Adoro quando estou no meio ou na reta final de um livro, já tão absorvida pela história que me sinto quase dentro daquele mundo, íntima daquelas personagens, às vezes de outro universo ou época.

Também é emocionante começar uma leitura nova, ainda tateando quem é quem, buscando sentidos, tentando entender que história é aquela.

Mas um dos momentos que eu mais gosto é o entrelivros: quando acabei de terminar uma leitura e ainda não comecei a próxima. Ou seja, quando tenho todo um mundo de possibilidades para escolher.

Dá até um frio na barriga, percorrer as estantes, seja da biblioteca, das livrarias ou da minha casa, e pensar em qual daqueles universos quero me embrenhar desta vez. É como se eu tivesse um poder mágico nas mãos: de escolher se quero entrar na mente de outra mulher, ou de um homem, de alguém aqui do Brasil ou de outro país, de alguém que vive meu tempo ou que já morreu há séculos.

E a responsabilidade é enorme, porque meu tempo de vida é finito, os livros tendem ao infinito e tenho que saber escolher bem para aproveitar o tempo que tenho com aquelas histórias que vão mexer mais comigo.

Tem uma newsletter do UOL que eu assino, Livros Mudam Vidas, que acho legal porque me fazem refletir sobre esse tipo de coisa. Numa das primeiras edições, a escritora Natalia Timerman falou justamente sobre isso:

Como escolher o próximo livro?

“Sinto decepcioná-los com a verdade óbvia que nos esforçamos todos os dias para esquecer: você não vai ler tudo o que quer. Se for um aficionado por livros, se ler a quantidade impressionante de um livro por semana ao longo de toda a sua vida adulta, você não vai ler mais que três mil livros. Na vida.

Número grande demais para se contar com as mãos, pequeno demais para ser infinito. Três mil são as palavras de um conto curto, são os sabores que as papilas humanas conseguem distinguir.

Três mil são as figurinhas de três álbuns completos da Copa. São as línguas faladas na África, os raios por minuto no mundo, os batimentos cardíacos de uma pessoa em menos de uma hora. Essa pessoa poderia estar lendo, e em 43 minutos seu coração bateria três mil vezes: para cada batida, um livro.

E isso é tudo o que você vai ler ao longo de todos os anos em que estiver vivo.

Mais uma notícia da insuficiência nossa de cada dia. Impossível cumprir todas as tarefas, impossível responder a todas as mensagens. Impossível acompanhar todos os grupos, tirar toda a poeira, ir a todas as festas. Impossível ver os amigos da vida toda, e de repente ela passou, a vida, entre os boletos e o trânsito, a insônia e a pressa.

A avidez é o maior paradoxo de um leitor, porque ler bem pede calma. Ler bem: ao ritmo do texto, deixando o olho correr pelas palavras e também vagar quando a leitura leva para algum lugar fora das páginas. Esquecer do tempo, estando nele. Concentração, artigo raro em tempos de smartphone.

A pilha dos próximos livros pode ser opressora. Você não vai estar em dia com os lançamentos, você também quer ler os clássicos, você deve poder se permitir o prazer precioso de reler. E então, como escolher – leremos tão pouco! – o próximo livro?

Momento decisivo, prazeroso e irremediavelmente banal: passear pelas estantes de uma biblioteca, conferir as lombadas, puxar um livro aqui, devolvê-lo, puxar outro ali, folheá-lo. Ler a primeira frase. Sentir vontade de continuar. É esse.

Escolha como quiser, caro leitor, cara leitora. Pelo começo, pela capa, pelo hype, pelo contrário. Escolha bem, e largue se não for o momento. Um livro a mais. Um livro a menos.”

Achei tão legal essa ideia contida no penúltimo parágrafo, que acho que ela ficou dançando dentro de mim por meses. Fez muito mais sentido, aliás, do que a ideia do parágrafo anterior, sobre a pilha dos próximos livros ser opressora. Não acho opressora, acho mais prazerosa em sua banalidade.

