Retrato sem plumas de uma elite sem lei

É muito raro eu ir ao teatro, por isso vocês quase não veem resenhas de peças aqui no blog. Então foi com satisfação que recebi o texto abaixo, escrito e enviado pelo leitor Douglas Garcia, professor de filosofia da UFOP que já foi apresentado neste espaço. A dica dele é que todos corram para assistir ao espetáculo “Infância, Tiros e Plumas”, em cartaz do Centro Cultural do Banco do Brasil de Belo Horizonte desde a última sexta-feira. Vejam por que vale a pena assistir:

 

Divulgação

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“Infância, tiros e plumas” está em cartaz no CCBB de Belo Horizonte, nas sextas, sábados e domingos até o dia 07 de Setembro. Texto de Jô Bilac e direção de Inez Viana. Fugindo do esquema “Zorra total” que grassa como uma praga em nossos palcos, é uma peça que merece ser vista.

O texto e os atores são excelentes, com destaque para as espetaculares atrizes femininas: Bianca Byington, Juliane Bodini e Carolina Pismel. A peça é engraçadíssima, lembrando o humor de filmes como o argentino “Relatos Selvagens”, de Damián Szifron e “Amores Passageiros”, de Pedro Almodóvar. O cenário é simples, mas funciona muito bem visualmente. Há poucas inserções musicais, mas quando ocorrem são de forte impacto dramático.

O texto de Jô Bilac é o maior trunfo da peça. Dotado de uma linguagem rápida e direta, tem enorme potencial de comunicação com o público e é afiado na crítica do presente brasileiro. Mais especificamente, da substituição brasileira da lei pelo “esquema”, praticada de modo complacente pelas suas elites e elevado a forma de vida e de relação com o país e com os outros. Explico.

Enquanto a lei é impessoal, supõe o respeito aos direitos iguais de todos e um compromisso coletivo com o país, o “esquema” é pessoal, supõe o poder de desrespeitar todos que se ponham como obstáculo aos próprios interesses privilegiados e um descompromisso com a ideia de país. Não por acaso, a peça se passa em um aeroporto e em um avião, na primeira classe de um voo para a Disney. Para essa elite, o Brasil é apenas um cenário como outro qualquer.

A peça capta com rara sensibilidade esse estado de coisas que é o nosso. Seu achado é desdobrar em pequenas cenas cômico-dramáticas, que se comunicam entre si, a estrutura geral brasileira de “esquema” e desrespeito sistemático das pessoas. E mostrar como essa estrutura se dinamiza: prática comum das elites, ela se espraia para todos os grupos sociais, inclusive as crianças. Com efeito, uma das cenas mais cruéis da peça se dá quando duas crianças humilham um comissário de bordo negro e nordestino. A peça lança mão de um mecanismo desestabilizador do preconceito: mostra a brutalidade brasileira passada às crianças como mecanismo de perpetuação de desigualdade de direitos e de oportunidades.

Imperdível.

Uma nota pessoal: depois da peça, ouvi uma situação que poderia ter se passado “dentro” da peça. Fui jantar em um bom restaurante da Zona Sul, muito movimentado naquele horário. Ao dirigir-me ao lavabo, não pude deixar de ouvir um dos garçons comentar com outro: “Ele falou para mim: ‘Você vai me atender AGORA!’ e eu falei para ele: ‘E você vai largar o meu braço'”.

Brasil.

—> Mais sobre a peça:

“Infância, Tiros e Plumas”
Em cartaz até 7 de setembro
Sexta, sábado e segunda às 20h; domingo às 19h
Duração: 80 minutos
R$ 10 inteira, R$ 5 a meia
No CCBB: Praça da Liberdade, 450
Mais informações AQUI

—> Quer enviar seu texto para o blog?

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Novas regras para o consumidor = desrespeitos inéditos

claro

Preciso cancelar um modem na operadora Claro.

