Apostando no colapso do sistema

Não deixe de assistir: A GRANDE APOSTA (The Big Short)
Nota 9

short

Subprime. MBS. CDO. CDO sintético. Clientes ninja. Títulos com classificação AAA, AA, BBB, BB.

Toda essa sopa de letrinhas do mundo financeiro, frequente no noticiário de economia e nas rodinhas das bolsas de valores, não é muito comum no cinema. Mas em um filme sobre a crise financeira de 2008, um vocabulário como este — muito complexo para quem não está acostumado a pensar em economês — tinha que se fazer presente.

Um dos grandes méritos de “A Grande Aposta” é o didatismo. O filme pega esses conceitos abstratos e os explica, geralmente por meio de comparações simples, até meio boçais. Para que qualquer leigo possa entender a grande merda (outra palavra bastante repetida durante o filme) que foi feita pelos bancos, pelas agências de classificação de risco e pelo governo dos Estados Unidos, levando a uma crise mundial sem precedentes e com consequências sentidas ainda hoje.

Para que isso fosse possível, o filme precisou de direção, edição e roteiro de qualidade. Não é à toa que concorre ao Oscar 2016 nessas três importantes categorias. Também concorre na categoria principal, de melhor filme, e na de melhor ator coadjuvante, com o sempre ótimo e já premiado Christian Bale (embora eu tenha gostado ainda mais da atuação de Steve Carell, que ficou de fora). O elenco também inclui talentos como Ryan Gosling e Brad Pitt.

Não se enganem: o economês (ainda por cima explicado) não torna o filme tedioso. As fraudes e as sacanagens feitas no sistema financeiro norte-americano rendem suspense, emoções fortes, drama e reviravoltas que parecem de ficção. E o mais legal é que não são ficção. Aconteceram. E o mais “legal” é que, apesar de bancos, financeiras e agências de risco — para não falar no governo — terem sido os grandes vilões da história, foram os pobres e imigrantes que levaram a culpa. E mais “legal” ainda é ver aquelas mesmas agências de classificação de risco atuando ainda hoje, petulantemente rebaixando nota da Petrobras e o escambau, como se fossem os pilares da credibilidade. Quer dizer, foi logo ali, em 2008, que elas foram desmascaradas, como assim já deu tempo de isso ser esquecido?!

Ah sim, tem um motivo pra isso: a imprensa também teve sua parte na vista grossa de 2008, assim como no “esquecimento” desde então. Pena que isso é abordado bem superficialmente pelo roteiro.

Enfim, o filme escancara essas coisas todas, sem pudor. Do ponto de vista de quem apostou contra o sistema, de quem quis lucrar em cima do colapso. Com direito a muito cinismo, palavrões e rock’n’roll (trilha sonora de primeira!). Vale como aula — ou como tapa na cara, pode escolher.

Veja o trailer do filme:

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Os ovos podres e a crise financeira mundial

Sempre tive dificuldade de entender os conceitos abstratos da macroeconomia — mas, mais do que eles, a forma como se dão na vida prática das siglas em inglês, gírias bancárias e jargões dos bancos centrais.

Nos últimos dias, no entanto, tenho me debruçado sobre a crise financeira e seu braço na Europa, e queria usar este post para recomendar uma leitura muito leve, fácil e atraente de economia, de um sujeito que consegue explicar qualquer coisa do jeito mais simples do mundo.

O livro é “The Undercover Economist” (publicado no Brasil pela editora Record, como “O Economista Clandestino”), de Tim Harford, economista que já trabalhou no Banco Mundial, é membro da Royal Economic Society e assina uma coluna no Financial Times, além de ter um programa na BBC. Quem me emprestou o livro foi o amigo Marcelo Soares, fanático por estatísticas.

O livro pretende mostrar como tudo, até o café que pagamos na estação do metrô, tem uma relação econômica muito mais macro. E mostrar como os economistas, assim como detetives, conseguem desvendar esses mistérios que regem o mundo. E quem sabe permitir que a gente tenha a mesma capacidade/sagacidade que eles têm.

Um dos capítulos do livro está aberto para download, impressão e leitura no site de Tim. E trata justamente da crise financeira iniciada em 2008. Mas ele começa a história usando uma paródia dos ovos com duas gemas e dos ovos podres — e assim fica bem mais fácil de entender os empréstimos subprime, os CDOs e outros palavrões cabeludos.

CLIQUE AQUI para ler. São só 24 páginas e é uma leitura muito fácil 😉

 

“O Economista Clandestino”
Tim Harford
Record
333 págs.
De R$ 30,51 a R$ 44,90.

O sistema financeiro e a bomba atômica

Texto de José de Souza Castro:

Quando eu coordenava o jornalismo numa rádio de Belo Horizonte, só havia um assunto tabu – a crítica ao Sistema Financeiro Nacional em geral e aos bancos em particular. A crítica era proibida porque o dono da rádio era também dono de banco. Mais tarde, quando já havia sido desligado desse emprego, o banco teve que ser vendido para não ir à bancarrota, mas o proprietário continuou dono da rádio.

Esses longos oito anos de interdição a um assunto de grande interesse público me levaram, nos anos seguintes, a escrever muito sobre bancos, inclusive neste jovem blog. Volto a escrever, depois de ler neste domingo dois artigos.

O primeiro, de Clóvis Rossi, chamando atenção para a crise do sistema financeiro, exemplificada pelos prejuízos do banco norte-americano JPMorgan, provocados por investimentos de mais de 100 bilhões de dólares em produtos arriscados “que estiveram no centro da crise financeira de 2008”, conforme o “Financial Times”. O JP Morgan, concluiu Rossi, “ainda tem em suas entranhas os tais ativos tóxicos que foram a verdadeira causa da crise”.

O segundo, escrito pelo cientista político Stephan Bogdan Salej, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, também trata da crise bancária e acrescenta um dado preocupante ao caso do JPMorgan Chase, não propriamente em relação ao prejuízo, mas ao fato de que o banco usou tecnologias que estão fora do controle das autoridades monetárias. Escreveu:

“O problema não é só o comportamento irresponsável do presidente do banco, que além do mais faz parte do conselho de administração do Banco Central de Nova Iorque, mas a falta do controle do governo norte-americano sobre o sistema bancário. Ou, se quiserem, também do espanhol, onde o terceiro maior banco do país, dirigido por ex-ministro da economia, quebrou e foi nacionalizado. Os bancos usam sistemas tão sofisticados que beiram cada vez mais a uma loteria do que a um negócio que deveria trazer a segurança aos seus clientes e ao país.”

Salej acrescenta que os governos têm dificuldades para controlar o sistema financeiro, que valoriza o jogo e os ganhos e não uma relação financeira que produza resultados para todos. “É um perigo para o mundo muito maior do que a bomba atômica”, concluiu, referindo-se provavelmente ao fato de que depois daquelas primeiras bombas atômicas lançadas sobre o Japão, elas não mataram mais ninguém, enquanto as sequelas da crise do sistema financeiro ameaçam de morte milhões de pessoas mundo afora.