O projeto de Temer não é o nosso. Este é?

Texto escrito por José de Souza Castro:

O manifesto do Projeto Brasil Nação, coordenado pelo professor da Fundação Getúlio Vargas Luiz Carlos Bresser-Pereira, veio a público há cinco dias, com 180 signatários originais. Aos poucos, vai se tornando conhecido, apesar de pouco divulgado pelos grandes meios de comunicação. Não deve cair no vazio. Precisa ser discutido com seriedade, pois aponta caminhos para que o Brasil possa sair da crise sem sacrificar mais ainda a maioria dos brasileiros.

Segundo a revista Carta Capital, ao longo “dos últimos meses, economistas, empresários, advogados, sociólogos, embaixadores, artistas e políticos discutiram a dramática situação do País e propostas para a retomada do crescimento consistente, com inclusão e independência. Das conversas nasceu o manifesto Projeto Brasil Nação”.

Entre os signatários originais, não encontrei nenhum que se identificasse como empresário. São 31 economistas, 25 jornalistas, 10 advogados, 9 sociólogos, 8 cientistas políticos, 5 professores, 5 engenheiros e 5 médicos, entre outras profissões, mas nenhum empresário. Há ainda cinco políticos, incluindo dois deputados (nenhum senador) e um possível candidato a presidente da República pelo PDT, Ciro Gomes.

Cadê os empresários que, segundo a revista de Mino Carta, um dos jornalistas signatários originais, teriam participado das reuniões? Bem, muitos apareceram depois, quando o manifesto foi aberto para as adesões, aqui. Até as 19h30 desta segunda-feira (17), havia 90 empresários signatários. E 207 jornalistas, inclusive eu.

Dou-me ao trabalho de destacar alguns pontos, sabendo das dificuldades que muitos leitores têm para ler manifestos na íntegra. Continuar lendo

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Juros altos e a busca desesperada por empregos

Charge do excelente Duke.

Charge do excelente Duke.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Tenho tratado aqui da questão dos juros altos pagos pelo governo brasileiro aos rentistas – os detentores da dívida pública, sobretudo os bancos –, mas posso ter sido acusado de, a exemplo da Lava Jato, ter convicção, mas não provas.

O jornalista Clóvis Rossi, em seu artigo dominical na “Folha de S.Paulo”, muito mais bem informado, mostra que juro alto, a título de combater a inflação, é uma falácia lucrativa.

Tão lucrativa, que, “basta dizer que, em apenas um ano, os rentistas (5 milhões de famílias?) recebem do governo, via juros, o que os beneficiários do Bolsa Família (14 milhões de famílias) levam 14 anos para ganhar”, conclui Clovis Rossi.

Seu artigo aumentou em muito a minha convicção.

Ele se baseia num estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional em 1999, que desmontava a sabedoria convencional que diz que aumentar os juros derruba a inflação e vice-versa. O estudo abordou 1.323 casos de 119 países e verificou “que, na maioria absoluta deles, a inflação caiu, qualquer que tivesse sido a ação do respectivo Banco Central, aumentando, diminuindo ou mantendo a taxa de juros”.

Clóvis Rossi já havia escrito sobre esse estudo em maio de 2003, primórdios do governo Lula. E repete: “A maior porcentagem de êxito (ou seja, de casos em que a inflação caiu) se deu justamente quando o BC reduziu os juros. Nesse caso, a porcentagem de sucesso foi a 62,18% dos 476 casos examinados, contra 50,75% dos 398 casos em que a inflação caiu quando a taxa de juros aumentou.”

Na época, seu artigo despertou o interesse do professor Delfim Netto, ministro da Fazenda durante a ditadura militar de 1964, e do então ministro da Fazenda Antonio Palocci, que telefonou a Rossi e ouviu dele a pergunta óbvia: Continuar lendo

Como o golpe não reverteu as expectativas na economia

Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

Texto escrito por José de Souza Castro:

O mineiro Fernando Nogueira da Costa se formou em economia em 1974 pela UFMG e fez doutorado na Unicamp em 1985, defendendo tese sobre o caso Banestado. Desde então, é professor da Unicamp. Seu livro mais conhecido é “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012). Durante cinco anos, foi diretor-executivo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Tudo isso, para dizer que não é nenhum “porra louca”.

E por que é preciso deixar isso bem claro? Porque ele acaba de publicar artigo mostrando como os golpistas que “apostaram que o golpe iria reverter as expectativas” se frustraram.

“Acreditavam que, daí em frente, com eles usurpando o poder executivo, tudo seria diferente e sairia a mil maravilhas”, escreveu Costa. “Seu exército de ‘chapas-brancas’ foi colocado na mídia para, supostamente, serem ‘formadores-de-opinião’. Fracasso total”.

