Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

Hoje reproduzo mais uma valiosa contribuição do historiador e romancista Ricardo de Moura Faria, que também é nosso amigo desde os primórdios da blogosfera 😉 Ele é autor de dezenas de livros didáticos e paradidáticos e dos romances “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. Boa leitura!

Imagens: Pinterest

Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

“A partir de 1918, os europeus, ainda desnorteados pelos rumos que a guerra havia tomado, com uma mortandade incrível, destruição imensa de cidades etc., começaram a reavaliar o período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, mais especificamente as três décadas anteriores. Cheios de nostalgia, a intitularam como “Belle Époque”.

Eles não se deram, ou não quiseram se dar conta, de que uma época realmente belle não iria produzir uma catástrofe como a de 1914, como argutamente notou a historiadora norte-americana Bárbara Tuchmann, em seu belo livro “A torre do orgulho”.

O mundo que emergiu da guerra era estranho, valores foram ignorados ou desprezados e, portanto, curtir o período anterior era o melhor a se fazer. O tempo dos avós e dos pais era diferente, era considerado melhor do que aquele que tinham de enfrentar.

Estou iniciando estas considerações com esse episódio, para tentar desenvolver uma ideia, a de que todas as épocas anteriores à nossa realmente eram diferentes e é assim em todos os tempos. Nós, historiadores, sabemos que sempre é uma palavra muito difícil para ser usada porque tudo se move, e nada permanece “para sempre”. Ou quase nada. As mudanças podem, talvez, não ser muito perceptíveis no momento em que estão ocorrendo, principalmente aquelas que estão relacionadas às mentalidades que, como já disse o historiador francês Lucien Febvre, se constituem dos comportamentos e formas de pensar. E essa concepção estava imbricada nas relações da Psicologia com a História.

Como já estou chegando aos 70 anos, começaria por dizer que os meus tempos de infância e adolescência (décadas de 1950 e 1960), com certeza, foram substancialmente diferentes do que vivem as crianças e adolescentes nessas primeiras décadas do século XXI. Morando numa cidade pequena do interior, os divertimentos eram na praça enorme que havia em frente à nossa casa. Ali se jogava futebol, ali se soltava papagaio. Nos quintais, o gostoso era subir em árvores bem altas para se avistar quase toda a cidade. Ou, na época das frutas, chupar jabuticaba, manga, goiaba. Crianças que, além da escola, brincavam com outras crianças. Não havia televisão, só o rádio. E a luz só existia em algumas poucas horas da noite. Dentro de casa, se podia jogar dama, ludo etc.

Um pouco mais velho, com 9, 10 anos, já se podia entrar na brincadeira dos adolescentes, quase sempre o “esconde-esconde”, que se chamava de “negro fugido”. Corríamos pela cidade quase toda para procurar o “negro fujão”, que tentava se esconder de um bando de crianças e adolescentes. Tudo na rua.

Eram tempos melhores ou piores do que os de hoje? As crianças, hoje, “brincam” com smartphones, com jogos eletrônicos. Não socializam como na minha época de infância. Não arrisco dizer que os tempos eram melhores ou piores. Eram diferentes, sim, bem diferentes.

Passando agora para a questão da sexualidade. Não existiam aulas de educação sexual, nem na escola, nem nas casas. Esse assunto era tabu. Claro que, na adolescência, sempre aparecia um que sabia das coisas e comentava, ao seu jeito, com os neófitos. Lembro que, cursando o Ginásio numa escola católica de Juiz de Fora, alguns padres tentavam convencer os rapazes (a escola não era mista) dos perigos da masturbação e outros – geralmente os professores de religião – faziam o maior mistério para uma “aula especial” que haveria na semana seguinte, quando iriam explicar como as crianças eram feitas. E a expectativa se frustrava quando um padre alemão, com sotaque carregadíssimo, tentava, suando, explicar como o “perrrru” entrava na mulher para produzir a nova vida. Todos os alunos vermelhos, não de vergonha, mas da tremenda vontade de rir, que só explodia mesmo na hora do recreio.

