o quebra, o prejuízo não é tão grande assim. Pode-se comprar outra gaita por 25 cents.

Um violão é mais precioso. Deve-se aprender a tocar violão. Os violaodedos da mão esquerda devem ser calosos. O polegar da direita também deve ter calosidades. Esticam-se os dedos que nem patas de aranha, para acertar bem as marcações nas cordas.

Este violão era de meu pai. Eu não era mais alto que um percevejo quando ele começou a me ensinar. E quando eu já sabia tocar que nem ele, deixou que eu tocasse. Costumava sentar-se na soleira, me escutando e marcando o compasso com o pé. Às vezes eu metia coisas da minha cabeça no meio da música, e ele ficava zangado até que eu conseguia acertar; então ele ficava aliviado. ‘Toca’, dizia. ‘Toca alguma coisa bem bonita’. Pois é. Este é um violão dos bons. Olha só como já tá todo arranhado. Foi um milhão de canções que arranhou ele assim, um milhão de canções que já se tocou com ele. Foi esse milhão de canções que afinou a madeira desse jeito. Qualquer dia tá quebrando que nem casca de ovo. Não se pode consertar ele, senão perde o som. Às vezes, quando toco, de noite, uma gaita na tenda do vizinho me acompanha. E fica tão bonito, os dois juntos!”

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Um filósofo das ruas

sempreemdesvantagem

Imagine uma pessoa má. Que, há 27 anos, estuprou a garota de quem gostava e a matou, juntamente com o namorado dela. Que já bateu em várias pessoas, e matou ainda outras, enquanto esteve na prisão, para pagar pelo primeiro crime.

Este é Sócrates. Um criminoso e, quando o conhecemos, já ex-presidiário. Ele mora em uma espelunca, luta diariamente para sobreviver e, como diz o nome do livro, está “sempre em desvantagem”. Essa condição de pessoa-em-constante-culpa, de sobrevivente e de lutador o transformou em uma espécie de filósofo, de sábio, aquele que os vizinhos respeitam e de quem buscam conselhos.

Aos poucos, vamos aprendendo a gostar desse anti-herói (tendo a ter uma queda por anti-heróis da literatura e do cinema, fazer o quê?), e a respeitar suas ideias e tomá-las como acertadas.

E vamos acompanhando suas histórias, capítulo a capítulo, ou conto a conto — porque, de certa forma, os capítulos são independentes e podem ser lidos de forma aleatória. Segue-se uma linearidade temporal, mas cada capítulo tem seu começo, meio e fim, então a ordem não é importante.

Vamos acompanhando o dia em que ele critica o ladrão por contribuir para a imagem ruim que a sociedade norte-americana tem dos “irmãos” negros, o dia em que briga com o garoto que matou o frango depois de matar outra criança, o dia em que teimou até conseguir um emprego, o dia em que conheceu um casal na praia, o dia em que passou a frequentar a livraria etc. Histórias fortes, até a última, a mais triste de todas, que trata da amizade.

Uma temática que permeia todas as histórias é a discriminação à comunidade negra. A forma como o autor, Walter Mosley, escreve sobre isso me fez pensar em vários momentos que eu estava lendo um livro que se passava ainda na era pré-Martin Luther King, de segregação explícita. A toda hora tinha que me obrigar a lembrar que era uma história dos anos 2000. O que me fez pensar: seria exagero de Mosley ou a sociedade norte-americana, mesmo nas ruas modernas de Los Angeles, ainda continua mesmo tão atrasada e com tantos guetos raciais? Acho que deve ser a segunda opção. (E, se lá é assim, num país tão mais combativo em relação ao racismo, pobre do Brasil…)

Ao menos existem os Sócrates modernos, com suas filosofias das ruas, para nos ensinar a olhar.

Sempre em desvantagem
Walter Mosley
Editora Record
236 págs
De R$ 20 a R$ 40,75