(Primeiro, um breve parêntesis sobre a contratação do serviço: resolvi comprar no Natal do ano passado, para meus pais usarem quando estivessem viajando. O cara da loja ofereceu o modem por R$ 35 ao mês. Quando chegou a conta: tcharam! Veio uns dez reais maior. Aparentemente, o vendedor “se esqueceu” de cadastrar o meu desconto. Como eu tinha guardado o contratinho, passei todos os dados para a operadora, com direito até ao código do funcionário e à hora da compra, com cópia para a Anatel. O problema foi resolvido e, na fatura de março, já passou a vir com um novo desconto cadastrado para mim, válido por um ano. Pra piorar, minha mãe esgotou a quota do mês na primeira vez que resolveu usar o modem, demonstrando que o pacote, na verdade, não serve pra nada, e é bem pior do que tinham me vendido na loja, além de ser muito lento. Desanimados com a primeira experiência, meus pais usaram o serviço apenas umas três vezes em todo o ano.)

Enfim, por isso, precisava cancelar o serviço. Resolvi fazer isso agora, passado um ano, para não ter que pagar nenhuma multa adicional por causa de carência.

Telefono para o telemarketing da Claro, disposta a enfrentar aquela via-crúcis de sempre.

Disco 1052.

Digito meu CPF.

Ouço a gravação: Blablablablablá.

Láááá na opção 7, o cancelamento da linha.

“Para cancelar com a ajuda de um atendente, digite 1. Para cancelar sem ajuda de atendente, digite 2.”

Ulalá! A lei está sendo cumprida, será?! Teclo “sem ajuda”, claro!

Ouço a mensagem ameaçadora: “Prezado cliente, esta solicitação pode gerar multa para você. Além disso, há informações importantes sobre o cancelamento que só podem ser fornecidas pelo atendente. Para receber estas informações agora, digite 1.”

Bom, deixa eu ver o que têm a me dizer. Quero confirmar o prazo de carência para ver se não sobrará nenhuma multa mesmo. Vamos lá! Um.

Passo a ouvir: Blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablá.

A atendente finalmente interrompe as gravações. E dá-se início a um daqueles diálogos de filme de terror:

Ela diz que faltam 11 dias para a carência terminar e diz que será gerada uma fatura proporcional, com multa de R$ 4.

“Quatro?! Ok, pode cancelar mesmo assim”, respondo.

E ela fica batendo na tecla: mas espere mais 11 dias, porque aí você não paga mais a multa.

E vou pagar um proporcional maior da fatura do mês por causa de R$ 4? Não, obrigada. Cancela agora.

A senhora vai cancelar por quê?

Minha vontade é responder: porque me deu na telha. Ou, melhor: porque adoooooro conversar com telemarketing, mas não se preocupe, na semana que vem vou ligar para vocês de novo para recontratar! Mas respondo contando que as pessoas para quem comprei o modem não o utilizam.

E por que a senhora não usa o modem?

Porque não quero, já tenho internet de outra operadora.

E a senhora não tem para quem repassar o modem?

Se eu tivesse, não estaria cancelando.

Ok, mas antes de cancelar o serviço, vou te apresentar as ofertas.

Não, moça, você não está entendendo. Eu não sou cliente da Claro. Isso foi um presente frustrado. Quero cancelar. Nada do que você me disser vai mudar minha opinião, porque só quero cancelar!

Não interessa. Isso é um canal de relacionamento e eu tenho que te falar todas as promoções antes de cancelar.

Você TEM?! Se uma cliente telefona para o telemarketing pedindo o cancelamento e deixa claro que não quer ouvir as ofertas, que só quer cancelar, mesmo assim você vai me obrigar a ouvir uma por uma e ir rejeitando a cada vez? Você acha que vai me fazer ficar na Claro desse jeito simpático?

Sim, eu tenho. (E começa a falar a primeira promoção, de que já não me lembro mais.)

Desligo.

Ligo de novo para o 1052, opção 7, opção 2. Era para eu receber um SMS, que não chegou. Uns quatro dias depois, outra atendente me liga para confirmar o cancelamento que, pela opção 2 (e pela legislação!), era pra ter sido automático, sem passar por novo atendimento físico. Mais uma vez, ela pergunta por que quero cancelar a linha, se não quero ficar com ela, se não tenho para quem passar etc. Finalmente, linha cancelada.

