Imagine um livro cheio de referências bibliográficas, que cita inúmeros estudos acadêmicos, dados, estatísticas, que trata de um tema árduo, que não é de ficção – nem de autoajuda – tornar-se um best-seller no Brasil?
Pois bem, esse livro existe: é o Pequeno Manual Antirracista. A autora dessa proeza é Djamila Ribeiro, que, além de escritora premiada, é ativista do feminismo negro, pesquisadora, mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo e imortal da Academia Paulista de Letras.
Esse livreto pequeno, uma verdadeira pérola, venceu o Prêmio Jabuti de 2020, foi o mais vendido do país naquele ano e, desde então, já teve mais de meio milhão de exemplares vendidos. Um fenômeno.
Foi o último livro que li em 2023, por isso o acrescentei tardiamente à minha listinha de melhores do ano. Mas Djamila já tinha sido citada entre as mulheres mais admiráveis e inspiradoras de 2023, ao lado de outras pessoas incríveis <3 Que bom que elas existem!
Graças a Djamila, milhares de pessoas (se não milhões) estão falando abertamente sobre racismo estrutural, racismo internalizado, negritude, os privilégios da branquitude, estão consumindo mais a cultura produzida por pessoas negras, estão apoiando mais as políticas afirmativas na educação e no trabalho, estão questionando a violência racial.
Mais pessoas estão percebendo, aos poucos, que não basta não ser racista, enquanto indivíduo – é preciso ser antirracista, em uma luta coletiva e social.
Como escreveu Djamila:
“Pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente, produzindo desigualdades, e pessoas negras podem se conscientizar dos processos históricos para não reproduzi-los. Este livro é uma pequena contribuição para estimular o autoconhecimento e a construção de práticas antirracistas”.
Claro, embora tenha o nome de “manual”, ele “está longe de querer esgotar” o assunto, como a própria Djamila diz. Um assunto complexo demais, arraigado demais nas entranhas da sociedade, há séculos demais. Mas, justamente por isso, já está passando da hora de a pauta antirracista se tornar uma bandeira de tod@s, pessoas negras e brancas.
- Não é aceitável que os negros sejam 55,8% da população brasileira e 71,5% das pessoas assassinadas. É desproporcional!
- Não é aceitável que, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de não negros tenha caído 6,8%, enquanto, no mesmo período, a da população negra tenha aumentado 23,1%.
- Não é aceitável que um jovem negro seja assassinado a cada 23 minutos no Brasil. Isso é o genocídio da população negra!
- Também não é aceitável que dois terços dos presos no Brasil sejam negros. Que a prisão de mulheres (e quase 70% delas são negras) tenha aumentado 567,4% em quinze anos.
- A maioria das presas são mães, sem nenhum antecedente criminal, e sem acesso a empregos formais. Metem-lhes o crime de tráfico de drogas (às vezes por um porte de menos de 1 grama de maconha) para que sejam postas atrás das grades. Isso também é a tortura da população negra!
Enfim, o capítulo que traz esses dados, sobre a violência racial, é só um dos 11 “passos”, digamos assim, que Djamila constrói no livro para ajudar as pessoas a abraçarem olhares e práticas antirracistas. Mas é o capítulo que mais dói na alma da gente. Porque é escandaloso – e porque os números não mentem.
Espero que este livro tão poderoso continue sendo muito vendido, neste 2024 e nos próximos anos, para que as palavras de Djamila cheguem a muitos lares, escolas e escritórios, tornem-se leitura obrigatória entre alunos e trabalhadores, sacudindo os brasileiros de sua letargia, de sua falsa democracia racial, de seu mito de Casa-Grande & Senzala – que já fez tão mal a tantas gerações.
Sim, existe racismo no Brasil. E ele é estrutural. Só cabe a nós reconhecê-lo e combatê-lo, dia após dia.
“Pequeno Manual Antirracista”
Djamila Ribeiro
ed. Companhia das Letras
135 páginas
R$ 33,92 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
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