Uma boa análise dos protestos de ontem

Como eu não fui à marcha, e fiquei mais desconectada do noticiário ontem, para descansar, hoje busquei ler algumas análises do que significou a reunião de “quase 1 milhão de pessoas” pelas ruas do Brasil, segundo estimativa da “Folha de S.Paulo” (em São Paulo, onde a multidão foi maior, eram 210 mil pessoas ao longo de todo o dia, segundo o Datafolha. Como a guerra de números é um negócio corriqueiro, vale a pena ler uma reportagem feita só sobre isso pelo meu amigo Giba Bergamim, ainda em 2011).

Depois de ler análises à esquerda e à direita, encontrei uma que me pareceu a melhor de todas e a mais sóbria, escrita pelo cientista político Leonardo Avritzer, professor de ciência política da UFMG e presidente da Associação Brasileira de Ciência Política. Foi publicada ontem à noite, pelo UOL, e pode ser lida AQUI, sob um título óbvio e insosso, provavelmente escolhido por algum redator do UOL já bastante cansado de um plantão tão trabalhoso. Esta é a “boa análise” a que me refiro no título do post.

A opinião de Avritzer coincide com a minha, principalmente no que diz respeito aos rumos dessas manifestações. Assim como ele, acho que elas só serão produtivas para a democracia brasileira se vierem acompanhadas de uma agenda positiva, com propostas concretas de combate à corrupção e por uma reforma política a ser tocada pelo Congresso Nacional. O reclamar por reclamar não vai levar a muita coisa além de turbulência política e econômica e vai tornar inclusive difícil a possibilidade de o governo dar uma resposta boa para toda a sociedade. E o impeachment não faz o menor sentido e seria muito danoso para a democracia.

Passada a marcha de ontem, posso comentar o texto que escrevi na terça-feira: os intervencionistas, que defendem a volta da ditadura militar, eram minoria, pelo que vi nas fotos divulgadas pela imprensa. Inclusive há relatos de que foram vaiados pelos outros manifestantes. Mas estavam mesmo lá:

Cartazes pedindo intervenção militar no protesto de Belo Horizonte. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

Cartazes pedindo intervenção militar no protesto de Belo Horizonte. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

Apesar de cenas lamentáveis como um boneco de Dilma sendo enforcado ou suásticas na marcha do Rio, eram poucos os que pregavam coisas de embrulhar realmente o estômago. Como eu previ na terça, havia muitos pedindo o impeachment, que é algo que eu defendo ser nonsense, ao menos por enquanto. (Avritzer também fala sobre isso, muito melhor.)

Este aí quer não só um impeachment, mas um impeachment duplo: sai a presidente, sai o vice. Depois ainda viria Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Lewandowski, na ordem. S o se nenhum desses ficasse é que seriam convocadas novas eleições, segundo a Constituição. Foto:: Uarlen Valério / O Tempo

Este aí quer não só um impeachment, mas um impeachment duplo: sai a presidente, sai o vice. Depois ainda viria Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Lewandowski, na ordem. Só se nenhum desses ficasse é que seriam convocadas novas eleições, segundo a Constituição. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

E achei curioso ver tantos com a camisa da CBF, uma das instituições mais corruptas do Brasil, protestando contra a corrupção. Daria uma boa charge 😉

Camisa da CBF contra corrupção... Foto: Marcelo SantAnna / Fotos Públicas

Camisa da CBF contra corrupção… Foto: Marcelo SantAnna / Fotos Públicas

Mais do que o que as imagens e as análises dos jornais podem me falar, não tenho muito o que acrescentar ao que já disse na semana passada, antes mesmo de as marchas acontecerem. Ah sim, posso dizer que a resposta do governo, ontem à noite, parece que foi de uma trapalhada só, com dois ministros extenuados sem falar coisa com coisa. Fernando Rodrigues escreveu sobre isso. Mas, segundo Vera Magalhães, mais mudanças serão anunciadas por Dilma. E a Lava Jato continua, com nova fase iniciada nesta segunda-feira. Nunca vi tanto empenho para se investigar e punir a corrupção crônica do país como nos últimos meses.

Pra fechar, não deixem de ler a análise de Avritzer, a melhor até agora. CLIQUE AQUI e boa reflexão 😉

Leia também:

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6 comentários sobre “Uma boa análise dos protestos de ontem

  1. Cris, também li hoje artigo interessante do jornalista Osvaldo Bertolino (http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=14131). Abertura:

    “O Brasil está vivendo mais uma situação em que se presencia regularmente a divulgação sistemática pela direita de insultos, ataques pessoais, intrigas, falsidades, invenções, erros de fato e mentiras puras e simples. Os golpistas voltam a se utilizar do histórico amontoado de asneiras, meias-verdades e mentiras conhecido desde as campanhas abolicionistas.”

    Lendo alguns comentários ao seu post acima no jornal O Tempo, não tenho como divergir dessa análise do Bertolino. Achei curioso o final do artigo dele, que transcrevo abaixo:

    “Daí a tática da tergiversação, da mistificação, da confusão, que tem sido a tônica ideológica da direita. Pretendem com isso amortecer, desfigurar, desnaturar a autenticidade das ideias democráticas e libertárias que favorecem o curso do processo dos avanços sociais. A força só é realmente fecunda quando posta a serviço de ideias progressistas e generosas, a serviço dos interesses gerais da nação. Aí ela é concretamente emanada do povo. A força pela força não resolve nada; é mero instrumento de opressão e despotismo, que só se mantém à base da mentira e da hipocrisia.

    Pouca imaginação

    De resto, o cinismo da direita hoje é o mesmo de sempre. Basta recordar que igual mistificação se fez no Brasil durante a campanha abolicionista. Já em 1871, durante os debates do Projeto de Lei do ventre-livre, o gabinete conservador do Visconde do Rio Branco foi acusado, em pleno parlamento, de “governo comunista, governo do morticínio e do roubo”. Em 1884, o governo Souza Dantas, que apresentara à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei dos sexagenários, elaborado pelo então deputado Rui Barbosa, foi também chamado de “comunista”.

    O deputado Souza Carvalho, defensor radical dos interesses escravistas, disse que o governo era cúmplice de “manifestações subversivas”. O Projeto, segundo ele, não passava de “pretexto para agitação, revolução e subversão social” e para “lisonjear os anarquistas e gritadores das ruas”, favorecendo “as passeatas incendiárias e demonstrações estrondosas”, permitindo “certa associação comunista” que promovia “ruidosa agitação contra uma propriedade legal, em edifícios públicos, no seio de uma escola superior”. Referia-se às manifestações organizadas pela Confederação Abolicionista e pelo Centro Abolicionista da Escola Politécnica.

    Esses exemplos demonstram que a direita tem pouca imaginação, repetindo sempre as mesmas táticas e práticas. Foi assim também no golpe do Estado Novo em 1937 com o “Plano Cohen”, no governo do general Eurico Gaspar Dutra com a cassação do registro e dos mandatos do Partido Comunista do Brasil, no segundo governo de Getúlio Vargas, na conspiração fascista contra o governo João Goulart que resultou no golpe militar de 1964 e nos ataques incessantes ao governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva.”

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