Hoje estamos vendo esse debate sem fim sobre a questão de gênero.  Já ouvi comentários que os consultórios de psicólogos e psicanalistas que atendem jovens estão repletos de casos de depressão oriundos exatamente dessa pressão para assumirem uma homossexualidade ou uma bissexualidade ou até uma transsexualidade. Pressão que, muitas vezes, surge nas escolas, e que levam garotas e garotos a terem relações homoeróticas, e que depois se acham em grande confusão mental. Acho que, inclusive, o fazem às escondidas de pais e parentes.

Ter ou não ter educação sexual nas escolas? Muitos dirão que sim, outros muitos dirão que não. E esses últimos apontam quase sempre para os tempos antigos, como se fosse possível repeti-los na atualidade. São tempos diferentes…

Pergunto: os jovens de hoje estão se reunindo para discutir política? Quando falo “os jovens”, quero saber se a maioria está fazendo isso, porque uma minoria eu sei que mantém a chama acesa. Ou hoje é mais importante ficar enviando mensagens pelas redes sociais com erros gramaticais, de concordância e de conceituação absurdos, ou ainda, se reunirem para jogar videogames? Que livros eles estão lendo? Que músicas estão ouvindo? As letras dizem algo?

Mesmo sem conhecimento de pesquisas a respeito, mas observando o que jovens escrevem no Facebook ou no Twiter, sou obrigado a reconhecer que, em termos de idéias políticas ou de politização, como dizíamos na época, no meu tempo de adolescente chegando à idade adulta, final dos anos 60 e início dos 70, o grau de conhecimento e envolvimento em questões políticas era bem mais acentuado do que hoje e envolvia a quase totalidade dos estudantes.

Creio que, se eu estivesse ainda atuando no magistério, poderia ter uma ideia melhor sobre isso, mas considero que a multidão de jovens nas ruas pedindo intervenção militar denota que eles ignoram completamente a realidade brasileira. Não por acaso – me permitam fazer essa colocação aqui – quando lancei meu livro “O Amor nos tempos do AI-5” na Bienal de São Paulo, um jovem de seus 18, 19 anos veio até mim querendo saber se o que eu escrevia era ficção científica, pois entendia que AI-5 significava Artificial Intelligence nível 5. Pode parecer engraçado, mas é trágico!

O meu ensino médio, que na época passou a se intitular Ensino de Segundo Grau, foi feito de 1966 a 1968. E nós tínhamos, no Colégio de Aplicação da UFMG, o curso Clássico e o Científico, o primeiro voltado para os estudantes que se dirigiam à área de Ciências Humanas. Foi o que cursei e tínhamos Filosofia, História, Português (com redação toda semana, temas livres), Latim, Inglês, Francês, Geografia. Lembro dos debates acerca do imperialismo americano, sobre a Primavera de Praga, sobre a Guerra do Vietnã. Três amigos e eu estudávamos antes das aulas noturnas na pensão onde um deles residia e ali tínhamos debates políticos. Também nos encontrávamos aos sábados na Camponesa, onde se comia um pão de queijo especial, tomava-se uma cerveja bem gelada e víamos que não apenas nós, mas todos os estudantes colegiais e universitários que lá frequentavam, que discutiam política o tempo todo. Recordo bem o que nós conversamos depois que aquele deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso que os militares não acharam graça nenhuma e pressionaram o Costa e Silva. Nós saímos da nossa reunião no sábado, convictos de que a situação iria engrossar nos dias seguintes. E deu no AI-5.

Nós estudávamos História, Filosofia… e tínhamos condições de analisar a conjuntura em que vivíamos… Hoje se quer reduzir a carga horária de História e eliminar a Filosofia dos currículos… Tempos diferentes, sem dúvida!

Uma questão política da mais alta relevância: a luta da mulher pela igualdade de direitos. Só quero dizer que fico pensando o que as feministas dos anos 60 que lutaram bravamente para fugir da dominação machista, e brigaram, e lutaram e conseguiram tanto, o que elas pensariam se vivas estivessem, ao saber que no Brasil mulheres se autodenominam de frutas (melancia, pera, morango, melão, jaca e sei lá mais o quê) e postam fotos seminuas ou nuas, como se estivessem se oferecendo para serem comidas por machos famintos.

