Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

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O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

Doce.Quinta-feira.John_.Steinbeck

“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Praça da Liberdade: agosto de 2015 X abril de 1985

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Foto: Mariela Guimarães / O Tempo. Clique para ver maior.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Cheguei à Praça da Liberdade às 10h45 deste domingo, dia 16. Enquanto descia a rua da Bahia, comecei a contar. Pequenos grupos de pessoas vestindo a camisa da CBF se dirigiam evidentemente para a concentração contra o governo petista. Minha intenção era contar quantos negros estariam presentes. Não era possível contar o número total de manifestantes.

Vi no caminho vários grupos de policiais militares, muitos deles negros. Não os contei, pois estavam ali a trabalho, escalados pelas chefias, não para protestar. Dei a volta na Praça, em alguns momentos com dificuldade, por causa da aglomeração. Mais intensa diante do palco onde pessoas discursavam sobre um trio elétrico e eram ouvidos nos alto-falantes distribuídos pelos quatro cantos da praça. Discursos contra Dilma e contra o governador Fernando Pimentel, ambos do PT. Ao todo, 10 mil manifestantes na praça, segundo a PM, conforme divulgou “O Tempo” às 11h57.

Nesse mesmo portal, também li que Aécio Neves chegou à Praça às 11h32 e que ele discursou, dizendo: “Estou aqui como cidadão, não como líder partidário. Queremos um basta na corrupção”.

Soube também que outras figuras do PSDB foram aos protestos na praça da Liberdade. Foram vistos o deputado federal Marcus Pestana, o ex-candidato ao governo de Minas Pimenta da Veiga e o deputado estadual João Leite.

Não encontrei nenhum deles, já que deixei a praça às 11h15, para terminar minha caminhada em outro lugar. Estava mais atento, como disse no início, aos negros manifestantes. Contei nove, inclusive uma mulher sozinha, aparentando uns 60 anos. Vi também quatro negros que estavam no evento a trabalho, três com carrinhos cheios de latas de cervejas e refrigerantes para vender, um com um tabuleiro com narizes de palhaço vermelhos. Não sei quantos vendeu. Repórter de “O Tempo” entrevistou um ambulante, às 11h37, vendendo pulseirinhas de hippie e também com camisa contra Dilma. “Já passei fome no passado e votei na Dilma na última eleição. Não tenho do que reclamar desse governo. Não consigo entender isso aqui (protesto). Vim para ganhar dinheiro, mas vendi poucas camisas até agora”, disse ao repórter.

A Praça da Liberdade estava cheia de pessoas, mas elas não representavam de fato a população brasileira, como se vê pelo número minúsculo de negros, e sim um fração dos brasileiros: a classe média – que no passado foi muito importante para mudar regimes políticos sem o inconveniente das urnas.

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Arquivo pessoal. Clique na foto para ver maior

Já vi a Praça da Liberdade muito mais lotada. Mas nada, na minha experiência de expectador, se comparou à noite de 23 de abril de 1985. Tenho em mãos o “Jornal do Brasil” do dia seguinte. Na capa, uma foto de Delfim Vieira, tirada do alto do Edifício Niemeyer, com a legenda: “Cerca de 1 milhão 500 mil pessoas tomaram as ruas e forçaram a entrada no Palácio da Liberdade para o adeus a Tancredo”.

O avô de Aécio havia sido eleito presidente da República em eleições indiretas, depois de uma intensa campanha pelas “Diretas Já”, mas morreu antes de assumir, deixando a vaga para o vice, José Sarney, do PMDB. O neto tinha 25 anos e, por certo, não se esqueceu das lições de Tancredo.

Vi também aquela manifestação de abril de 1985. Não me passou pela cabeça contar quantos negros havia ali. Mas tenho certeza de que ninguém vestia a camisa da seleção brasileira e que quem se reunia na Praça da Liberdade, naquele trágico evento, representava muito bem o sentimento dos brasileiros. Como transparece na manchete do JB: “Minas sepulta Tancredo com a dor do país”.

Arquivo pessoal. Clique para ver maior

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Os dois lados: uma pensata sobre Uber, protestos e violência policial

Diz que ela estava indo assistir ao jogo do Galo, na última quinta-feira, devidamente uniformizada com a camisa do time. Descia a rua a pé, quando um taxista passou ao seu lado, abaixou o vidro do carro e gritou:

— CRUZEEEEIRO!!!

Ao que ela respondeu, de pronto:

— UUUBEEEERRR!!!

Ele ficou com cara de tacho, enquanto ela seguiu seu caminho, sorridente.

