Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

azuiseverdes

O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

Doce.Quinta-feira.John_.Steinbeck

“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Moral da história

Quero compartilhar com vocês meu lado mau:

lembram do proprietário do meu antigo apartamento, que, ao renovar o contrato, pediu o DOBRO do valor do aluguel? O dobro, com a cara mais lavada do mundo? Para esta pessoa que vos escreve, cujo salário NÃO dobrou? Pois bem: passado mais de um mês depois que saí de lá, ele ainda não conseguiu alugar pra ninguém! Huohuohuohuohuohuo! ( = risadinha malevóla) E digo mais: espero que fique MESES com o apê às moscas, perdendo dinheiro, até se ver obrigado a abaixar o aluguel! Huohuohuohuohuohuo!

***

Ok, vou me recompor agora. Mas é sério: não desejo as melhores coisas do mundo a pessoas gananciosas e exploradoras assim, não. É graças a elas (e a imobiliárias incompetentes) que está se formando essa bolha no Brasil desde o segundo semestre do ano passado (mais precisamente em Beagá e em São Paulo). O lado bom é que, graças a elas, pude mudar para um apartamento ainda melhor. Como diz aquele sábio ditado, há males que vêm para o bem.

E essa história toda me lembrou outro ditado, que aprendi quando eu ainda era criança e, nas férias de julho, frequentava a roda de um contador de histórias de uma biblioteca pública perto de casa. Ele era ótimo!

Esta fábula me marcou muito nos meus 8 ou 9 anos. Vou contar para vocês a partir da minha memória fraca:

Era uma vez um pescador paupérrimo, casado com uma lavadeira muito gananciosa.
Um dia ele foi pescar e deu a sorte de pegar um peixe enorme, gigante mesmo, quase do tamanho de uma baleia.
Ele ficou todo feliz pensando que poderia levar aquele peixão pra casa e ter fartura de comida por várias semanas ou meses. Sua mulher nem acreditaria quando chegasse!
Foi aí que, surpreendentemente, o peixe falou!
Ele quase caiu pra trás, mas o bichão estavam falando mesmo. E dizia: “Homem de bem! Sou um peixe mágico! Se você me soltar, prometo realizar um sonho seu! Basta acreditar em mim e seu desejo se realizará!”
O pescador, que tinha mesmo um bom coração — e estava com medo, obviamente –, soltou o peixão e foi para casa, sem saber se tinha tomado a melhor decisão.
Lá chegando, ele encontrou, no lugar do casebre de papelão, uma casinha simpática, feita de tijolos, confortável e aconchegante.
A mulher estava exultante e quis saber o que tinha acontecido. Mas, quando ele disse que tinha sido atendido por um peixe mágico, ela cobrou: “E você só pediu isso? Volte lá agora mesmo e peça uma casa maior!”
Ele, que além de bonzinho era pau mandado, obedeceu. Chegando ao mar, chamou pelo peixão e explicou a ele a situação. O peixão cedeu.
Ao voltar para casa, encontrou uma mansão de dois andares, com piscina e carro na garagem, daquelas que o Faustão sempre sorteia. Um caminhão de móveis também tinha passado por ali. A esposa estava bem vestida, parecia outra pessoa.
(E assim vai indo a história, com aumento gradual da riqueza do casal, sempre a partir dos delírios da ex-lavadeira, como vocês já devem ter entendido.)
Até que uma hora ela soltou esta: “Ora essa! Se o peixe é mágico, e você ainda lhe salvou a vida, podia te pagar direito, né! Quero um travesseiro de penas de ganso! E jóias, muitas jóias! Quero mais imóveis, uma casa nos alpes!”
E o pescador voltou e encontrou o peixão e o mar estava cinza ilustrando a braveza com que o peixão foi ficando! Aliás, cinza era antes — agora o mar estava vermelho como sangue! E o pescador, humildemente, relatou as novas exigências da mulher. O peixão bufou e bradou: “Tudo bem, homem do bem! Vá para casa e, de novo, encontrará o que me pede!”
Quando o pescador lá chegou, ficou abismado: o que via era o mesmo casebre de papelão em que morava antes, quase sem móveis. A esposa lhe apareceu maltrapilha, vestindo os trapos de antes. Estava possessa: “O que aconteceu com aquele peixe louco? Pifou?? Volte agora mesmo lá e diga a ele que é bom devolver tudo, ou será pescado de novo!”
Confuso, o pescador voltou ao ponto de sempre e chamou seu peixão como aprendera antes (com alguma frase que me escapa nesta contação malfeita). Um redemoinho surgiu do mar, revoltadíssimo, vermelhíssmo, cinzíssimo, um vendaval quase arrastou o pobre homem para fora do barco, uma nuvem de areia se formou na praia e um vozeirão ecoou, qual trovão:
Quem tudo quer, tudo perde!

Moral da história: vai dobrar o aluguel da sua AVÓ! 😛