A insistente repetição cotidiana na imprensa das palavrinhas mágicas “confiança”, “credibilidade”, “seriedade”, “produtividade”, “eficiência”, “eficácia”, “disciplina”, “cenário otimista”, entre outras do jargão yuppie, usado e abusado por jovens executivos neoliberais em escalada social, não conseguiu reverter as expectativas pessimistas quanto ao futuro nacional, constatou o economista mineiro.

Nem é preciso dizer – e quem diz, mesmo assim, sou eu – que as expectativas pessimistas foram criadas antes das eleições de 2014 no esforço de barrar a reeleição da presidente Dilma Rousseff e reforçadas, em seguida, para apeá-la do poder pelo impeachment.

Voltando a Fernando Nogueira da Costa: “Um problema desafiante é  como superar a imagem mundial negativa de um país que não respeita o resultado da eleição democrática com a vitória de um determinado programa de governo: o social-desenvolvimentista.  E os golpistas tentam implementar o programa neoliberal oposto ao vencedor nas quatro últimas eleições!”, escreve ele, com os devidos destaques e o ponto de exclamação.

Mais adiante, o economista desanca o ministro da Fazenda, que “já perdeu sua credibilidade desde quando cometeu atrozes ‘barbeiragens’ no comando do Banco Central do Brasil” e agora se tornou cúmplice, juntamente com a Fiesp, na desindustrialização brasileira.

O quadro visto sob a ótica de Fernando Nogueira da Costa é dramático. Continuar lendo

Brasil em crise e bancos lucram como nunca

Não descobri quem é o autor da charge :(

Não descobri quem é o autor da charge 😦

Texto de José de Souza Castro:

No dia 19 de outubro escrevi artigo mostrando, com base em levantamento da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, que 22 bancos estavam na lista dos 500 maiores devedores da União. Eles deviam um total de R$ 14,4 bilhões, dos quais R$ 4,8 bilhões pelo Bradesco, de cuja diretoria fazia parte o atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O valor, soube-se na semana passada, é quase equivalente ao lucro do Bradesco (R$ 4,12 bilhões) em um único trimestre: o terceiro deste ano.

O Itaucard estava também na lista de devedores, com R$ 1,3 bilhão. E o Banco Itaú Unibanco, do qual faz parte, divulgou nesta terça-feira (3) um lucro líquido contábil no terceiro trimestre de R$ 5,945 bilhões. É um valor 10% maior que no terceiro trimestre de 2014, quando o ministro da Fazenda chamava-se Guido Mantega.

Desde então, o dólar disparou em relação ao real. Só no último trimestre deste ano, subiu cerca de 28%. Se alguém acha que só os exportadores brasileiros lucraram, engana-se. O jornal “Valor Econômico” foi claro na notícia divulgada nesta terça-feira. Diz que a carteira de crédito do Itaú Unibanco “cresceu sob efeito da variação cambial, a exemplo do ocorrido em outros bancos”.

O estoque de créditos desse banco alcançou R$ 590,7 bilhões. Aumentou 4,3% no trimestre e 10,1% nos últimos 12 meses. “Sem o efeito da variação cambial, a carteira teria encolhido 1,1% no trimestre e 0,4% em 12 meses”, acrescenta o jornal.

Não há informação sobre a influência da alta expressiva da Taxa Selic sobre o lucro do banco, um tema que parece tabu na grande imprensa. Poucos se preocupam em explicar por que bancos estão lucrando tanto, se a economia brasileira, tal como se propala diariamente, sobretudo na televisão, está em queda.

Talvez haja exagero nesse diagnóstico. Se é tão grave a crise brasileira, por que a inadimplência de pessoas físicas no Itaú Unibanco acima de 90 dias manteve-se em 3,3%, mesma taxa do segundo trimestre? E por que só teve aumento de 0,1 ponto percentual em comparação com o terceiro trimestre de 2014, ou seja, antes da reeleição da presidente Dilma? Ainda, por que o calote de empresas registrado pelo banco caiu 0,2 ponto percentual, ficando em 2%, entre o segundo e o terceiro trimestre deste ano?

E o banco prevê que sua carteira de crédito vai aumentar neste ano entre 3% e 7%!

Afinal, é grave a crise para quem?

Talvez para o BNDES, que tem socorrido empresa de amigo do Lula? Mas o BNDES divulgou nota para desmentir o jornal que divulgou a notícia com grande destaque no domingo. Em que conclui: “Prova disso é que foi o BNDES que entrou com o pedido de falência da empresa, após esta não ter cumprido o acordo de recuperação judicial. A estruturação rigorosa de garantias exigidas pelo BNDES para realizar a operação torna exequível que o banco recupere seu crédito.”

Sim, a nota diz ainda que “o rigor aplicado na análise de operações e na estruturação de garantias faz com que o BNDES tenha inadimplência de apenas 0,05%, a menor que todo o Sistema Financeiro Nacional, público e privado”.