***

Táxi X Uber virou uma rivalidade tão grande quanto a dos times de futebol. Mas também virou uma dessas “grandes” questões da atualidade, como mostra a charge do Duke do último dia 12 de agosto:

charge12082015Às vezes é meio ridículo escolher um lado, quando o que o diferencia do outro lado é apenas uma sutileza…

***

O que me lembra que foi no mesmo dia 12, à noite, que assistimos a um show de horrores promovido pela Polícia Militar de Fernando Pimentel (PT). As consequências foram menos trágicas que as relatadas em abril, no Paraná, mas envolveram 62 detidos e cerca de 100 feridos pelo único “crime” de fazerem uma manifestação que travaria o trânsito por, no máximo, uma hora. Jornalistas e advogados tiveram seu direito cerceado, como se vê neste relato de uma colega. Beto Richa é do PSDB e Fernando Pimentel é do PT: alguém sabe diferenciar esses dois lados?

Ah sim, quando Beto Richa promoveu a pancadaria no Paraná, Pimentel veio a público criticar veladamente seu colega de cargo e classificar como “espetáculos lamentáveis” a repressão a protestos dos professores. Desta vez, quando a repressão ocorre a protestos de estudantes de seu próprio Estado (que criticavam uma política municipal, que nada tem a ver com o governador, diga-se de passagem), Pimentel se calou. Hoje é sábado, 15 de agosto, e ele ainda não deu uma entrevista coletiva para falar sobre a truculência policial. Seu subordinado, que comanda o Batalhão de Choque, disse em entrevista que fez bem em usar a força e poderia repetir isso quantas vezes fossem necessárias, se recebesse ordem — do governador? — para isso. Pimentel não veio a público desmenti-lo, ou seja, avalizou tudo o que o comandante disse. O famoso quem cala, consente.

Possivelmente, o governador petista conta com o esquecimento de seus eleitores. Afinal, na sexta-feira, houve novo protesto, que durou quatro horas, chegou a fechar ruas, mas foi pacífico — com uma quantidade espantosa de policiais cercando e acompanhando tudo de perto. Neste domingo, outra multidão — “distinta” da primeira, segundo a PM — também vai protestar, e provavelmente tudo correrá também de forma pacífica. Assim, pode ser mesmo que a noite de quarta caia no esquecimento.

Bom, pelo menos até que a reintegração de posse da ocupação Izidora aconteça, porque há rumores de que, desta vez, a PM não vai usar só bala de borracha. Será que Pimentel também vai copiar o outro tucano Geraldo Alckmin, governador de São Paulo que autorizou a truculência vista na desocupação de Pinheirinho? É esperar e ver.

(A propósito, o Duke fez outras duas ótimas charges sobre o protesto, vejam AQUI e AQUI)

***

Enquanto uns escolhem lados — Uber ou táxi, PT ou PSDB? — desta vez eu me recolho ao meu próprio lado, como aprendi no poeminha do filme “Menino Maluquinho“:

“Todo lado tem seu lado / eu sou meu próprio lado / E posso viver ao lado / do seu lado que era meu.”

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Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

bandeira

Acho muito legal que as pessoas tenham bandeiras para levantar. Ou seja, uma causa em que acreditam e que defendem com unhas e dentes. Pode ser a luta contra o racismo, o casamento gay, a criminalização da homofobia, a legalização da maconha, os direitos dos animais, o feminismo, a liberação do aborto, a redução do número de cesarianas, os direitos dos guaranis-caiovás etc. Pode ser professores de melhor qualidade na escola do filho, a criação de um novo parque na cidade, o cumprimento de uma norma específica na universidade, o direito de usar biquíni na praça do bairro. Pode ser a redução da maioridade penal, o direito ao porte de arma e outras coisas assim. Pode ser o direito de os artistas de rua atuarem livremente, o direito de os jornalistas expressarem suas opiniões sem censura, a obrigatoriedade de diploma para exercer algumas profissões, o direito de os garçons receberem os 10% da gorjeta ou de os taxistas não terem a competição dos motoristas de Uber.

As pessoas devem poder ter suas convicções pessoais e argumentar para que elas sejam cumpridas, respeitadas, implementadas ou amplificadas. O ideal é que façam isso de maneira respeitosa, por meio de debates, audiências públicas, artigos, abaixo-assinados, petições ou projetos de lei. E, claro, por meio de protestos, manifestações, passeatas e afins. Com muitas bandeiras — de cores, símbolos e tamanhos diversos — empunhadas pelo grupo em questão.

