O que Rubem Alves diria sobre a crise política do Brasil

Reprodução / Facebook

Rubem Alves. Foto: Reprodução / Facebook

Já falei aqui, e mais de uma vez, sobre o ótimo livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, do Rubem Alves. Este livro tem uma parte apenas sobre Política.

Nestes tempos de política tão conturbada no Brasil, recorri de novo às reflexões do sábio escritor.

Compartilho, abaixo, seis trechinhos que me chamaram a atenção:

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Sobre o ouvir

Enquanto eu escrevia o post de ontem, e voltava a mergulha na leitura de Rubem Alves, reencontrei uma reflexão dele sobre a importância de saber ouvir. Mais que isso: sobre como é difícil, embora necessário, que a gente saiba suspender nossas verdades para aceitar as verdades dos outros. Esse continho tem tudo a ver com aquele post que publiquei na sexta-feira. Mas também com o de ontem, e tantos outros. Por isso, resolvi trazê-lo para o blog, compartilhar com mais pessoas. Está na página 47 do livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola” (editora Planeta, 2008, encontrado a partir de R$ 18,87).

Boa leitura:

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Leia também:

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Prefere estar na prisão a continuar casado? Leia este texto!

"Isso é parte do nosso processo."

“Isso é parte do nosso processo.” Charge da “The New Yorker”

A repórter Carolina Caetano, de “O Tempo”, é daquelas que conseguem extrair as histórias mais surpreendentes a partir dos crimes e boletins de ocorrência mais banais. Ela tem um faro de repórter de polícia de antigamente: faz a ronda de sempre, entre os batalhões e delegacias, que todos os outros fazem, mas consegue descobrir, a partir das primeiras informações, as histórias mais inusitadas — daquelas que dão inveja ao “Sensacionalista” 😉

Uma das últimas reportagens dela que me chamaram a atenção foi esta da semana passada: “Marido se cansa das reclamações da mulher e implora para ser preso“. Além da história propriamente dita, fiquei impressionada com os comentários.

Escreveu Euclides Silva:

“Num primeiro momento, a notícia é engraçada e inusitada, mas só quem já passou (e ainda passa por isso) pode dimensionar. Elas começam a falar…se você se cala para encerrar o assunto, elas ficam mais nervosas e falam mais…se você responde, elas partem para a baixaria, gritam e ofendem você e sua família, e muitas ainda partem para a agressão física já alertando: “encosta, encosta a mão em mim que eu te denuncio com base na lei Maria da Penha”…Sei que muitos podem estar rindo, mas isso vem acontecendo, e muito…”

E o Henrique Silva:

“Isso é coisa mais comum do que se pensa. Casar com a pessoa errada é trágico, assim como escolher a profissão errada. São cruzes difíceis de carregar qdo erramos na escolha. Tb ja me deu vontade de me matar, sumir e ate me separar, mas o pobre qdo casa ao divorciar sempre sai no prejuízo. O jeito é aceitar calado e viver insatisfeito, uma mulher “largada” sabe muito brm como estragar a vida do ex companheiro, tudo piora mil vezes. O jeito é aturar, tomar cerveja e ver o futebol pra esquecer da vidinha que me meti. Eu entendo perfeitamente o q esse cara deve passar, tb sou vítima de mulher problemática e estressada dentro de casa, tudo ta ruim pra ela. Deus me livre! Fico o menos q posso em casa pra evitar atrito.”

Por fim, o Wagner Santos:

“Isso é mais comum do que todos pensam. Muitas mulheres ficam se fazendo de vítima e quando o homem tenta fazer alguma coisa pra resolver, elas fazem chantagem barata, fazem barraco e fazem um inferno na vida do homem. E ainda tem gente que acha que a mulher é uma florzinha plantada no jardim. Pra mim não significa nada ter dia internacional da mulher, pois muitas delas são apenas bonitas por fora é um fosso de propaganda enganosa. Lei para proteger os homens, já!”

Cada um desses comentários teve várias “curtidas”, mostrando que outros leitores concordaram ou se identificaram com a situação descrita por esses.

O que mais me chamou a atenção na reportagem e nos três comentários foi essa percepção triste dos casamentos. Pelo primeira vez, me dei conta da quantidade de casais infelizes que existem por aí, mas que optam por evitar o divórcio — seja por razões religiosas, seja por medo de serem julgados pela sociedade, seja por medo de ficarem no “prejuízo” –, e, sem encontrarem muita saída, acabam vivendo anos e anos de sofrimento, que tentam contornar com traições, bebedeira ou a pura tortura psicológica. Claro que, nessa sinuca, encontram-se tanto homens como mulheres.

Eu não me canso de pensar: por que não se separam, pura e simplesmente? Um colega, que já se divorciou, respondeu: “É muito mais complicado do que você imagina. O processo é traumático.” Mas será tão traumático quanto viver até o fim da vida preso a alguém de quem não se gosta? Pior: alguém que você odeia? Cuja companhia não suporta?