Eu concluo dizendo que, realmente, no meu tempo – que é um tempo recente – as coisas eram diferentes…”

Será que eram melhores ou piores? O que você acha?

 

 


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Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

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O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

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“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

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Acho muito legal que as pessoas tenham bandeiras para levantar. Ou seja, uma causa em que acreditam e que defendem com unhas e dentes. Pode ser a luta contra o racismo, o casamento gay, a criminalização da homofobia, a legalização da maconha, os direitos dos animais, o feminismo, a liberação do aborto, a redução do número de cesarianas, os direitos dos guaranis-caiovás etc. Pode ser professores de melhor qualidade na escola do filho, a criação de um novo parque na cidade, o cumprimento de uma norma específica na universidade, o direito de usar biquíni na praça do bairro. Pode ser a redução da maioridade penal, o direito ao porte de arma e outras coisas assim. Pode ser o direito de os artistas de rua atuarem livremente, o direito de os jornalistas expressarem suas opiniões sem censura, a obrigatoriedade de diploma para exercer algumas profissões, o direito de os garçons receberem os 10% da gorjeta ou de os taxistas não terem a competição dos motoristas de Uber.

As pessoas devem poder ter suas convicções pessoais e argumentar para que elas sejam cumpridas, respeitadas, implementadas ou amplificadas. O ideal é que façam isso de maneira respeitosa, por meio de debates, audiências públicas, artigos, abaixo-assinados, petições ou projetos de lei. E, claro, por meio de protestos, manifestações, passeatas e afins. Com muitas bandeiras — de cores, símbolos e tamanhos diversos — empunhadas pelo grupo em questão.

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Existem causas mais consolidadas, que a maioria já entende como imprescindíveis, que são quase consensuais. As grandes causas dos direitos humanos caminham para esse rumo, lenta mas inexoravelmente. Outras causas são mais regionais, locais, específicas. Há ainda aquelas bandeiras que interessam principalmente a uma classe profissional, por exemplo. E há as bandeiras dos partidos políticos e das religiões (duas que nunca empunhei). Nem sempre a bandeira do vizinho vai coincidir com a sua.

Concordo com algumas, entendo outras, tolero outras, discordo de um tanto e já balancei umas poucas bandeiras. Aliás, já troquei de bandeiras ao longo da vida também. Em algum momento, defendi com mais afinco uma ideia, que hoje pode nem ser tão importante assim para mim. Em alguns casos, empunho de forma cautelosa minha bandeira, com medo de estar usurpando uma causa que é de outra pessoa. Por exemplo, apesar de ser descendente de negros e ter vários traços dos negros — sou morena, de cabelos cacheados etc –, não me considero negra e sei que não é como a população em geral me vê. Então, embora eu defenda veementemente a criminalização do racismo e o respeito às pessoas de todas as cores e etnias, eu tomo cuidado para não parecer que entendo completamente o que é ser vítima de preconceito racial — porque só posso imaginar a humilhação e sofrimento que esse comportamento pode causar à vítima. O mesmo em relação aos homossexuais: apoio a causa deles, apoio a criminalização da homofobia e os direitos civis iguais, mas não fico empunhando a bandeira como se eu pudesse imaginar o que eles passam, todos os dias, como vítimas de preconceito generalizado.

Por outro lado, é bem mais fácil eu me identificar, por exemplo, com a causa feminista. Sei que as mulheres sofrem determinados tipos de preconceito, mais ou menos graves, porque já os vivi (e relatei algumas vezes aqui no blog). No entanto, também é uma bandeira que empunho com cautela, porque gostaria que o mundo banisse os sexismos, todos eles, em vez de apenas trocar o machismo pelo feminismo.

Acho que minha bandeira favorita é pelo direito da livre expressão e da livre imprensa. Mas mesmo esta bandeira não é ilimitada: se o discurso propaga o ódio ou incentiva um crime, como defendê-lo? Defendo o direito de uma Raquel Sheherazade da vida (ela ainda existe?) poder emitir suas opiniões na TV, mas verei com preocupação se o argumento dela defender o linchamento de pessoas suspeitas de terem cometido um crime, já que linchamento é crime (muitas vezes mais grave que o cometido pelo suspeito em questão). Mesmo assim, defendo que ela possa dizê-lo. Se, ao expôr sua opinião, ela cometer um crime, terá de pagar por ele também, mas depois. Antes, vira censura. De qualquer forma, é difícil delimitar o que é censura e o que é uma proteção necessária (por exemplo, as imagens de adolescentes que cometeram um delito são preservadas por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, e não acho que deixar de mostrá-las seja uma censura).

Enfim, hoje em dia ando tão ponderada que está difícil alguém me ver balançando uma bandeira qualquer — mesmo a do jornalismo, que anda me desanimando a cada dia mais. Eu me posiciono, eu apoio umas ideias e condeno outras, eu raramente fico em cima do muro, mas a veemência anda em falta por aqui. Talvez minha bandeirinha mais convicta seja a do bom-humor. “Por mais senso de humor no mundo!”, já escrevi por aqui. Mas o que é humor e o que é ofensa? Talvez fosse mais fácil eu balançar por mais bom senso no mundo…

Mais nova campanha do blog: por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! https://kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano/

Por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano

Por isso, embora eu admire os colegas e amigos que saem por aí carregando suas bandeiras, fico irritada quando eles me cobram que eu carregue as bandeiras deles. Já discuti com uma amiga que queria que eu virasse vegetariana de qualquer jeito, porque ela virou: “Adoro um bife”, encerrei. Já cortei logo outra amiga que queria que eu virasse mãe-ativista depois que engravidei, lutando pelo parto humanizado e coisa e tal. Pode ser que um dia eu vire, eu tenho procurado me informar e tudo o mais, mas hoje esta causa simplesmente não me comove. Eu adoro cachorrinhos, mas ainda gosto mais dos humanos e não me vejo adotando todo vira-lata que encontro na rua para evitar que ele passe frio ou fome. Mas respeito pacas quem faz disso tudo sua missão.

Enfim, esta longa divagação é para defender que as pessoas possam carregar as bandeiras que melhor lhes aprouver — mas que também tenhamos o direito de simplesmente não carregar bandeira alguma, se não quisermos. Sem olho torto, sem julgamento, sem pé no saco. Que tal esta bandeira nova que inventei? 😉

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O que cabe ao homem e à mulher

Gênio Laerte publicou uma tirinha nesta semana que precisava entrar aqui nos arquivos do blog:

homemmulher

Já plantei muitas árvores, já escrevi vários livros (um publicado), lavo e passo. Falta só eu aprender a cozinhar e fazer um filho para me sentir um ser humano completo 😉

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“É pelas mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando”

Reprodução/Facebook

Reprodução/Facebook de Nana Queiroz

Até quinta-feira da semana passada, a jornalista e escritora paulistana Nana Queiroz, de 28 anos, tinha uma vida tranquila: trabalhava oito horas por dia, como editora de cultura do jornal “Metro”, em Brasília, ia e voltava de bicicleta para casa, curtia o marido e o cachorro nas horas de folga. De lá pra cá, ela tem que administrar cinco horas diárias de sono com entrevistas a veículos de imprensa do mundo inteiro – do “Wall Street Journal”, nos Estados Unidos, à BBC britânica, à árabe Al Jazeera, passando ainda por jornais de Japão, França, Austrália, e de todas as partes do Brasil.

Tudo porque ela decidiu protestar contra o assédio sexual vivido pelas mulheres – e tabulado em pesquisa do Ipea, divulgada na última quinta-feira, 27 de março – criando um evento no Facebook, naquele mesmo dia, em que convidava as internautas brasileiras a fazerem topless e empunharem uma placa de escrito óbvio (mas, infelizmente, nem tanto): “Eu Não Mereço Ser Estuprada”. A própria Nana ilustrou o convite com uma foto em que aparece seminua, em frente ao Congresso Nacional. O resultado foi rápido: 45 mil pessoas, inclusive algumas bem famosas, deram apoio à causa – e começou toda essa repercussão mundial que sacudiria a vida pacata da escritora.

