Desabafo de um gordinho

Recebi o texto abaixo, um verdadeiro desabafo, do leitor Gabriel Nadal Branco Martins. Ele nos faz refletir sobre a ditadura que as pessoas com sobrepeso vivem nos dias de hoje, tema já abordado aqui no blog. Começa na pré-escola, com o bullying, continua na adolescência, com as piadas e a dificuldade de encontrar paqueras, e segue pela vida profissional afora, com vários empregos sendo vetados (basta ver a quantidade de processos na Justiça do Trabalho sobre isso). Mas ninguém melhor do que o próprio Gabriel para nos contar:

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático "fumador"

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático “fumador”

“Desde pequeno sou gordo. Motivo de piadas e zoação, antes de inventarem o bullying, zoar o gordo já era normal. Em sala de aula, eu queria me enturmar e soltava uma piada — e, claro, ninguém ria, ficava aquele silêncio mais constrangedor. Dois minutos depois, o magrão largava a mesma piada sem tirar nem pôr: a sala caía na risada. Aprendi a ser zoado, ao menos assim fiz alguma amizade colegueira; deixava me zoar pra não ficar totalmente excluído.

A infância passava e eu pensava: “Beleza, na adolescência vai mudar…”. Pois bem, não muda, você pode até colocar a melhor roupa, seu melhor perfume, mas, mesmo assim, você ainda é alvo de zoação. Você vai a uma loja de roupas e não compra aquela que é legal, e sim a que serve.  Na festa, é normal todos estarem comendo seu salgadinho ou qualquer porcaria, mas quando um gordinho levanta pra beliscar algo já vêm os pensamentos negativos: “Vai comer tudo e não vai sobrar nem migalha”, ou ficam com aqueles olhares maliciosos pra cima da gente.

Pra ficar com uma mina parece que ela está te fazendo um favor. Você quer ser atencioso, bacana, etc e tal, mas, no máximo, vira um “amigo”. Quando você tem um carro até aumentam suas chances, mas apenas para virar motorista — essas maria-gasolinas te dão moral, uma leve e fictícia chance de que você vai ficar com elas, mas… aquele seu amigo magro cata sua “amiga”.

Depois ficam falando: “Ah, é que você não se enturma, fica isolado”, ou coisa parecida. Esses que a sociedade julga “normais” não sabem e nunca saberão o que é ser um gordinho. O que um gordinho passa em um dia, muitos magros não suportariam nem por 1 minuto. Batalhamos para não entrar em depressão, comecei a fumar para a ansiedade diminuir (já que tá tudo lascado mesmo, um mal a mais não faz diferença).

Vocês devem estar pensando: “Nossa, que baixa autoestima, que deprê…”. Pois é, caros leitores, os gordinhos se juntam entre si, pois sabem o que cada um passou. Meu melhor amigo é igual a mim: se ficamos isolados, ao menos estamos juntos rindo da nossa barriga.

Festas? Tô fora, se é pra ficar rodado, prefiro ficar em casa. O que adianta eu saber cozinhar, lavar, passar, ser carinhoso, gentil, amigo, companheiro, intelectual, se sou gordo? Um magro que não sabe nem de onde o ovo da galinha veio é “o cara”. Dinheiro? Até ajuda, mas quem sai ganhando são seus “amigos”. Tenho carro, casa com piscina, barco, som muito bom, mas NA MINHA FESTA NA MINHA CASA COM MINHAS COISAS quem fica com as minas são os outros. Você fica no máximo conhecido por dar uma festa bacana, elas colam em você, pois sabem que tem de tudo e lá vão encontrar os “caras perfeitos”.

Posso contar nos dedos as mulheres com que fiquei, mas com muita luta e muito gasto também. Se for pra gastar com mulher hoje, prefiro ir ao cabaré: lá eu sei que não importa minha aparência e sim minha carteira, que é a única coisa gorda de que todos gostam, a carteira recheada.

Família? Não posso reclamar muito, mas já passei muita tristeza com pai-mãe-tio falando do meu peso, de como devo comer, de que devo consultar endocrinologista. Putz, se fosse contar quantos médicos e dietas malucas pelos quais já passei daria pra escrever um livro. Não é por falta de tentar, já que não nos enquadramos na sociedade: fazemos esportes, dietas macabras, coisas que até Deus duvida, mas nossa genética não ajuda, há o tal efeito sanfona.

Aí falam que eu não me aceito. Claro que me aceito, só falta a sociedade me aceitar, pois o que adianta eu me aceitar e os outros não?

Hoje tenho 24 anos, estudo, trabalho, mas meu melhor passatempo é ficar na beira da lagoa, sem ninguém pra falar o que devo comer e como devo ser. Pito meu palheirinho sossegado, pesco bem tranquilo.

Ainda penso em um dia namorar sério — puxa, seria algo incrível! Eu lembro que, no tempo do Orkut, eu queria colocar o status “namorando”, porque ia ser algo incrível. Meus namoros não deram certo porque eu “dava atenção demais”. Mas não demorava muito e lá estava a garota nos braços de um boy atlético. Falam que o gordinho é todo meloso, sabe por quê? Simples: quando uma mulher lhe dá atenção ou até fala com você, fazemos de tudo para não perder , pensamos: “Quando vamos encontrar uma de novo??”. Mas hoje a mulher prefere o cafajeste, aquele magrão que pisa e judia. E quem roda?? ACERTOU: o gordo. Eu falo o mesmo sobre as gordinhas: são lindas, boa gente e boas companhias, mas atualmente a maioria também espera pelo príncipe atlético.

Gordinhos e gordinhas do Brasil: levantem a cabeça, pois vocês são muito melhores do que a sociedade fala que devem ser. Deixei aqui meu desabafo para a sociedade. Estão idolatrando a anorexia, e aí tem muita gente fazendo cirurgias e dietas macabras para se enquadrar na sociedade. Se esquecem de nós, então vamos fazer a nossa sociedade, a nossa moda e provar que podemos ser muito felizes!”

(Texto de Gabriel Nadal Branco Martins)

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Quer enviar seu texto para publicação aqui no blog? É só entrar em contato e, se o texto tiver a cara deste blog, terei o maior prazer em publicá-lo 😉

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