‘Vice’: um filme que deixa a desejar para quem viveu a Guerra do Iraque

Para ver se der tempo: VICE
Nota 6

Amy Adams, Christian Bale e Sam Rockwell irreconhecíveis

 

George W. Bush. Colin Powell. Donald Rumsfeld. Condoleezza Rice. Paul Wolfowitz. Dick Cheney.

Esses personagens da recente história política dos Estados Unidos foram os primeiros a fisgar meu interesse por política internacional. Foram eles os nomes à frente da Guerra do Iraque, em 2003. E foi no primeiro momento em que se confirmaram os bombardeios dos Estados Unidos em Bagdá, em março daquele ano, que eu criei o primeiro blog da minha vida. Passei os meses e anos seguintes acompanhando de perto a história dessa guerra, que só foi acabar muito depois, quando milhares de civis iraquianos já tinham morrido. E deixando como consequência o fortalecimento do Estado Islâmico, que tem causado muito mais atentados do que os que havia no início do século 21.

Para mim, portanto, fica claro que são personagens reais que conheci de perto e que o tema geral de “Vice” me interessa. Imagino que para muitos norte-americanos também. Mas tenho dúvidas se isso se aplica ao resto do mundo. Quantas pessoas querem mesmo conhecer a história de Dick Cheney?

Deveriam querer? Sim, pelo que mostra o filme, sim. Porque ele era um cara boçal, um completo zero à esquerda, que, sabe-se lá como, chegou à cúpula do Executivo e, sob a tutela de Donald Rumsfeld, foi ganhando poder, até chegar a ser vice de George W. Bush – retratado como outro zero à esquerda absolutamente inútil, que não apitava em nada no próprio governo. Dick Cheney vai se fortalecendo a ponto de ser ele o verdadeiro mandante nas principais áreas do governo Bush, incluindo a militar.

Um vice dos Estados Unidos não ter só um papel decorativo não seria assunto a nos dizer respeito, cá no Brasil, não fosse esse vice Dick Cheney: um reacionário da pior espécie, que conseguiu artimanhas jurídicas para dar mais e mais poder à cúpula do Executivo, e garantir políticas que acabaram com a liberdade individual dos norte-americanos, fomentaram as guerras do Afeganistão e do Iraque e, de quebra, permitiram as práticas de torturas, à revelia de qualquer direito internacional ou opinião pública. Ele mudou os Estados Unidos, para pior, e, sendo os EUA o país que é, acabou mudando também o restante do planeta.

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É bom que brasileiros vejam este filme. Dick Cheney me lembrou Bolsonaro em vários momentos, embora seja certamente mais raposa que nosso presente fajuto. Mas ambos têm as mesmas ideias reacionárias, o mesmo gosto pela violência, pela truculência e por passar por cima de direitos civis (Cheney tem uma diferença familiar apenas, que não vou contar para não estragar). Mas Cheney era o vice do pateta George W. Bush. Por aqui a coisa se inverte, já que o vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão, é muito mais raposa que ele…

Sam Rockwell como George W. Bush

O filme tem esse mérito de levantar a história para quem se interessar por ela, com um roteiro bem costurado, relativamente ágil, bem editado. Os atores são daquele naipe da melhor qualidade: Christian Bale, que já tem um Oscar e outras três indicações, é unanimidade sobre o merecimento da estatueta por sua encarnação de Dick Cheney. Sam Rockwell, que levou o Oscar no ano passado em “Três Anúncios para um Crime“, está tão parecido com Bush que às vezes acho que estou de volta a 2003, ouvindo aqueles discursos absurdos. Amy Adams, seis vezes indicada ao Oscar, vira outra pessoa em cada filme que faz. E Steve Carrell também está fantástico na pele de Donald Rumsfeld, outro fanfarrão maluco daquele governo.