Para a entrevista abaixo, Nana tirou 25 minutos da sua noite de quarta-feira (2/4), enquanto estava em trânsito no carro, a caminho de uma fotografia que faria para uma revista de circulação nacional, para conversar comigo por telefone. Com a fala ultrarrápida e articulada, mostrando uma cabeça com as ideias fervilhando, ela pontuou suas convicções de maneira bastante enfática, que tentei reproduzir com os devidos pontos de exclamação.

Aqui, ela conta como sua vida pessoal virou de cabeça para baixo, fala das ameaças que sofreu e dos apoios que recebeu (até a presidente Dilma Rousseff a apoiou pelo Twitter), fala dos abusos sexuais que já viveu no passado e de como está se articulando, com ajuda de autoridades políticas, para que projetos que combatem os crimes sexuais contra as mulheres sejam aprovados no Congresso Nacional. Confira a conversa na íntegra, abaixo:

***

Como surgiu a ideia de fazer essa campanha?

Quando saiu a pesquisa Chega de Fiu Fiu [em setembro de 2013], fiquei pensando muito sobre como as mulheres eram tratadas, como o corpo delas era tratado, e resolvi começar a responder na rua quando os homens me ofendiam ou faziam xavecadas de mau gosto. Isso foi crescendo, crescendo, e, quando saiu a pesquisa do Ipea, explodiu.

Você se considera feminista? Se envolvia em movimentos feministas antes?

Eu me considero. Mas sempre achei que minha militância no feminismo ia se manifestar em livros e reportagens. Estudo há muito tempo o sistema carcerário feminino – no fim do ano vai sair meu livro “Presos que Mestruam”, pela editora Record – e eu já pensava que meu próximo livro ia se chamar “Estupro”. Mas nunca imaginei que eu ia botar minha cara na rede ou fazer reunião com autoridades, achava que isso estava muito além de mim.

E de onde surgiu essa ideia de colocar a “cara na rede”, afinal?

Na hora [que viu a pesquisa do Ipea] bateu na minha cabeça: “Ah é? Não posso mostrar meu corpo, que aí eu mereço ser estuprada? Então vou mostrar meu corpo e esfregar na cara de todo mundo que eu NÃO mereço!” Só isso! E surgiu, não me pergunta de onde. Eu animei as colegas que estavam do meu lado naquele momento – uma topou fazer o topless e a outra não –, depois chamei outras quatro pela internet, elas toparam e, de repente, a coisa ficou desse tamanho. Nunca esperava que fosse participar tanta gente, imaginei que seriam no máximo cem pessoas, e, quando vi as 45 mil, fiquei enlouquecida.

Como você faz para administrar um movimento que nasceu despretensioso e se tornou essa bola de neve?

Na própria quinta-feira eu já recebi o auxílio de várias mulheres e homens para moderar o grupo. Estão fazendo um trabalho incansável, até as 4h da madrugada, moderando a discussão, para criar um ambiente seguro para as mulheres, banindo ameaças ou ofensas. A gente agora também tem uma assessora para mídia internacional e uma promotora cultural, que está tentando organizar um grande evento aqui na Esplanada, com shows de artistas mulheres, para defender o tema. Acreditamos que não é tanto uma questão de protestar, mas de promover a ideia. Estamos convidando a Gaby Amarantos, que lançou uma música que pode ser o hino da campanha – Não vou mudar o meu look– e a Daniela Mercury. A ideia é que essas artistas façam um trabalho voluntário pela causa, porque não temos nenhum meio de pagá-las – eu mesma estou tirando dinheiro do meu bolso para a campanha.

Você pediu licença do trabalho?