Lembrei imediatamente de um capítulo do livro “O velho que acordou menino“, com memórias do sábio escritor Rubem Alves. Conta ele:

“Segundo testemunhas fidedignas não há registro de que meu avô capitão Evaristo e minha avó Dona Delminda jamais tenham trocado palavras em público. (…)

Parece que eles se detestavam. Com razão. Não existe forma mais segura de fazer com que duas pessoas se odeiem que prendê-las numa mesma casa. (…) Os casamentos eram negócios arranjados pelos pais. (…) Os sentimentos não importavam. (…)

Não existe coisa que enfureça mais a parte raivosa de uma dupla do que saber que a outra parte está se divertindo. Muitos casais que se odeiam não se separam por não poderem suportar a ideia da liberdade feliz do outro. Ficam juntos a vida inteira pela insuperável felicidade de fazer da vida do outro um inferno.”

Lembro que, quando li este livro, achei a perspectiva do autor muito surreal e improvável. Mas a reportagem da Carolina  Caetano e os comentários que vieram depois provam que Rubem Alves estava certo. Acho que muitos não se separam justamente porque não se veem em outra vida além desta, em que trabalham arduamente para fazer a vida do cônjuge um inferno — e vice-versa.

Eu tenho ainda pouco tempo de casamento e acho inconcebível a ideia de me ver presa a alguém que eu não ame, admire e respeite — como amo, admiro e respeito meu marido, e tenho prazer com a companhia dele, em conversar com ele. Mas cada um é cada qual.

Aos que ainda não “escolheram a pessoa certa”, como definiu um dos comentaristas, dou uma dica do Rubem Alves para que o façam, com menos chances de erros, e evitem cair nesse círculo de horrores de preferir a prisão ao casamento. Em outro livro dele que gosto muito, “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, ele dá a receita (página 81):

“‘Ao pensar a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Serei capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a minha velhice?” (Nietzsche) Tudo o mais no casamento é transitório.”

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A simplicidade da morte, por Rubem Alves

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Li “Ostra Feliz não faz pérola” já faz um bom tempo. Em 2010, pra ser mais exata. Mas isso foi quando o li de cabo a rabo; depois disso, já retornei ao livro para consultas várias vezes.

Eu nunca gostei de livro de autoajuda. Não sou religiosa, não leio a Bíblia. Tampouco sou adepta de cartas de tarô ou da sabedoria chinesa do Tao-Te-Ching e afins. Por isso, quando me pegava naqueles momentos de reflexão profunda sobre as coisas, sobre a morte, a vida, o significado do mundo, não tinha para onde recorrer, como quase todo mundo tem. Até 2010, quando conheci este livro do Rubem Alves. E mergulhar nas palavras simples e bem-humoradas dele, claras e inteligentes — sábias — era o mesmo que mergulhar uma cabeça quente de dúvidas num poço gelado de cachoeira. Revigorante.

Não, não se trata de um livro de autoajuda. Mas é um livro de pequenos pensamentos, em forma de contos ou não (às vezes é um comentário casual sobre um filme, por exemplo), dividido em 11 partes. E essas partes tratam de assuntos-chave como amor, política, religião, velhice e morte. Por isso, ele passou a ser um daqueles livros-refúgio, como poucos livros funcionam para mim, que sou muito mais adepta da literatura de ficção do que da filosofia, história, biografia ou mesmo dos livros-reportagem.

Agora que o Rubem Alves morreu, me voltei ao último capítulo desse livro, que trata da Morte. Uma frase, pequetita, se destaca no capítulo: “Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: “Todos os seres humanos têm o direito de morrer sem dor”.”

Será que o mineiro Rubem morreu seu dor? Espero que sim.

Em outro trecho, ele conta como gostaria de ser velado. E eu espero que seus queridos que ficaram vivos tenham se lembrado desta delicadeza toda:

“Vou ser cremado por não gostar de lugares fechados. As cinzas podem ser soltas ao vento ou colocadas como adubo na raiz de uma árvore. Assim posso virar nuvem ou flor. Um jantar para os amigos com sopa, vinho e Jack Daniels. Será que no outro mundo há Jack Daniels? Ofício religioso, Deus me livre. Não quero que se digam palavras dizendo que fui para o céu. O céu me dá calafrios. Mas gostaria que meus amigos ouvissem algumas das músicas que amo. São muitas. Separei algumas. Gluck: Melodia, da ópera Orfeu e Eurídice, Nelson Freire ao piano. Está no seu DVD. De Bach: o Minueto, do Livro de Ana Madalena. É a coisa mais singela… O CD Bach, do grupo O Corpo, com o Uakti. A primeira suíte para violoncelo, sobre a qual escrevi o livro O Barbazul. O CD Lambarena, em homenagem a Albert Schweitzer, com ritmos africanos. Bach ficaria assombrado! A ária para a quarta corda. Carl Orff, a canção “In trutina”, da Carmina Burana. De Mozart, a Sonata em lá maior KV. 331 (Marcha turca); Uma pequena serenata (Eine kleine Nacht Music). Eu fazia meu filho Sérgio dormir ouvindo essa delicadeza… De Liszt: a Consolação no 3, de uma pungência infinita. De Dvorjak, Sinfonia do Novo Mundo, segundo movimento. De Ravel, o segundo movimento do Concerto para piano e orquestra em sol maior. E de Astor Piazzola, Oblivion, Arthur Moreira Lima ao piano.”

