No meu último post, eu trouxe algumas reflexões sobre a obra do jornalista inglês George Orwell e citei seu famoso ensaio “Por que eu escrevo“, de 1946. Hoje achei que valia me debruçar um pouquinho mais neste texto.

Ele começa dizendo que, desde os cinco ou seis anos de idade, já se via como escritor quando crescesse. Me identifiquei: desde pequena, sempre que alguém me perguntava o que eu seria ao crescer, minha resposta pronta era “autora!”. Acabei dobrando uma esquina no jornalismo, mas, aqui no blog, também consigo mergulhar, sempre que posso, na literatura.

Mas eu me identifiquei em vários outros momentos com o que diz Orwell, como vocês verão a seguir.

As razões para alguém querer ser escritor, segundo George Orwell

Neste ensaio, Orwell diz que existem quatro motivações para alguém querer escrever, além da necessidade de ganhar a vida. “Elas existem em diferentes graus em cada escritor, e em cada escritor as proporções variam de tempos em tempos, de acordo com o ambiente em que vive”, ele diz.

São elas (com as explicações do autor entre aspas):

1) Puro egoísmo

“Desejo de parecer inteligente, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se vingar dos adultos que o desprezaram na infância, etc., etc. É hipocrisia fingir que isso não é uma motivação, e uma forte motivação. Escritores compartilham essa característica com cientistas, artistas, políticos, advogados, soldados, empresários de sucesso – em suma, com toda a elite da humanidade. A grande maioria dos seres humanos não é extremamente egoísta. Depois dos trinta anos, aproximadamente, abandonam a ambição individual – em muitos casos, aliás, quase abandonam o próprio senso de individualidade – e vivem principalmente para os outros, ou simplesmente são sufocados pela monotonia do trabalho. Mas também existe a minoria de pessoas talentosas e obstinadas que estão determinadas a viver suas próprias vidas até o fim, e os escritores pertencem a essa categoria. Escritores sérios, eu diria, são, em geral, mais vaidosos e egocêntricos do que jornalistas, embora menos interessados ​​em dinheiro.”

2) Entusiasmo estético

“Percepção da beleza no mundo externo ou, por outro lado, nas palavras e em sua correta disposição. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história. Desejo de compartilhar uma experiência que se considera valiosa e imperdível. O motivo estético é muito tênue em muitos escritores, mas mesmo um panfletista ou autor de livros didáticos terá palavras e frases prediletas que lhe agradam por razões não utilitárias; ou poderá ter fortes convicções sobre tipografia, largura das margens, etc. Acima do nível de um guia ferroviário, nenhum livro está completamente livre de considerações estéticas.”

3) Impulso histórico

“Desejo de ver as coisas como elas são, de descobrir os fatos verdadeiros e armazená-los para uso da posteridade.”

4) Propósito político

“usando a palavra “político” no sentido mais amplo possível. Desejo de impulsionar o mundo em uma determinada direção, de alterar a ideia que outras pessoas têm do tipo de sociedade que deveriam almejar. Mais uma vez, nenhum livro está genuinamente livre de viés político. A opinião de que a arte não deve ter nada a ver com política é, em si, uma atitude política.”

***

Acho que essas motivações fazem sentido ainda hoje. Também me vejo querendo escrever por um pouco de cada um desses motivos (inclusive o de ganhar a vida).

Orwell diz que, por natureza, ele teria escrito motivado só pelos três primeiros:

“Em uma época pacífica, eu poderia ter escrito livros rebuscados ou meramente descritivos, e poderia ter permanecido quase alheio às minhas lealdades políticas.”