Pedi, porque não tenho condições [de conciliar]. Meu chefe está me apoiando integralmente. Eu ia voltar ao trabalho hoje [quarta-feira], mas ele concordou que eu volte na semana que vem.

“Agora minha mãe tem que marcar horário pra falar comigo!”

Como foi essa sua semana?

Louca, louca. Eu tinha consulta marcada e não fui, meu cachorro tinha veterinário e não foi. Meu marido cancelou uma viagem que faria a trabalho, e eu parei de trabalhar. Estou o tempo inteiro, continuamente, respondendo a mensagens, emails, entrevistas, falando com autoridades, fazendo campanha. Não tenho dormido, só cinco horas por noite – teve uma noite em que eu dormi por três horas.

Antes, minha vida era muito tranquila. Eu ia de bicicleta para o tralho, trabalhava oito horas por dia. Não sou workaholic, valorizo muito o tempo que eu passo com meu marido em casa, sou muito presente na vida dos meus cinco irmãos, falo com muita frequência com eles, e agora minha mãe tem que marcar horário pra falar comigo!

Mas sua família está apoiando essa campanha?

Meu pai, no início, ficou sentido com a foto em que eu aparecia seminua; ficou com medo de eu ser agredida, de o pessoal do trabalho tirar sarro da cara dele (rs). Mas agora ele percebeu o tamanho da coisa e está me apoiando integralmente.

“A cada dez mensagens de apoio que recebi, uma foi de agressão”

E você, teve medo? Já pensou: “Putz, onde fui me meter?”

Nunca me arrependi – pelo contrário, sempre tive uma inquietação muito grande de que eu deveria fazer alguma coisa pelas mulheres. Pela primeira vez, essa inquietação está silenciando no meu coração.

As reações foram mais de apoio ou te xingando?

Mais de apoio: a cada dez mensagens de apoio, uma de agressão.

Ficou espantada com essas mensagens de agressão?

Eu esperava agressão, mas não esperava ameaças [de estupro], né? Estas me espantam. Procurei a polícia, e é uma burocracia tremenda para descobrir um agressor na internet hoje. Procurei a Delegacia da Mulher, e aqui em Brasília eles têm UM investigador especializado em crime virtual. Um só, acho pouco demais! Estou procurando tempo para ligar para o governador para pedir a ele que contrate pelo menos mais uma pessoa.

Desde que começou a campanha, também surgiram muitos homens falando que estupram mesmo, e teve até um que divulgou um vídeo falando isso, sem medo de esconder o rosto. Você acha que a cobertura jornalística deve mostrar sempre, ou é melhor não dar visibilidade a essas pessoas?

Minha opinião é que a imprensa deve, sim, divulgar, para que a identidade dessas pessoas seja revelada. E a imprensa é também um importante meio de pressão para que a Justiça faça algo a respeito.

Você já disse em outras entrevistas que seu marido [o também jornalista João Fellet] também sofreu ameaças. Como ele está reagindo a essa semana?

Nossa relação tem sempre sido eu abdicando de coisas pelo João, largando meu emprego para morar com ele, e ele sempre me dizia que, algum dia, iria me devolver. Agora ele está devolvendo (rs). E está feliz em me ver sanar uma inquietação que eu tinha.

“É difícil encontrar uma mulher brasileira que não tenha sofrido algum tipo de abuso”

Muita gente questionou a credibilidade da pesquisa do Ipea. A metodologia, os números, o termo escolhido (“atacada”). Como você vê a pesquisa que foi seu estopim?

Foi superimportante. Se eu duvidava dos resultados, depois das ameaças que recebi, não duvido mais. O uso da palavra “atacada” é extremamente preciso, porque, no Brasil, as pessoas acham que, se não teve penetração, não é estupro. Mas é sim! Uma mulher atacada é uma coisa gravíssima, seja qual for o ataque, seja verbal ou físico. Eu não tenho nada a ver com o Ipea, não fiz a pesquisa, e as pessoas têm todo o direito de criticar a pesquisa, mas não devem diminuir o significado da palavra “atacada”.

Você já sofreu algum abuso sexual?