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Existem causas mais consolidadas, que a maioria já entende como imprescindíveis, que são quase consensuais. As grandes causas dos direitos humanos caminham para esse rumo, lenta mas inexoravelmente. Outras causas são mais regionais, locais, específicas. Há ainda aquelas bandeiras que interessam principalmente a uma classe profissional, por exemplo. E há as bandeiras dos partidos políticos e das religiões (duas que nunca empunhei). Nem sempre a bandeira do vizinho vai coincidir com a sua.

Concordo com algumas, entendo outras, tolero outras, discordo de um tanto e já balancei umas poucas bandeiras. Aliás, já troquei de bandeiras ao longo da vida também. Em algum momento, defendi com mais afinco uma ideia, que hoje pode nem ser tão importante assim para mim. Em alguns casos, empunho de forma cautelosa minha bandeira, com medo de estar usurpando uma causa que é de outra pessoa. Por exemplo, apesar de ser descendente de negros e ter vários traços dos negros — sou morena, de cabelos cacheados etc –, não me considero negra e sei que não é como a população em geral me vê. Então, embora eu defenda veementemente a criminalização do racismo e o respeito às pessoas de todas as cores e etnias, eu tomo cuidado para não parecer que entendo completamente o que é ser vítima de preconceito racial — porque só posso imaginar a humilhação e sofrimento que esse comportamento pode causar à vítima. O mesmo em relação aos homossexuais: apoio a causa deles, apoio a criminalização da homofobia e os direitos civis iguais, mas não fico empunhando a bandeira como se eu pudesse imaginar o que eles passam, todos os dias, como vítimas de preconceito generalizado.

Por outro lado, é bem mais fácil eu me identificar, por exemplo, com a causa feminista. Sei que as mulheres sofrem determinados tipos de preconceito, mais ou menos graves, porque já os vivi (e relatei algumas vezes aqui no blog). No entanto, também é uma bandeira que empunho com cautela, porque gostaria que o mundo banisse os sexismos, todos eles, em vez de apenas trocar o machismo pelo feminismo.

Acho que minha bandeira favorita é pelo direito da livre expressão e da livre imprensa. Mas mesmo esta bandeira não é ilimitada: se o discurso propaga o ódio ou incentiva um crime, como defendê-lo? Defendo o direito de uma Raquel Sheherazade da vida (ela ainda existe?) poder emitir suas opiniões na TV, mas verei com preocupação se o argumento dela defender o linchamento de pessoas suspeitas de terem cometido um crime, já que linchamento é crime (muitas vezes mais grave que o cometido pelo suspeito em questão). Mesmo assim, defendo que ela possa dizê-lo. Se, ao expôr sua opinião, ela cometer um crime, terá de pagar por ele também, mas depois. Antes, vira censura. De qualquer forma, é difícil delimitar o que é censura e o que é uma proteção necessária (por exemplo, as imagens de adolescentes que cometeram um delito são preservadas por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, e não acho que deixar de mostrá-las seja uma censura).

Enfim, hoje em dia ando tão ponderada que está difícil alguém me ver balançando uma bandeira qualquer — mesmo a do jornalismo, que anda me desanimando a cada dia mais. Eu me posiciono, eu apoio umas ideias e condeno outras, eu raramente fico em cima do muro, mas a veemência anda em falta por aqui. Talvez minha bandeirinha mais convicta seja a do bom-humor. “Por mais senso de humor no mundo!”, já escrevi por aqui. Mas o que é humor e o que é ofensa? Talvez fosse mais fácil eu balançar por mais bom senso no mundo…

Mais nova campanha do blog: por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! https://kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano/

Por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano

Por isso, embora eu admire os colegas e amigos que saem por aí carregando suas bandeiras, fico irritada quando eles me cobram que eu carregue as bandeiras deles. Já discuti com uma amiga que queria que eu virasse vegetariana de qualquer jeito, porque ela virou: “Adoro um bife”, encerrei. Já cortei logo outra amiga que queria que eu virasse mãe-ativista depois que engravidei, lutando pelo parto humanizado e coisa e tal. Pode ser que um dia eu vire, eu tenho procurado me informar e tudo o mais, mas hoje esta causa simplesmente não me comove. Eu adoro cachorrinhos, mas ainda gosto mais dos humanos e não me vejo adotando todo vira-lata que encontro na rua para evitar que ele passe frio ou fome. Mas respeito pacas quem faz disso tudo sua missão.

Enfim, esta longa divagação é para defender que as pessoas possam carregar as bandeiras que melhor lhes aprouver — mas que também tenhamos o direito de simplesmente não carregar bandeira alguma, se não quisermos. Sem olho torto, sem julgamento, sem pé no saco. Que tal esta bandeira nova que inventei? 😉

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Uma boa análise dos protestos de ontem

Como eu não fui à marcha, e fiquei mais desconectada do noticiário ontem, para descansar, hoje busquei ler algumas análises do que significou a reunião de “quase 1 milhão de pessoas” pelas ruas do Brasil, segundo estimativa da “Folha de S.Paulo” (em São Paulo, onde a multidão foi maior, eram 210 mil pessoas ao longo de todo o dia, segundo o Datafolha. Como a guerra de números é um negócio corriqueiro, vale a pena ler uma reportagem feita só sobre isso pelo meu amigo Giba Bergamim, ainda em 2011).

Depois de ler análises à esquerda e à direita, encontrei uma que me pareceu a melhor de todas e a mais sóbria, escrita pelo cientista político Leonardo Avritzer, professor de ciência política da UFMG e presidente da Associação Brasileira de Ciência Política. Foi publicada ontem à noite, pelo UOL, e pode ser lida AQUI, sob um título óbvio e insosso, provavelmente escolhido por algum redator do UOL já bastante cansado de um plantão tão trabalhoso. Esta é a “boa análise” a que me refiro no título do post.

A opinião de Avritzer coincide com a minha, principalmente no que diz respeito aos rumos dessas manifestações. Assim como ele, acho que elas só serão produtivas para a democracia brasileira se vierem acompanhadas de uma agenda positiva, com propostas concretas de combate à corrupção e por uma reforma política a ser tocada pelo Congresso Nacional. O reclamar por reclamar não vai levar a muita coisa além de turbulência política e econômica e vai tornar inclusive difícil a possibilidade de o governo dar uma resposta boa para toda a sociedade. E o impeachment não faz o menor sentido e seria muito danoso para a democracia.

Passada a marcha de ontem, posso comentar o texto que escrevi na terça-feira: os intervencionistas, que defendem a volta da ditadura militar, eram minoria, pelo que vi nas fotos divulgadas pela imprensa. Inclusive há relatos de que foram vaiados pelos outros manifestantes. Mas estavam mesmo lá:

Cartazes pedindo intervenção militar no protesto de Belo Horizonte. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

Cartazes pedindo intervenção militar no protesto de Belo Horizonte. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

Apesar de cenas lamentáveis como um boneco de Dilma sendo enforcado ou suásticas na marcha do Rio, eram poucos os que pregavam coisas de embrulhar realmente o estômago. Como eu previ na terça, havia muitos pedindo o impeachment, que é algo que eu defendo ser nonsense, ao menos por enquanto. (Avritzer também fala sobre isso, muito melhor.)

Este aí quer não só um impeachment, mas um impeachment duplo: sai a presidente, sai o vice. Depois ainda viria Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Lewandowski, na ordem. S o se nenhum desses ficasse é que seriam convocadas novas eleições, segundo a Constituição. Foto:: Uarlen Valério / O Tempo

Este aí quer não só um impeachment, mas um impeachment duplo: sai a presidente, sai o vice. Depois ainda viria Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Lewandowski, na ordem. Só se nenhum desses ficasse é que seriam convocadas novas eleições, segundo a Constituição. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

E achei curioso ver tantos com a camisa da CBF, uma das instituições mais corruptas do Brasil, protestando contra a corrupção. Daria uma boa charge 😉

Camisa da CBF contra corrupção... Foto: Marcelo SantAnna / Fotos Públicas

Camisa da CBF contra corrupção… Foto: Marcelo SantAnna / Fotos Públicas

Mais do que o que as imagens e as análises dos jornais podem me falar, não tenho muito o que acrescentar ao que já disse na semana passada, antes mesmo de as marchas acontecerem. Ah sim, posso dizer que a resposta do governo, ontem à noite, parece que foi de uma trapalhada só, com dois ministros extenuados sem falar coisa com coisa. Fernando Rodrigues escreveu sobre isso. Mas, segundo Vera Magalhães, mais mudanças serão anunciadas por Dilma. E a Lava Jato continua, com nova fase iniciada nesta segunda-feira. Nunca vi tanto empenho para se investigar e punir a corrupção crônica do país como nos últimos meses.

Pra fechar, não deixem de ler a análise de Avritzer, a melhor até agora. CLIQUE AQUI e boa reflexão 😉

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