A tal da mudança cultural

lixeira

Houve um tempo em que era comum as crianças pegarem um estilingue, mirarem num passarinho, e – pum! – atirarem uma pedra. Ganhava pontos aquele moleque que abatia mais aves.

Hoje, as crianças já aprenderam as cores das latas de lixos recicláveis, conhecem a palavra “ecologia”, e puxam a orelha dos pais que jogam papel no chão.

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Houve um tempo em que as crianças eram transportadas no “chiqueirinho” dos carros estilo Belina, ou no porta-malas aberto mesmo, e ninguém usava cinto de segurança.

Hoje,  colocar o cinto se tornou um gesto automático de motoristas e passageiros, a cadeirinha é obrigatória por lei e está se disseminando, as crianças brigam com o pai que avança o sinal vermelho.

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Houve um tempo em que as Redações de jornais e repartições em geral eram esfumaçadas com os cigarros, fumava-se nos aviões, nos ônibus interestaduais, nos filmes, nos desenhos animados infantis, havia festivais de música e esportivos patrocinados por marcas de cigarro e propagandas em qualquer horário de TV. Era glamouroso e chique fumar.

Hoje, os fumantes, que são cada vez mais minoria, precisam fumar ao ar livre ou dentro de casa e a publicidade dessas substâncias com 4.700 toxinas é restrita. Os maços vêm com fotos chocantes sobre os danos causados pelos cigarros, para evitar o surgimento de novos dependentes, especialmente as crianças.

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Houve um tempo em que ser solteira era motivo para discriminação, ser divorciada era a desgraça social das mulheres e de seus filhos, ser gay era motivo de vergonha, ser de outra religião fora a católica (no Brasil) era motivo de olhares estranhos, ser ateu era praticamente um crime.

Hoje as mulheres são tão donas de seus narizes como os homens, os casamentos ruins dão lugar a outras possibilidades de relacionamentos mais felizes, o divórcio foi agilizado e pode ser feito em questão de um dia, atores e políticos vêm a público defender sua orientação sexual como forma de bandeira política, faz-se filmes sobre o espiritismo a  cada semestre, cresce a defesa do Estado de direito laico.

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Não dá para saber, de cara, se o que está havendo é uma evolução. Há quem defenda que não seja. Mas, no meu ponto de vista, essas mudanças culturais recentes e relativamente rápidas (no caso, por exemplo, do cinto de segurança, por força de lei) estão tornando as pessoas mais sensatas, felizes, tolerantes, abertas, responsáveis e contribuindo para um mundo melhor. Nem todas estão ainda consolidadas, como se vê na quantidade de pessoas escandalizadas porque os trabalhadores domésticos ganharam alguns dos direitos dos demais trabalhadores (nem foram todos). Como se vê no Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Como se vê no preconceito que ainda existe contra umbandistas, muçulmanos, negros, mulheres, gordos (acho que são um dos mais discriminados hoje em dia e pouco se fala deles), carecas, gays, assexuados e demais pessoas que fogem a um padrão de normalidade estabelecido não se sabe bem onde.

De todo modo, estamos avançando.

Num futuro breve, da geração dos meus filhos (tomara), será normal, por exemplo – como é o uso do cinto de segurança e da camisinha – que as pessoas achem absurdo beber e dirigir e troquem automaticamente o carro próprio pelo táxi quando pretenderem cair na noitada. Depois da coerção da lei e da multa que vivemos hoje, haverá também uma mudança cultural – a mesma que atingiu o cigarro – que fará com que nossos jovens do futuro jamais queiram pisar no acelerador depois de um copo ou um engradado de cerveja, como ainda fazem alguns jovens de hoje. Como eu mesma já fiz.

Quem venha a evolução também nesta seara. E que ela se torne natural e espontânea.

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4 comentários sobre “A tal da mudança cultural

  1. vamos ver o que vai acontecer…ainda não estou tão confiante, mas vamos dizer assim esperançoso…de que as gerações que vem chegando podem vir um pouco diferente…sem tanto pensamento em carro…fastfood…tecnologias descartaveis…e tantas outras coisas…vamos ver…

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