Como o golpe não reverteu as expectativas na economia

Foto: Pixabay

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Texto escrito por José de Souza Castro:

O mineiro Fernando Nogueira da Costa se formou em economia em 1974 pela UFMG e fez doutorado na Unicamp em 1985, defendendo tese sobre o caso Banestado. Desde então, é professor da Unicamp. Seu livro mais conhecido é “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012). Durante cinco anos, foi diretor-executivo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Tudo isso, para dizer que não é nenhum “porra louca”.

E por que é preciso deixar isso bem claro? Porque ele acaba de publicar artigo mostrando como os golpistas que “apostaram que o golpe iria reverter as expectativas” se frustraram.

“Acreditavam que, daí em frente, com eles usurpando o poder executivo, tudo seria diferente e sairia a mil maravilhas”, escreveu Costa. “Seu exército de ‘chapas-brancas’ foi colocado na mídia para, supostamente, serem ‘formadores-de-opinião’. Fracasso total”.

A insistente repetição cotidiana na imprensa das palavrinhas mágicas “confiança”, “credibilidade”, “seriedade”, “produtividade”, “eficiência”, “eficácia”, “disciplina”, “cenário otimista”, entre outras do jargão yuppie, usado e abusado por jovens executivos neoliberais em escalada social, não conseguiu reverter as expectativas pessimistas quanto ao futuro nacional, constatou o economista mineiro.

Nem é preciso dizer – e quem diz, mesmo assim, sou eu – que as expectativas pessimistas foram criadas antes das eleições de 2014 no esforço de barrar a reeleição da presidente Dilma Rousseff e reforçadas, em seguida, para apeá-la do poder pelo impeachment.

Voltando a Fernando Nogueira da Costa: “Um problema desafiante é  como superar a imagem mundial negativa de um país que não respeita o resultado da eleição democrática com a vitória de um determinado programa de governo: o social-desenvolvimentista.  E os golpistas tentam implementar o programa neoliberal oposto ao vencedor nas quatro últimas eleições!”, escreve ele, com os devidos destaques e o ponto de exclamação.

Mais adiante, o economista desanca o ministro da Fazenda, que “já perdeu sua credibilidade desde quando cometeu atrozes ‘barbeiragens’ no comando do Banco Central do Brasil” e agora se tornou cúmplice, juntamente com a Fiesp, na desindustrialização brasileira.

O quadro visto sob a ótica de Fernando Nogueira da Costa é dramático. A Dívida Líquida do Setor Público alcançou R$ 2,699 trilhões (44,1% do PIB) em setembro de 2016. Nos primeiros nove meses deste ano, houve elevação de 7,9 pontos percentuais na relação dessa dívida com o Produto Interno Bruto.

A maior parte do déficit primário no ano é decorrente do saldo negativo da Previdência Social (de R$ 112,6 bilhões, mais que o dobro dos R$ 54,2 bilhões em igual período de 2015), “que sofre com a queda brutal das receitas decorrente do aumento do desemprego e da crise econômica”. Ao mesmo tempo, os investimentos públicos caíram neste ano, até setembro, 15,7% em termos reais, ou seja, descontada a inflação. Os investimentos totais do governo federal totalizaram R$ 34,269 bilhões. Apenas 0,54% do PIB estimado para 2016. Em 2014, último ano da Era Social-Desenvolvimentista, os investimentos chegaram a 1,4% do PIB.

A fraca atividade econômica só serve para ter impacto no resultado das contas externas, observa o economista. “A dificuldade em retomar o crescimento segura as importações e ajuda a elevar o saldo comercial, além de diminuir as remessas de lucro e dividendos das empresas ao exterior. As remessas recuaram de US$ 2,04 bilhões em setembro de 2015 para US$ 899 milhões”, diz Costa, esclarecendo: “O superávit do balanço comercial total no acumulado até setembro se expandiu de US$ 10,3 bilhões para US$ 36,2 bilhões de 2015 para este ano”.

Por fim, a cereja do bolo: os bancos estão pagando menos para captar dinheiro no mercado, mas aumentaram as taxas médias (53,4% ao ano) cobradas de seus clientes.  “Além de não repassar a queda dos custos de captação aos clientes, os bancos estão aumentando as margens brutas. O chamado spread bancário, a diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram de quem empresta o dinheiro, aumentou 9,1 pontos de dezembro de 2015 a setembro de 2016”.