Antes ou depois de ler este texto da newsletter (não lembro mais), li uma pensata do jornalista Irineu Machado, também do UOL, que também tem tudo a ver com essas minhas divagações. Ele sempre publica belas reflexões em seu LinkedIn aos domingos, e acho até que deveria transformá-las em um livro qualquer dia desses. Daquela vez, escreveu o seguinte:

“Promessas são melhores antes de serem lidas.

Não por mérito delas. Por mérito do antes. O antes é um profissional: escolhe o ângulo, esconde a fiação, cobra caro. Antes da leitura, um livro ainda é todos os livros que poderia ser. A capa promete. Quem paga é o miolo. A orelha faz sala.

Depois, claro, vem a página 47.

A página 47 é quando a literatura começa a pagar aluguel. Passou o encanto da chegada, ainda não há intimidade para perdoar defeito. O autor repete um truque. O personagem fala demais. A metáfora da página 12 reaparece na página 47 com saudade de si mesma. O que parecia mistério revela-se hesitação. O que parecia estilo, mania.

Ler é descobrir se a promessa aguenta convivência.

(…) O texto sabe disso melhor do que nós. Todo texto começa prometendo um mundo e termina entregando uma versão possível. Quem escreve passa a vida tentando reduzir esse crime.

Escrever é administrar o luto das possibilidades.

Talvez por isso revisar o que escrevemos doa. Revisar é encontrar o antes fossilizado dentro do depois. O adjetivo que brilhou no escuro da madrugada amanhece mal. A ideia que parecia original chega ao café da manhã dando entrevista coletiva. Melhor apagar, fingir que nunca escreveu, salvar em outra pasta pra não parecer cruel.

(…) Muita coisa não passa no teste do depois. Textos que só funcionavam como título. Encantos que dependiam da distância. Promessas que funcionavam melhor na capa. Não é tragédia: é o depois fazendo seu trabalho de auditor.

Ainda assim, respeitemos o antes. Sem ele ninguém abre livro, manda mensagem, atravessa sala. O antes promete mais do que pode, mas sem essa promessa ninguém sai de casa. O depois é honesto, às vezes honesto demais para ser amado.

A primeira página ainda dá uma piscadinha. A página 47 cobra. O resto é convivência.”

Achei genial.

Esta parte, principalmente, quando ele ainda falava mais de livros que da vida em si: “Antes da leitura, um livro ainda é todos os livros que poderia ser. A capa promete. Quem paga é o miolo. A orelha faz sala. Depois, claro, vem a página 47.”

Porque é, como eu ia dizendo lá no começo, exatamente o que eu sinto. O que Natalia Timerman sente. E Irineu Machado também. Os livros ainda não lidos são promessas lindas de um “depois” emocionante. E o mais incrível é que cabe a nós (quanto poder!) fazer essa escolha.

Requer sabedoria, pra não queimarmos nosso escasso tempo de leitura, nossos três mil livros possíveis em uma vida. E também para termos a sorte de nos encantarmos com uma história que cumpriu a promessa. Como se fosse o primeiro livro de nossas vidas.

Como disse o escritor Jeferson Tenório em outra edição da newsletter:

“O livro que estamos lendo será sempre o primeiro. Porque nossa imaginação se regenera e voltamos aos alumbramentos de quem lê pela primeira vez uma boa história.”

Agora, se me derem licença, vou ali pra minha estante escolher minha próxima leitura. Estou entre “A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê“, “Trilogia de Copenhagen“, “Flores para Algernon” ou o livro de contos de Harper Lee, “A terra da doce eternidade“. Isso se minha reserva na biblioteca não sair antes (“Meridiana“, de Eliana Alves Cruz).

Que algum deles cumpra sua maravilhosa promessa e seja meu próximo livro da minha vida!

***

Mais divagações aqui no blog:

➡ Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.

➡ Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉

Assinar no LinkedInCanal do blog da kikacastro no WhatsAppReceba novos posts de graça por emailResponda ao censo do Blog da Kikafaceblogttblog

Tags do post:


Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Já leu estes?

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo