Candidatura de Haddad e prisão de Richa em Curitiba. Meras coincidências…

Lançamento oficial de Fernando Haddad à presidência pelo PT. Foto: Ricardo Stuckert

Texto escrito por José de Souza Castro:

Horas antes de o PT lançar nesta terça-feira (11) a candidatura de Fernando Haddad à presidência da República, em substituição a Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba há mais de 150 dias, a Polícia Estadual e a Polícia Federal, esta subordinada ao juiz Sérgio Moro, da Lava-Jato, desfecharam duas operações, ambas visando a um dos mais destacados políticos tucanos do Paraná, o ex-governador Beto Richa, que disputa uma vaga no Senado pelo PSDB.

Brilhante, não? Enfraquece o discurso petista de que Lula e o PT foram vítimas da politização da Justiça em desfavor do partido que venceu as três últimas eleições presidenciais. Afinal, pau que bate em Chico bate em Francisco…

Será? Quem bateu, porém, não foi o implacável Sérgio Moro, mas um desconhecido juiz estadual de Curitiba. O GGN, do jornalista Luís Nassif, fornece outro motivo para a prisão do primeiro político tucano feita pela Lava-Jato e por ele ter sido preso exatamente no momento em que Richa aparece nas pesquisas em segundo lugar, na disputa por duas vagas, ameaçando a candidatura de Flávio Arns, pela Rede, em terceiro lugar nas pesquisas. O mais bem colocado é Roberto Requião, do PMDB, que faz oposição a Michel Temer.

A prisão de Richa favoreceria Flávio Arns. Este foi presidente da Federação Nacional das APAEs, que tem como procuradora jurídica a mulher de Sérgio Moro, advogada Rosângela Moro. Escreve o GGN:

“A relação de Rosângela, que ainda hoje é a procuradora jurídica da Federação das APAEs, com a família Arns não para por aí. Ela também integrou equipe do advogado Marlus Arns, sobrinho de Flávio. Marlus foi advogado de delatores na Lava Jato, que foram homologados por Sergio Moro, a despeito da relação com a esposa”.

Interessante, não? Mas o que interessa mesmo é o lançamento da candidatura de Haddad, apesar de não ter merecido cobertura ao vivo da GloboNews.

Foi confirmada mais cedo pela direção nacional do PT reunida em Curitiba e tornada pública aos petistas reunidos diante da Polícia Federal por uma carta de Lula, lida a eles pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, e que pode ser lida na íntegra em diversos sites, como AQUI, AQUI e AQUI. Trechos:

Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados. (…)

Minha condenação é uma farsa judicial, uma vingança política, sempre usando medidas de exceção contra mim. Eles não querem prender e interditar apenas o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Querem prender e interditar o projeto de Brasil que a maioria aprovou em quatro eleições consecutivas, e que só foi interrompido por um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu crime de responsabilidade, jogando o país no caos. (…)

Denunciei as mentiras e os abusos de autoridade em todos os tribunais, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU, que reconheceu meu direito de ser candidato. (…)

A comunidade jurídica, dentro e fora do país, indignou-se com as aberrações cometidas por Sergio Moro e pelo Tribunal de Porto Alegre. Lideranças de todo o mundo denunciaram o atentado à democracia em que meu processo se transformou. A imprensa internacional mostrou ao mundo o que a Globo tentou esconder. (…)

É diante dessas circunstâncias que tenho de tomar uma decisão, no prazo que foi imposto de forma arbitrária. Estou indicando ao PT e à Coligação “O Povo Feliz de Novo” a substituição da minha candidatura pela do companheiro Fernando Haddad, que até este momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente. (…)

Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad.

Haddad discursou de improviso [a partir dos 30 minutos, no vídeo]. Bem emocionado, no começo. Mas acabou firmando a voz e se entusiasmando. E aos seus ouvintes, filiados ao PT, PCdoB e PROS, partidos de sua coligação, ao conclamar: “Não é hora de voltar pra casa de cabeça baixa. É hora de sair na rua de cabeça erguida e ganhar a eleição”.

O tempo dirá.

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Aécio Neves dá a receita do discurso de mentirinha do PSDB aos correligionários

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Pouco antes das eleições de 2014, escrevi aqui no blog cerca de 30 razões para não votar em Aécio Neves, incluindo algumas denúncias bem graves que já tinham sido reveladas, palidamente, até aquele momento. Quem se informava só pelos jornais nacionais da vida, achou que eu estava ficando doida — afinal, estava apontando crimes cometidos pelo senador queridinho da República, era isso mesmo?! Praticamente nenhuma daquelas denúncias havia tido grande repercussão nos grandes veículos e, quando tinha, o “outro lado” era maior do que a denúncia propriamente dita, com Aécio sempre desmentindo tudo com a cara mais lavada do universo, ou o Bonner lendo a nota limpinha e perfumada do PSDB durante longos minutos.

Eis que, agora, todo o país fica sabendo aquilo que eu e meu pai vínhamos falando sobre Aécio há 14 anos, desde que ele assumiu seu primeiro governo em Minas. (É óbvio que houve uma ruptura tremenda entre Aécio/Andrea e o grupo dos Marinho, mas ninguém ainda nos contou qual foi o grande bastidor, então não serei eu a especular.)

E agora não tem muito jeito de a irmãzona, já presa, inventar uma desculpa qualquer, ou usar um batalhão de assessores de imprensa para fazer a defesa do presidente (afastado) do PSDB em todos os meios possíveis, inclusive em comentários orquestrados em portais e redes sociais. Está tudo gravado, filmado, rastreado e documentado, com provas tão cabais que até os donos dos carrões de Beagá tiveram que correr para arrancar os adesivos “a culpa não é minha, votei no Aécio” já na quinta-feira seguinte ao furo do jornalista Lauro Jardim.

(Parêntesis para dizer que, embora uma força-tarefa cabulosa tenha tentado de todas as formas produzir provas assim tão cabais contra a turma do Lula, elas ainda não apareceram de jeito nenhum. E Dilma acabou caindo por causa de pedaladas fiscais… Mas vai saber, vai que algum dia aparecem essas provas cabais contra a presidente derrubada também.)

Mas sabem o que eu, como jornalista, estou achando mais divertido nessa história toda? A cada novo áudio (cheio de palavrões cabeludos) de Aécio Neves vazado, mais ele nos dá a cartilha de como funcionava a contrapropaganda em seu governo em Minas, e depois no Senado. Pois vejam este trecho da hilária conversa entre Aécio e Perrella, por exemplo, em que o primeiro orienta o segundo sobre o que ele deveria ter falado quando surgiram as denúncias da lista da Odebrecht: Continuar lendo

Os dois lados: uma pensata sobre Uber, protestos e violência policial

Diz que ela estava indo assistir ao jogo do Galo, na última quinta-feira, devidamente uniformizada com a camisa do time. Descia a rua a pé, quando um taxista passou ao seu lado, abaixou o vidro do carro e gritou:

— CRUZEEEEIRO!!!

Ao que ela respondeu, de pronto:

— UUUBEEEERRR!!!

Ele ficou com cara de tacho, enquanto ela seguiu seu caminho, sorridente.

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Táxi X Uber virou uma rivalidade tão grande quanto a dos times de futebol. Mas também virou uma dessas “grandes” questões da atualidade, como mostra a charge do Duke do último dia 12 de agosto:

charge12082015Às vezes é meio ridículo escolher um lado, quando o que o diferencia do outro lado é apenas uma sutileza…

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O que me lembra que foi no mesmo dia 12, à noite, que assistimos a um show de horrores promovido pela Polícia Militar de Fernando Pimentel (PT). As consequências foram menos trágicas que as relatadas em abril, no Paraná, mas envolveram 62 detidos e cerca de 100 feridos pelo único “crime” de fazerem uma manifestação que travaria o trânsito por, no máximo, uma hora. Jornalistas e advogados tiveram seu direito cerceado, como se vê neste relato de uma colega. Beto Richa é do PSDB e Fernando Pimentel é do PT: alguém sabe diferenciar esses dois lados?

Ah sim, quando Beto Richa promoveu a pancadaria no Paraná, Pimentel veio a público criticar veladamente seu colega de cargo e classificar como “espetáculos lamentáveis” a repressão a protestos dos professores. Desta vez, quando a repressão ocorre a protestos de estudantes de seu próprio Estado (que criticavam uma política municipal, que nada tem a ver com o governador, diga-se de passagem), Pimentel se calou. Hoje é sábado, 15 de agosto, e ele ainda não deu uma entrevista coletiva para falar sobre a truculência policial. Seu subordinado, que comanda o Batalhão de Choque, disse em entrevista que fez bem em usar a força e poderia repetir isso quantas vezes fossem necessárias, se recebesse ordem — do governador? — para isso. Pimentel não veio a público desmenti-lo, ou seja, avalizou tudo o que o comandante disse. O famoso quem cala, consente.

Possivelmente, o governador petista conta com o esquecimento de seus eleitores. Afinal, na sexta-feira, houve novo protesto, que durou quatro horas, chegou a fechar ruas, mas foi pacífico — com uma quantidade espantosa de policiais cercando e acompanhando tudo de perto. Neste domingo, outra multidão — “distinta” da primeira, segundo a PM — também vai protestar, e provavelmente tudo correrá também de forma pacífica. Assim, pode ser mesmo que a noite de quarta caia no esquecimento.

Bom, pelo menos até que a reintegração de posse da ocupação Izidora aconteça, porque há rumores de que, desta vez, a PM não vai usar só bala de borracha. Será que Pimentel também vai copiar o outro tucano Geraldo Alckmin, governador de São Paulo que autorizou a truculência vista na desocupação de Pinheirinho? É esperar e ver.

(A propósito, o Duke fez outras duas ótimas charges sobre o protesto, vejam AQUI e AQUI)

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Enquanto uns escolhem lados — Uber ou táxi, PT ou PSDB? — desta vez eu me recolho ao meu próprio lado, como aprendi no poeminha do filme “Menino Maluquinho“:

“Todo lado tem seu lado / eu sou meu próprio lado / E posso viver ao lado / do seu lado que era meu.”

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Minas deve subir no ranking de salários dos professores

Charge de Jarbas

Charge de Jarbas

Texto escrito por José de Souza Castro*

Em 30 anos, a partir de 1979, os professores estaduais mineiros fizeram 15 greves, somando 640 dias parados na luta por salários menos injustos. Não faltou empenho dos trabalhadores no ensino público, mas os resultados foram pífios. Minas continuou sendo um dos Estados que pagavam salários mais baixos a seus professores. Em 2010, ocupava o 18º lugar, embora fosse o terceiro Estado em arrecadação de tributos e em Produto Interno Bruto (PIB), no Brasil.

Foi preciso o PT assumir o poder para que o Sindicato Único dos Trabalhadores no Ensino de Minas Gerais visse luz no fim do túnel. Conforme ESTE artigo assinado pela coordenadora-geral, Beatriz Cerqueira, o Sind-UTE MG só via trevas, até assinar um acordo com o governo Fernando Pimentel.

“E o que assinamos no dia 15 de maio não foi por bondade de governo, foi resultado de anos de luta”, escreveu Beatriz Cerqueira. “E continuamos mobilizados! Este documento foi o começo da recuperação do que perdemos na última década. Aqui em Minas a pauta da educação se transformou na pauta dos movimentos sociais! Não lutamos sozinhos. E isso causa ainda mais medo na casa grande!”, conclui.

Entre outras conquistas, o acordo prevê o pagamento do Piso Salarial Profissional Nacional aos professores para uma carga horária de 24 horas semanais. Ao longo de dois anos, será concedido reajuste de 31,78% na carreira do Professor de Educação Básica, ficando assegurado o pagamento daquele piso salarial. O reajuste será feito em três parcelas, durante dois anos, e o valor ficará incorporado ao salário, para fins de aposentadoria.

A primeira das três parcelas, a ser paga a partir do próximo mês de junho, é de apenas R$ 190, o que corresponde a um aumento de 13,06% para o Professor de Educação Básica. O que dá bem a ideia de quanto ganha pouco esse professor. E explica porque minha irmã mais velha, a Maria Afonsa, quando se aposentou como professora num grupo escolar da cidade onde morava (Bom Despacho), passou a costurar camisas em casa, para vender.

Ela teria ficado feliz, se não tivesse morrido antes desse generoso aumento salarial, por tantos anos esperado. “Conquistamos as mesmas condições para trabalhadores e aposentados”, disse Beatriz Cerqueira, ao comentar o acordo na assembleia dos professores. E prosseguiu:

“Nós acabamos com o subsídio como forma de remuneração, mantivemos os níveis de percentuais da carreira, de promoção e progressão, conquistamos a garantia de reajustes anuais para todas as carreiras, não apenas os profissionais de magistério, 60 mil novas nomeações de concurso público, aprovação de perícia médica para aposentadoria de trabalhadores da lei 100, ou para os que estão em ajustamento funcional.”

O acordo foi elogiado por políticos petistas, como o deputado estadual Rogério Correia, que fez questão de comparar com episódios recentes envolvendo governos tucanos: “É importante ressaltar a diferença do que está acontecendo, no Paraná, com professores espancados, pela PM, a mando do governo do PSDB, a greve que já dura 60 dias em São Paulo, a greve no Pará e em Goiás, com exemplos que não devem ser seguidos”, enfatizou ele em sua página na Internet.

Depende ainda dos deputados estaduais mineiros transformar em lei o acordo, para que ele passe a vigorar. O governo prometeu enviá-lo à Assembleia Legislativa para apreciação em regime de urgência. Rogério Correia é líder do Bloco do Governo e espera a aprovação da proposta já no início de junho. Como Pimentel tem folgada maioria na Assembleia, é possível que Minas, finalmente, passe a ocupar um lugar menos vergonhoso no ranking estadual dos salários dos professores. Décimo oitavo lugar, nunca mais!


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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