"Brasil dos Bancos". Foto: Reprodução

“Brasil dos Bancos”. Foto: Reprodução

É o “Brasil dos Bancos” – não custa repetir. O ministro da Fazenda, um ex-banqueiro, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, um ex-economista-chefe do banco Itaú, não estão se incomodando com isso…

E nem Miriam Leitão, a célebre comentarista econômica da Rede Globo de Televisão, que tanto contribuiu para derrubar o governo petista e tanto se esforçou para reverter as expectativas após a posse de Temer. Leitão saiu de merecidas férias. Deve estar comemorando o revés do PT nas eleições municipais e a subida do PSDB ao comando de importantes prefeituras. Pode esquecer – mero detalhe – o que aconteceu em Belo Horizonte com o candidato tucano apoiado por Aécio Neves. Leite derramado é leite esquecido…

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3 comentários sobre “Como o golpe não reverteu as expectativas na economia

  1. Zé de Castro: este artigo está na contramão dos últimos acontecimentos, voce sabe disso no fundo, e não é este o sentimento do eleitorado, que praticamente destruiu o PT. Dispenso maiores comentários a respeito.
    Lana

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  2. O professor Fernando Nogueira da Costa escreveu novo artigo [https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/11/03/politica-monetaria-de-juros-concentradora-de-riqueza-financeira/#more-45542] sobre os juros no Brasil. Trecho:

    “A quem beneficia esta política de juros (nominais e reais) disparatados em relação aos vigentes em todos os demais países? Obviamente, à casta de financistas que se apoderou do COPOM, cujos representantes não têm a postura ética de se declararem impedidos de beneficiar a si próprio, não podendo fixar o juro por “conflito de interesses“. Aliás, juro é interest em inglês, interés em espanhol, intérêt em francês, e falta-de-vergonha em português-brasileiro…”

    Significativa a diferença da taxa real paga em títulos do governo em 16 países (Reino Unido, Alemanha, França, Estados Unidos, México e Rússia, entre outros), quando comparada com aquela na qual o Conselho de Política Monetária (Copom) premia os investidores no Brasil, inclusive os que vêm de fora só para lucrar com os juros. Não fossem tal altos os “interesses” e o governo não precisaria cortar tanto dos pobres e remediados brasileiros..

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    • Sr: José de Souza Castro primeiramente prazer sou o Rômulo Carracho sou de Porto Alegre, mas já morei também em vários países inclusive os que o Sr: defende a ideologia….sabe aqueles comunistas…que aqui o sindicalistas e classistas burgueses e aclamados intelectuais da mídia, chamam de socialismo só para ser um nome mais bonito, assim como alguns ditos religiosos fazem , defendem o POBRE do Povo…..mas como o tempo sempre é Sr da razão ele tirou a mascara do seus….afinal se acabar o POBRE do Povo como patifes do PT, e todos estes outros profetas e santos dos paus ocos ,vão sobreviver com suas promessas? pena que no BRASIL não se prende cúmplices, pois é isso que os que defendem esta corja politica,é cúmplice….não gosto da politica Sr, pois todos são defensores de causa própria somente…mas gosto menos ainda de comunistas….afinal porque vocês não vão morar em países comunistas?vão lá ….Sem o Capital não há nada…nem emprego nem trabalho..nem família muito menos orgulho ..ou sonhos…nossa politica está nas mãos dos mesmos arcaicos de sempre que deixam o verdadeiro câncer do pais sem nunca resolve-lo que é o DESFUNCIONALISMO público…que de público só tem os salários….ineficazes…morosos..inúteis….este são o perfil…destes sanguessuga do erário público.
      Quer defender uma tese Sr….vá primeiro experimenta-la…não venha com este verborrágico recalcado de quem não tem capacidade própria …que precisa que o estado lhe mantenha…Estes miseráveis é que matem estes profetas de araque no cenário politico usando de todo tipo de chantagens e promessas de um caminho fácil da maracutaia e da corrupção , que formam bem a realidade nacional, que alguns fanáticos ainda acham que não se o povo vota é sagrado..kkkkk ..

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