Nunca fui estuprada, mas já sofri abusos, como todas as mulheres. Quando eu tinha 14 anos, um velho, nojento, escroto, foi atrás de mim no carro, me seguindo numa rua escura, se masturbando e falando barbaridades. Já teve gente passando a mão em mim em baladas, no Carnaval etc. É difícil encontrar uma mulher brasileira que não tenha sofrido algum tipo de abuso. É importante dizer que, sim, isso é abuso, isso é gravíssimo. Passar a mão numa mulher numa balada é uma coisa animalesca, é deplorável, não é menos grave do que atacar e bater.

As pessoas têm que entender isso, o homem brasileiro tem que parar com esse comportamento. Principalmente nossos adolescentes, porque eles são os que estão fazendo o clima de ódio na internet contra as mulheres, eles são as pessoas que passam a mão nas baladas, eles são os caras que beijam a mulher à força. Por isso que eu estou batendo nessa tecla com os deputados: a gente tem que educar essa molecada! Essa molecada tá achando que estupro é piada, e eu não sei qual é a graça. Ninguém tá rindo!

Com quais deputados você já falou?

Jean Wyllys (Psol-RJ), Érika Kokay (PT-DF), a senadora Vanessa (PCdoB-AM) me telefonou, a ministra Eleonora Menicucci (Secretaria de Políticas para as Mulheres) também… Nós estamos pensando em focar essa campanha na prevenção. A gente acredita que a melhor maneira de prevenir é educar, fazer com que os homens não se transformem em estupradores. Estou entrando na campanha para que o Plano Nacional de Educação, que está sendo votado nas próximas semanas no Congresso, inclua o ensino de questões de gênero nas escolas.

O outro foco da nossa campanha está na inclusão de crimes virtuais contra a mulher na lei brasileira. A gente aposta muito mais na indenização e no trabalho voluntário em instituições femininas – lares de senhoras, prisões e hospitais femininos etc – do que na cadeia. Essas pessoas merecem ser educadas e punidas. Legisladores estão dando umas ideias, professoras estão dando outras, advogados também. Muitas mulheres dizem no grupo [do Facebook] que foram estupradas por alguém da família e não tiveram coragem de denunciar. Queremos que um amigo que viu ou soube do crime possa denunciar no lugar dela.

“A ideia agora é fazer o tema ser debatido à exaustão e o Congresso aprovar algumas medidas em nosso favor.”

Qual o futuro desse movimento? Vão fundar uma associação, por exemplo?

A ideia de criar uma associação não passou pela nossa cabeça. Imagino que o debate deve se seguir muito forte por mais algumas semanas, o grupo do Facebook deve ser mantido pelos moderadores, e nossa expectativa é que esse movimento funcione como uma espécie de Marcha das Vadias: entre em ação nos momentos críticos, mas sem se institucionalizar. A ideia agora é fazer o tema ser debatido à exaustão e o Congresso aprovar algumas medidas em nosso favor.

Ao mesmo tempo em que os números do Ipea mostram uma realidade tão ruim, temos movimentos crescendo no sentido oposto, como o seu. Você vê algum progresso nessa luta, está otimista?

Acho que a gente já está progredindo há um tempo, desde que a escolaridade feminina começou a aumentar, desde a primeira heroína que saiu de casa quando o marido bateu nela. A luta feminina tem sido uma luta a passos curtos, mas o empoderamento da mulher é a melhor maneira de fazer com que a coisa mude – não só o econômico, mas também o empoderamento de autoestima. Temos que abominar a prática de botar a mulher “photoshopada” na revista – aquela mulher não existe e faz as outras se sentirem péssimas.

Essa cultura contribui para que tantas mulheres estejam te agredindo também?

Acho naturalíssimo que elas me agridam: o pai dela e o namorado a agride e manda nela, então é claro que ela vai me agredir. Ela é muito mais vítima do que eu, porque nem opinião própria ela pode ter. É para as mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando. É por elas. É por essas mulheres que estão no fundo do poço absoluto, que é o fundo do poço de achar que são cidadão de segunda categoria.

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