Mas não é só de parecenças e boas atuações que um bom filme é feito. Não dá pra dizer que o filme é bom. Primeiro, pela estrutura repetitiva: antes mesmo de ver que o diretor era Adam McKay, de “A Grande Aposta“, eu já lembrei em inúmeros momentos daquele filme. Os temas são totalmente diferentes, mas a estrutura me deu a sensação de estar assistindo ao mesmo filme, de novo. É aquela coisa: um narrador (muito irritante), um excesso de didatismo, com explicações para tudo o tempo todo, principalmente na primeira metade do filme. Talvez se eu tivesse assistido a “Vice” antes de “A Grande Aposta”, esse incômodo tivesse me atingido em cheio naquele filme ao qual dei nota 9, e não neste agora. So sorry.

O fato é que “Vice” não é um filme que transcorre bem: a gente (no caso, eu) custa a conseguir chegar ao fim. É penoso. Os meandros do poder nos Estados Unidos, no auge da Guerra do Iraque, deveriam ser mais excitantes, penso eu. Mas não tem jeito, com tanto didatismo, com tanta narração na nossa cabeça.

É assim que chegamos ao fato de “Vice” ter recebido oito indicações ao Oscar e, na minha opinião, provavelmente conquistar um máximo de duas (25%), talvez para dois dos atores ou para Bale e a edição costuradinha. (Vá lá: a maquiagem também é fera, pode levar.) Coincidência ou não, “A Grande Aposta” teve proporção parecida: apenas uma estatueta para suas cinco indicações (20%).

Assista ao trailer do filme:

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Apostando no colapso do sistema

Não deixe de assistir: A GRANDE APOSTA (The Big Short)
Nota 9

short

Subprime. MBS. CDO. CDO sintético. Clientes ninja. Títulos com classificação AAA, AA, BBB, BB.

Toda essa sopa de letrinhas do mundo financeiro, frequente no noticiário de economia e nas rodinhas das bolsas de valores, não é muito comum no cinema. Mas em um filme sobre a crise financeira de 2008, um vocabulário como este — muito complexo para quem não está acostumado a pensar em economês — tinha que se fazer presente.

Um dos grandes méritos de “A Grande Aposta” é o didatismo. O filme pega esses conceitos abstratos e os explica, geralmente por meio de comparações simples, até meio boçais. Para que qualquer leigo possa entender a grande merda (outra palavra bastante repetida durante o filme) que foi feita pelos bancos, pelas agências de classificação de risco e pelo governo dos Estados Unidos, levando a uma crise mundial sem precedentes e com consequências sentidas ainda hoje.

Para que isso fosse possível, o filme precisou de direção, edição e roteiro de qualidade. Não é à toa que concorre ao Oscar 2016 nessas três importantes categorias. Também concorre na categoria principal, de melhor filme, e na de melhor ator coadjuvante, com o sempre ótimo e já premiado Christian Bale (embora eu tenha gostado ainda mais da atuação de Steve Carell, que ficou de fora). O elenco também inclui talentos como Ryan Gosling e Brad Pitt.

Não se enganem: o economês (ainda por cima explicado) não torna o filme tedioso. As fraudes e as sacanagens feitas no sistema financeiro norte-americano rendem suspense, emoções fortes, drama e reviravoltas que parecem de ficção. E o mais legal é que não são ficção. Aconteceram. E o mais “legal” é que, apesar de bancos, financeiras e agências de risco — para não falar no governo — terem sido os grandes vilões da história, foram os pobres e imigrantes que levaram a culpa. E mais “legal” ainda é ver aquelas mesmas agências de classificação de risco atuando ainda hoje, petulantemente rebaixando nota da Petrobras e o escambau, como se fossem os pilares da credibilidade. Quer dizer, foi logo ali, em 2008, que elas foram desmascaradas, como assim já deu tempo de isso ser esquecido?!

Ah sim, tem um motivo pra isso: a imprensa também teve sua parte na vista grossa de 2008, assim como no “esquecimento” desde então. Pena que isso é abordado bem superficialmente pelo roteiro.

Enfim, o filme escancara essas coisas todas, sem pudor. Do ponto de vista de quem apostou contra o sistema, de quem quis lucrar em cima do colapso. Com direito a muito cinismo, palavrões e rock’n’roll (trilha sonora de primeira!). Vale como aula — ou como tapa na cara, pode escolher.

Veja o trailer do filme:

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