Eu também. Mas, vivendo em um período tão conturbado da história (e qual não é?!), ele se viu “forçado” a se tornar “uma espécie de panfletário”. E ele explica o que o levou a escrever textos tão politizados quanto “A Revolução dos Bichos” e “1984”:

“Primeiro, passei cinco anos em uma profissão inadequada (a Polícia Imperial Indiana, na Birmânia), e depois enfrentei a pobreza e a sensação de fracasso. Isso aumentou meu ódio natural à autoridade e me tornou, pela primeira vez, plenamente consciente da existência da classe trabalhadora, e o trabalho na Birmânia me proporcionou alguma compreensão da natureza do imperialismo; mas essas experiências não foram suficientes para me dar uma orientação política precisa. Então vieram Hitler, a Guerra Civil Espanhola, etc.”

Mas foi sua experiência lutando com os trotskistas na Guerra Civil Espanhola que firmaram sua posição política. É neste trecho que ele diz aquilo que eu já tinha trazido para o blog no último post:

“Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, como eu o entendo. Parece-me um absurdo, em um período como o nosso, pensar que se pode evitar escrever sobre tais assuntos. Todos escrevem sobre eles de uma forma ou de outra. É simplesmente uma questão de qual lado se toma e qual abordagem se segue. E quanto mais consciente se está da própria inclinação política, mais chances se tem de agir politicamente sem sacrificar a integridade estética e intelectual.”

A preocupação inicial do escritor é ser ouvido

A partir desse ponto, o jornalista diz que o que mais desejou fazer, enquanto escritor, foi transformar a escrita política em arte. Partindo sempre de uma sensação de injustiça, de alguma mentira que ele queria expor, algum fato ao qual queria chamar a atenção, e com a preocupação inicial de ser ouvido.

Puxa, me identifiquei muito com isso também! Por que acham que mantenho um blog há quase 16 anos sem ganhar nenhum centavo com ele? Para ser ouvida, ou lida, para ver minhas ideias, em forma de textos, chegarem a algumas pessoas neste mundão.

Para além da questão estética, Orwell diz que se preocupava em fazer isso da forma mais precisa possível, tomando cuidado com o que chamou do “problema da veracidade”. Mesmo sacrificando a qualidade estética de alguns de seus livros, ele fazia questão de incluir fatos nos textos. Era seu lado jornalista em ação.

O escritor finaliza o ensaio com uma observação que também mexeu muito comigo: a questão visceral e meio sem explicação que faz com que os escritores queiram escrever, para além daquelas motivações que ele tinha citado. Uma inquietação, uma espécie de “demônio” impulsionando a escrita:

“Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um longo período de alguma doença dolorosa. Ninguém se aventuraria em algo assim se não fosse impulsionado por algum demônio ao qual não se pode resistir nem compreender. Quem sabe esse demônio seja simplesmente o mesmo instinto que faz um bebê chorar por atenção. E, no entanto, também é verdade que não se consegue escrever nada legível a menos que se lute constantemente para apagar a própria personalidade. Uma boa prosa é como um vidro transparente.”

Também sinto isso muito. Às vezes tenho uma ideia de um texto quando estou nadando, por exemplo, ou caminhando na rua, e não consigo sossegar enquanto não me sento diante de um teclado e coloco tudo para fora. É uma espécie de doença, como ele define.

Enfim, achei este ensaio muito interessante, como tudo de George Orwell que já li até hoje (basicamente, três romances e alguns textos mais curtos). Como escrevi no meu último post, é importante nos voltarmos aos clássicos do passado, vez por outra, para entendermos os dilemas do presente – e, agora acrescento, nossos próprios dilemas internos. Porque clássicos são atemporais, atuais e relevantes para sempre.

Ah, duas coisas antes de encerrar o post:

  1. Quem quiser ler o ensaio na íntegra, traduzido, pode clicar aqui.
  2. Os próximos posts desta semana trarão alguns dos textos que andei escrevendo. O primeiro é uma dessas febres que tive: escrevi ele quase todo, na minha cabeça, enquanto nadava, e depois fiquei inquieta por dois dias até conseguir desovar tudo no computador. O segundo, um conto bem menos pretensioso, quase uma brincadeira. Espero que gostem (afinal, como dizia Orwell, a gente escreve para ser ouvido 😉)

 

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