Você, caro leitor, já parou pra pensar como gostaria de ser velado? Isso não é algo necessariamente mórbido, quando tratado com a simplicidade do inexorável, como Rubem Alves tratou. Eu já pensei várias vezes. Para mim, é indiferente ser cremada ou enterrada. Já estarei morta, então, tanto faz. Quero que doem meus órgãos. E, sobretudo, não quero velório. Odeio velórios! Acho os velórios tristes e cruéis, uma espécie de ritual masoquista dos vivos. Mas, se fizerem muita questão — os vivos, digo –, também espero que coloquem para tocar algumas músicas bonitas e que sirvam cerveja gelada no lugar do Jack Daniels.

Estou parecendo muito lúgubre? É só minha tentativa de ver a vida com a clareza do conterrâneo de Minas, com a simplicidade dos sábios. Não deu certo, eu sei. Me interrompi antes de listar as músicas, com medo que pensassem que estou pensando em mortes como quem vai à feira, e não estou. Mas tentei 😉

Agora volto a recomendar fortemente que compre o “Ostra Feliz Não Faz Pérola” e o tenha como um livro de cabeceira, um livro-refúgio. Se quiser ler primeiro antes de comprar, CLIQUE AQUI, que achei um PDF para degustação. Depois me conte o que achou do livro, tá?

Outros posts sobre a morte:

 

A morte de um sábio e a sombra que ele deixou

Reprodução / Facebook

Reprodução / Facebook

Estou triste pela morte de Rubem Alves. Felizmente, ele trata do tema “morte” em várias páginas de seus livros. Sua visão da morte é, como em todas as suas visões, de uma sabedoria sem fim. Sábio, sábio Rubem Alves. Vou lá ler suas palavras para me consolar com sua eternidade literária.

Enquanto isso, deixo aqui recomendado que leiam os dois posts em que escrevi sobre Rubem Alves aqui no blog.

O primeiro é o “Memórias de um sábio — e a solidão infantil”. CLIQUE AQUI para ler.

O segundo, que pode ser visto AQUI, é a resenha de outro livro dele de que gostei muitíssimo, “Ostra Feliz Não Faz Pérola”. Abaixo, um dos continhos que lá encontrei e que iluminaram minha mente:

“Viviam, num país do oriente, cinco cegos que mendigavam juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já haviam ouvido falar de um animal extraordinário, enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito animal que muitos afirmavam que ele era divino. Mas eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante. Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu, porque Alá ouviu suas preces, que um domador de elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal. Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres falando. Ouvindo tal rebuliço os cegos perguntaram: ” O que está acontecendo?” “Um elefante, um elefante”, responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao domador que os deixassem tocar o elefante, já que ver não podiam. O domador parou o animal e os cegos se aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado, abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante os cegos começaram a conversar. “Quem diria que o elefante é como uma corda!”, disse o primeiro. “Corda coisa nenhuma”, disse o segundo. ” É como uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o terceiro. ” O elefante é como um muro muito alto.” “Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o quarto. ” São também cegos da cabeça. Pois é claro que o elefante é como um ventarola.” ” Doidos, doidos”, disse o quinto. ” O elefante é como uma cobra enorme…” Por mais que conversassem eles não conseguiram chegar a um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a seita do deus-corda, a seita do deus-palmeira, a seita do deus-parede, a seita do deus-ventarola, a seita do deus-cobra… Assim são as religiões.”

Rubem Alves não era só um escritor. Era um homem completo em seus 80 anos nesta Terra: pedagogo, poeta, filósofo, cronista, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, palestrante, autor de livros para crianças e psicanalista. É possível conhecer um pouco de sua carreira AQUI. Era um verdadeiro pensador, dos raros que existem no Brasil. Era bem-humorado, era simples. Fará falta nas páginas dos jornais e nas estantes das livrarias. Agora aguardo ansiosamente pelo surgimento de novos sábios como Rubem Alves, para nos trazer um pouco de alívio e frescor em meio ao blablabá conservador, irracional, extremista, radical, mal-humorado e politicamente correto que assombra nossos tempos modernos.

Leia abaixo: