José Olímpio e Mercedes, um breve conto de amor e amargura

Pequenos cuidados. Autor: Puuung

Autor: Puuung

Recebi o conto abaixo da leitora Rita Prudêncio, que completa 33 anos de idade hoje (feliz aniversário!! 😀). Ela é professora e pesquisadora universitária em Rio Branco, no Acre. Seus textos podem ser lido no blog Água Batendo no Nariz. Para entrar em contato com ela, basta enviar um email.

Quando terminei de ler o conto de Rita, pensei na hora em como o amor pode estar nas coisas mais prosaicas. Mesmo que mesclado à decepção, desilusão, amargura e outros sentimentos nem tão bonitos. O texto aborda a rotina de um casamento, do ponto de vista do cuidadoso marido. E é muito apropriado para este Dia dos Namorados. Por isso, recomendo a leitura pelos apaixonados e desapaixonados que passarem por aqui neste domingão.

Bom proveito:

 

“José Olímpio acordou assustado. O quarto estava escuro e mais quente que o habitual. Ele tateou o móvel perto da cama, em silêncio, para não despertar Mercedes, que ressonava a seu lado, e encontrou o telefone celular. Cobriu a cabeça com as cobertas, para evitar que a luz azul da tela acordasse a esposa, e olhou as horas. Passava das seis da manhã, estava atrasado. Continuar lendo

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Prefere estar na prisão a continuar casado? Leia este texto!

"Isso é parte do nosso processo."

“Isso é parte do nosso processo.” Charge da “The New Yorker”

A repórter Carolina Caetano, de “O Tempo”, é daquelas que conseguem extrair as histórias mais surpreendentes a partir dos crimes e boletins de ocorrência mais banais. Ela tem um faro de repórter de polícia de antigamente: faz a ronda de sempre, entre os batalhões e delegacias, que todos os outros fazem, mas consegue descobrir, a partir das primeiras informações, as histórias mais inusitadas — daquelas que dão inveja ao “Sensacionalista” 😉

Uma das últimas reportagens dela que me chamaram a atenção foi esta da semana passada: “Marido se cansa das reclamações da mulher e implora para ser preso“. Além da história propriamente dita, fiquei impressionada com os comentários.

Escreveu Euclides Silva:

“Num primeiro momento, a notícia é engraçada e inusitada, mas só quem já passou (e ainda passa por isso) pode dimensionar. Elas começam a falar…se você se cala para encerrar o assunto, elas ficam mais nervosas e falam mais…se você responde, elas partem para a baixaria, gritam e ofendem você e sua família, e muitas ainda partem para a agressão física já alertando: “encosta, encosta a mão em mim que eu te denuncio com base na lei Maria da Penha”…Sei que muitos podem estar rindo, mas isso vem acontecendo, e muito…”

E o Henrique Silva:

“Isso é coisa mais comum do que se pensa. Casar com a pessoa errada é trágico, assim como escolher a profissão errada. São cruzes difíceis de carregar qdo erramos na escolha. Tb ja me deu vontade de me matar, sumir e ate me separar, mas o pobre qdo casa ao divorciar sempre sai no prejuízo. O jeito é aceitar calado e viver insatisfeito, uma mulher “largada” sabe muito brm como estragar a vida do ex companheiro, tudo piora mil vezes. O jeito é aturar, tomar cerveja e ver o futebol pra esquecer da vidinha que me meti. Eu entendo perfeitamente o q esse cara deve passar, tb sou vítima de mulher problemática e estressada dentro de casa, tudo ta ruim pra ela. Deus me livre! Fico o menos q posso em casa pra evitar atrito.”

Por fim, o Wagner Santos:

“Isso é mais comum do que todos pensam. Muitas mulheres ficam se fazendo de vítima e quando o homem tenta fazer alguma coisa pra resolver, elas fazem chantagem barata, fazem barraco e fazem um inferno na vida do homem. E ainda tem gente que acha que a mulher é uma florzinha plantada no jardim. Pra mim não significa nada ter dia internacional da mulher, pois muitas delas são apenas bonitas por fora é um fosso de propaganda enganosa. Lei para proteger os homens, já!”

Cada um desses comentários teve várias “curtidas”, mostrando que outros leitores concordaram ou se identificaram com a situação descrita por esses.

O que mais me chamou a atenção na reportagem e nos três comentários foi essa percepção triste dos casamentos. Pelo primeira vez, me dei conta da quantidade de casais infelizes que existem por aí, mas que optam por evitar o divórcio — seja por razões religiosas, seja por medo de serem julgados pela sociedade, seja por medo de ficarem no “prejuízo” –, e, sem encontrarem muita saída, acabam vivendo anos e anos de sofrimento, que tentam contornar com traições, bebedeira ou a pura tortura psicológica. Claro que, nessa sinuca, encontram-se tanto homens como mulheres.

Eu não me canso de pensar: por que não se separam, pura e simplesmente? Um colega, que já se divorciou, respondeu: “É muito mais complicado do que você imagina. O processo é traumático.” Mas será tão traumático quanto viver até o fim da vida preso a alguém de quem não se gosta? Pior: alguém que você odeia? Cuja companhia não suporta?

Lembrei imediatamente de um capítulo do livro “O velho que acordou menino“, com memórias do sábio escritor Rubem Alves. Conta ele:

“Segundo testemunhas fidedignas não há registro de que meu avô capitão Evaristo e minha avó Dona Delminda jamais tenham trocado palavras em público. (…)

Parece que eles se detestavam. Com razão. Não existe forma mais segura de fazer com que duas pessoas se odeiem que prendê-las numa mesma casa. (…) Os casamentos eram negócios arranjados pelos pais. (…) Os sentimentos não importavam. (…)

Não existe coisa que enfureça mais a parte raivosa de uma dupla do que saber que a outra parte está se divertindo. Muitos casais que se odeiam não se separam por não poderem suportar a ideia da liberdade feliz do outro. Ficam juntos a vida inteira pela insuperável felicidade de fazer da vida do outro um inferno.”

Lembro que, quando li este livro, achei a perspectiva do autor muito surreal e improvável. Mas a reportagem da Carolina  Caetano e os comentários que vieram depois provam que Rubem Alves estava certo. Acho que muitos não se separam justamente porque não se veem em outra vida além desta, em que trabalham arduamente para fazer a vida do cônjuge um inferno — e vice-versa.

Eu tenho ainda pouco tempo de casamento e acho inconcebível a ideia de me ver presa a alguém que eu não ame, admire e respeite — como amo, admiro e respeito meu marido, e tenho prazer com a companhia dele, em conversar com ele. Mas cada um é cada qual.

Aos que ainda não “escolheram a pessoa certa”, como definiu um dos comentaristas, dou uma dica do Rubem Alves para que o façam, com menos chances de erros, e evitem cair nesse círculo de horrores de preferir a prisão ao casamento. Em outro livro dele que gosto muito, “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, ele dá a receita (página 81):

“‘Ao pensar a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Serei capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a minha velhice?” (Nietzsche) Tudo o mais no casamento é transitório.”

Leia também:

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Quantos balõezinhos você conquistou na vida?

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Vejam que lindo o delicado vídeo que encontrei no site Brainstom9 ontem:

Faz pensar tanto-tanto, em tantas coisas da vida, mesmo nesses 3 minutinhos de duração. Não vou colocar aqui, desta vez, tudo o que passou pela minha cabeça, todos os relacionamentos — no amplo sentido da palavra — vividos, conquistados e perdidos destes 28 anos de vida. Deu vontade de rir, mas também de chorar. Que mágica e que cruel é a vida e é a morte!

Deixo as reflexões para vocês fazerem, aí nos comentários 😉

“Descontratando” o pedido de casamento

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Há uma semana postei aqui o clipe de “Astronauta e Jasmim“, do novo CD do Affonsinho, para inspirar os casais no Dia dos Namorados. E só agora me dei conta de uma coisa que a vida toda tinha me passado batido: o primeiro verso fala que a personagem da música, dona Jasmim, deu seu “aceitei” para o namorado-astronauta. E vice-versa.

Na literatura, cinema e música, ainda é comum esse “Eu aceito” após um pedido de casamento. Já tem até campanha publicitária com uma hashtag #aceitalaura. Talvez na igreja também, não me lembro de cabeça do ritual litúrgico.

Também foi num show do Affonsinho que presenciei um pedido de casamento em público. O namorado: “Você aceita se casar comigo?” O público, aos gritos e palminhas: “Aceita! Aceita! Aceita!” E o músico, estendendo o microfone para a moça: “Eu não sou padre não, mas você aceita?”

Se pensarmos bem, essa expressão não faz o menor sentido.

“Eu aceito” parece cláusula de contrato. Tudo bem que o casamento, de fato, seja um tipo de contrato, com direito a documento no cartório, testemunhas e juiz. Mas não é engraçado a pessoa “assinar um contrato” justo na hora em que ouve um pedido para ser a “companheira de toda a vida” de alguém?