Como já escrevi aqui no blog, toda vez que o consumidor brasileiro precisa de um atendimento de telemarketing, ele passa por um parto. Desta vez, fui tratada como um lixo porque a atendente quis me obrigar a escutar coisas que não pedi e ignorou meu pedido de não ter que passar por isso. Pra piorar, ao descumprir a nova legislação, me obrigando a lidar com atendente mesmo ao escolher a opção do cancelamento automático, a Claro me fez me sentir desrespeitada por um motivo inédito. Ou seja, quando a Anatel cria novas regras e leis parece só estar criando novos motivos para sermos desrespeitados.

Os empresários brasileiros (em geral, embora haja as exceções) ainda não aprenderam a tratar o consumidor como cidadão. Já disse e repito: “Qualquer valor que invistam em atendimento é insuficiente. Qualquer treinamento que dão aos atuais atendentes é ineficaz. Isso precisa ser melhorado com urgência” e é mais uma daquelas coisas para as quais a lei e a norma não são insuficientes — há que se ter uma mudança cultural, de todos os lados.

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A construção civil e a demência coletiva

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App com medidor de decibéis, posicionado na janela de casa, às 8h16 da manhã. Se alguém quiser baixar este app, chama-se Sound Meter e é gratuito.

Leio que, a cada dez decibéis perdidos de audição, os riscos de demência aumentam 27%. E que o excesso de ruído é uma das causas para a surdez — pior ainda por ser uma surdez irreversível, que só piora com o tempo. Ou seja, estamos caminhando para uma sociedade de dementes!

Falo por mim. Acordar todos os dias, às 7h30 em ponto, com o som de uma bate-estaca a 30 metros de distância (ou seria dentro do meu cérebro?), tendo ido dormir tarde da noite por causa do horário que chego do trabalho, não tem feito bem para minha saúde. Pra piorar, fico preocupada com o fator segurança: o prédio todo treme quando essa fundação trabalha ao lado, os vidros das janelas vibram, e a cratera que fizeram é gigantesca. Já acordo com medo de virar personagem de noticiário, aquelas que perderam tudo, ou pior. Fico irritadiça, impaciente e mal-humorada em todo o período em que fico em casa, que deveria ser meu momento de descanso. E sonolenta quando estou no trabalho.

Hoje, passados vários dias de tortura, inclusive em feriados, perdi a paciência. Liguei para a fiscalização da prefeitura. Antes, me certifiquei do que diz a lei do silêncio em Belo Horizonte. É a lei 9.505/2008, assinada pelo então prefeito Fernando Pimentel, e pode ser lida AQUI.

Ela é clara:

Diz, primeiro, que é proibida a emissão de ruídos que ultrapasse os níveis fixados na lei (art. 2). São eles: até 70 decibéis, de 7h às 19h (art 4), e ainda menos de 19h às 7h. Serviços de construção civil podem extrapolar esse limite de 70 decibéis, chegando até a 80 dB, exclusivamente no período de 10h às 17h (art 10). Quem descumprir essa lei está sujeito a multa e até interdição.

Sabem o que é 70 dB? O equivalente a um carro (um!) passando perto. Uma única furadeira já ultrapassa os 100 dB. Imagine uma fundação inteira! (Detalhe: os operários dessa obra, que cheira a totalmente irregular, não usam nenhum equipamento de proteção pessoal. Nem mesmo auricular! Quando os vejo da janela, estão tapando as mãos com os ouvidos, com cara de dor… Liguei para o sindicato Marreta, e me disseram apenas que não podem fazer nada a respeito.) CLIQUE AQUI para ver a tabela de decibéis.

Enfim, ciente do que diz a legislação do meu município, telefonei para o 156 da prefeitura. Digitei 9 e, depois, 3. Registrei um pedido de fiscalização. Reza a lenda que ela vai acontecer em até dez dias úteis e, se eu não estiver demente até lá, prometo retomar o assunto aqui no blog, contando o que foi feito pelos fiscais.

Você também sofre com o desrespeito da construção civil? Em um bairro residencial? Você também sente que está ficando demente, com tanto barulho ao seu redor? Procure saber qual é a legislação do seu município e faça sua parte, registrando a denúncia. Quem sabe assim as construtoras pensem minimamente no dano que estão causando ao redor de uma obra e administrem melhor o período do dia em que ela deve ser executada.

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