É só comparar com a do Itaú Unibanco, digo eu. Acho que nunca foi tão verdadeiro o que eu ouvia quando adolescente, antes das crises bancárias do final do século passado: “Não há negócio melhor do que um banco bem administrado; e o segundo melhor negócio do mundo é um banco mal administrado.”

O banco Santander lucrou no Brasil, no terceiro trimestre deste ano, R$ 1,266 bilhão, mais do dobro do lucro de um ano atrás (R$ 537 milhões). Com sede na Espanha, também em crise, o Santander talvez não estivesse tão bem, não fosse a filial do Brasil – um país em crise, mas que trata muito bem os bancos, quaisquer que sejam suas origens.

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Sem vingança apocalíptica, por favor

Reprodução / Facebook

Reprodução / Facebook

Texto escrito por José de Souza Castro:

Um dos artigos mais intrigantes que li nos últimos dias tem como título “A vingança apocalíptica”. Foi escrito pelo físico Rogério Cerqueira Leite, em seu site.

“Hoje estão em consonância no Brasil forças extremas da sociedade, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. O PSDB abraça os descontentes chantagistas do PMDB, enquanto o vampiresco Eduardo Cunha e sua horda de zumbis dão beijocas no sanguinário deputado Carlos Sampaio”, diz o físico. E após desencadear uma série de questões, vem com a hipótese da renúncia de Dilma Rousseff. Então, a questão maior: o que aconteceria em seguida?

Não haveria mais um inimigo comum – Dilma e PT – a unir a reacionária alta burguesia, a imprensa direitista, a população alienada e a estudantada militante alinhadas para os panelaços. “Vocês já imaginaram a balbúrdia que se instalaria no Brasil? Sem um inimigo comum, um bode expiatório geral? Como iriam comportar-se esses atores tão individualistas, tão egocêntricos da política nacional?”, indaga Cerqueira Leite. E conclui: “Ah, que pena que Dilma não é vingativa. Que pena, mas que sorte!”

Pensando bem, o Brasil tem sorte. Pela própria natureza, o Brasil tem sorte. Tem sorte também porque não é uma ilha isolada do resto do mundo. Mesmo quando tudo parece conspirar para manter o país na ignorância de sua riqueza e de seu potencial humano e econômico, chegam do exterior algumas notícias que não podem continuar sendo ignoradas pela imprensa local.

O caso, por exemplo, das descobertas feitas na Suíça que se tornaram manchete, neste sábado, 10 de outubro, da “Folha de S.Paulo“. Informa o jornal paulista que a Procuradoria-Geral da República recebeu dossiê enviado pelo Ministério Público da Suíça. Ele revela que dinheiro de propina recebida pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, para viabilizar um negócio da Petrobras na África – a compra de um campo de exploração de petróleo em Benin por US$ 34,5 milhões – foi depositado em contas secretas atribuídas a Cunha e sua mulher, a jornalista Cláudia Cunha.

Dessas contas teriam saído, ao longo de sete anos, recursos para pagamento de despesas pessoais de Cunha e sua mulher no valor total de US$ 1,09 milhão (cerca de R$ 4,1 milhões), incluindo faturas de dois cartões de crédito e de uma famosa academia de tênis na Flórida.

Outra notícia a mostrar que, apesar da roubalheira de alguns políticos, o Brasil tem jeito, foi divulgada pela BBC Brasil: “O número de pessoas vivendo em situação de pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013, passando de 13,6% para 4,9% da população, segundo dados divulgados nesta semana pelo Banco Mundial.”

Minha tendência é continuar acreditando no futuro do Brasil, apesar dos pesares. Não tenho o conhecimento nem a clareza de um Celso Antônio Bandeira de Mello, professor de direito da PUC-SP e tido como o maior especialista em Direito Administrativo brasileiro, mas concordo com ele em muitos pontos de uma entrevista recente que pode ser lida aqui. Segundo ele, o país não está tão mal hoje quanto no tempo do governo Fernando Henrique Cardoso, em que o Brasil quebrou duas vezes – ou seja, por duas vezes precisou recorrer ao FMI.

Na opinião do jurista, a maior diferença entre os governos tucanos e petistas se relaciona com o comportamento da imprensa, que antes minimizava as dificuldades e hoje as reforça. Nas palavras dele: “Então não estou tão impressionado assim com a situação econômica. É que houve notoriamente uma crise internacional muito grande. A Dilma pegou essa crise. Eu não vou dizer que a administração dela é isso e aquilo, porque não sou político, não estou por dentro, mas, seguramente, não é calamitosa como a de Fernando Henrique. Logo, o que há de diferente? Há que a imprensa resolveu derrubar a Dilma.”

E, se a imprensa for bem-sucedida — ou Dilma resolver se vingar, como imaginou o físico que abre este post — o que aconteceria em seguida? Deixo para a imaginação de cada um.

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