Além disso, “aceito” parece que está fazendo favor. Quem aceita, concorda, admite — segundo o dicionário, até contra a vontade, como se aceita um castigo depois de um malfeito. É como se a pessoa estivesse se submetendo ao pedido, e não se entregando a ele. A gente aceita as coisas mais tristes e difíceis da vida, mas só deseja poucas delas.

Fiquei pensando sobre isso… Concluí que o ideal seria dizer, após a declaração-pedido, um rotundo e sonoro: “Eu quero!”, com direito a ponto-de-exclamação. A moça que ouviu o pedido de casamento durante o show respondeu sem usar o verbo: “Claro que sim, eu te amo, amor!”, firme e forte, em alto e bom som:

Que neste Dia dos Namorados meus leitores e minhas leitoras ouçam muitos pedidos bonitos, para namoro, noivado, casamento ou qualquer tipo de junção, e que respondam alegremente: “Claro que sim, é isso mesmo que eu quero!” 😀

***

PS. Affonsinho já fez outros clipes, vejam aí: Flores pra Ela, Delicada, Aconteceu mas nem e Enfeitiçado.

O caso de dois viciados em smartphones e tablets

charge-amor

Texto escrito por Beto Trajano:

Paulinha e Mário conversaram o dia inteiro. Falaram muito sobre vários assuntos, mostraram fotos de locais que frequentam, escutaram músicas de que gostam, contaram piadas e assistiram a vídeos. Porém, eles não abriram a boca nem uma vez durante todo esse tempo, nem trocaram olhares e muito menos se tocaram.

Durante o diálogo, eles usaram apenas os dedos. Paulinha era feroz para digitar no teclado touch de seu iPhone, enquanto, do outro lado, Mário deslizava suas impressões digitais sobre as letras que apareciam na tela de seu tablet de última geração.

Paulinha era hóspede de um albergue em uma cidade turística do Brasil. No local, havia gente de todas as partes do mundo. Jovens voando com sonhos, trocando informações sobre os melhores passeios, a cerveja mais gelada, o almoço mais barato. Ela ficaria quatro dias naquela cidade e poderia se conectar com outras realidades, contemplar paisagens sobrenaturais, degustar sabores indescritíveis. Mas, nessas férias, a jovem não conseguiu nem observar a lua gigante que nasceu na longitude de seu ouvido.

Na verdade, ela não conseguia fazer mais coisa alguma. Suas cordas vocais estavam adormecendo e ela já nem sabia mais como abordar uma pessoa que cruzasse seu caminho. A jovem também não tinha mais vontade de fazer isso. Paulinha desenvolvia duas novas habilidades. Seus olhos estavam se acostumando a focar apenas a tela do smartphone. Ela começava a ver o mundo como uma fotografia com profundidade de campo – onde só existe foco em um ponto e todo o resto da imagem fica embaçado. Ela criou uma habilidade tamanha de digitação, que invejaria qualquer datilógrafo dos anos setenta. Com apenas uma mão, Paulinha parecia escrever mais de mil palavras por minuto.

As pessoas que visitavam o perfil da jovem no Facebook se impressionavam com a quantidade de amigos e acreditavam que ela devia ser super descolada e gente fina. “Balada partiu”, fotos da galera embriagada, na frente do espelho, fazendo biquinhos. Meninas saradas, com vestidos curtos, tatuagens à mostra, várias poses na academia, roupas de grife… Entre os homens amigos de Paulinha, era possível observar micareteiros, cabelos moicanos, playboys, sertanejos – e até mesmo executivos.

Enclausurado em uma mesa de escritório, Mário se esqueceu de pagar as contas, de ir ao banheiro e nem mesmo alimentou as toxinas de seu estômago naquele dia. Ignorou todas as atividades que precisava fazer. Os clientes passaram pelo local e não foram atendidos, e o rapaz perdeu todos os cifrões que poderia ter colocado no bolso.

No dia seguinte, ele precisava sair cedo para uma viagem de negócios. Colocou um terninho, pegou seu tablet, seu BlackBerry e o notebook. Fez o check-in no aeroporto. Nesse momento, ele já estava teclando com Paulinha. Sua bexiga não aguentava mais esperar, e gotículas de urina começaram a molhar a calça do rapaz. Mário correu para o banheiro. O alto-falante chamou seu nome várias vezes, mas ele não escutava mais nenhum áudio externo ao seu tablet. Mário abriu o zíper da calça no mictório e, acredite, continuou com as duas mãos ocupadas, teclando com Paulinha naquele iPad. Ele nem percebeu que havia acabado de urinar e ali ficou o dia inteiro. O corpo imóvel, apenas os dedos se mexiam.