- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Quem me acompanha aqui no blog sabe que passei por um grave problema de exaustão, que me levou a pedir demissão do meu último emprego com carteira assinada, em 2022. Eu era “chefe”, trabalhava na Globo, a “empresa dos sonhos” de muita gente (embora nunca tenha sido a minha, vale dizer) e, depois de muito sofrimento, estresse, ansiedade, insônia e outros problemas, resolvi ir embora.
Embora tenham sido 28 meses bastante traumáticos naquele emprego, eles não foram totalmente em vão, porque serviram pra eu conhecer muitas pessoas queridas, com quem mantenho contato até hoje, em maior ou menor grau. Uma delas é a Tábata Poline, que, além de jornalista, é especialista em direitos humanos e hoje ocupa a função de repórter do “Fantástico”.
Há alguns dias ela mandou um zap a alguns amigos, e eu estava entre eles. Dizia: “Fiz minha primeira palestra no TEDx, e ela foi publicada hoje! (…) Fui com medo mesmo, com o coração aberto e com muita coisa que eu precisava dizer.” E também: “Assistam! E, se fizer sentido pra vocês, espalhem também. Quero muito que essa conversa chegue ao máximo de pessoas possível e que a gente possa refletir junto.”
Eu assisti já com a certeza de que veria boas reflexões, que sem dúvida mereceriam ser espalhadas por este mundão. Como quando a Tábata compartilhou sobre o racismo que sofre sendo uma mulher negra mãe de uma menina branca. Ou quando ela falou sobre o racismo algorítmico.
Desta vez, o tema do racismo não foi o principal de sua fala. Mas, claro, ela também não perdeu a oportunidade de dizer que, mesmo depois de “séculos e séculos”, o mundo segue achando as mulheres negras “inferiores, subalternas e incapazes”.
Mas, para além da raça, Tábata resolveu focar na questão do gênero. E da exaustão invisível que está adoecendo as mulheres. Com o nome de “A estética da força: eu dou conta de tudo”, a palestra começou com o episódio de burnout que ela sofreu e que, corajosa, compartilhou com todos em fevereiro.
“Eu pifei. Eu não sabia onde eu tava, o que eu tava fazendo, nem com quem eu tava falando. Eu simplesmente pifei.”
(Lembrei de quando passei uma manhã inteira sem conseguir atualizar um portal de notícias, onde eu trabalhava como capista, porque eu tive um branco e não lembrava o que tinha que fazer. Isso depois de meses fazendo aquele trabalho, dia após dia.)

Depois Tábata descreveu vários sintomas que ela teve do que mais tarde foi diagnosticado como burnout e exaustão mental: insônia, crises de ansiedade, quadro depressivo, manchas de estresse etc.
“O meu corpo deixou claro pra mim que ele não aguentava mais tanta pressão.”
(Lembrei de quando eu voltava pra casa do trabalho chorando, todos os dias, e das noites em claro que eu passava, e das dores de cabeça excruciantes que sentia.)
Aqui vou tomar a liberdade de compartilhar uma penca de falas muito fortes da palestra da Tábata, porque acho que outras pessoas vão se identificar:
“Se eu tinha conquistado tudo o que eu batalhei pra ter, por que meu corpo interrompeu essa corrida bem na hora da colheita?”
“Cheguei na redação e fui direto pro banheiro e comecei a chorar.”
“Meu instinto dizia: eu preciso voltar pra mim.”
“Ouvi de profissionais e de todas as pessoas que eu amo: você precisa parar. Como uma mulher para?“
“Existe produtividade no descanso? E o que eu vou fazer com a quantidade de coisas que preciso carregar nas minhas costas?”
“Mas eu parei. Não por sabedoria ou inteligência, foi por necessidade. Porque talvez a próxima etapa daquela avalanche fosse algo muito pior.”
Enquanto fui ouvindo os 13 minutos do Tedx da Tábata Poline, fui me identificando com situações minhas e de outras mulheres que conheço.
Claro, tem a situação individual de cada um. Ela atribui uma parcela do peso que sente, por exemplo, à sua experiência de vida, tendo que cuidar da irmã recém-nascida quando tinha apenas 6 anos de idade, tendo que deixar “a comida pronta e a casa arrumada” antes que a mãe chegasse do próprio trabalho exaustivo, zelando pelas famílias dos outros e pelos filhos dos outros, tendo que começar a trabalhar desde os 12 anos de idade, sem alternativa.
Mas Tábata fez questão de dizer que, independente das experiências mais ou menos difíceis de cada uma, as mulheres são, em geral, cansadas e sobrecarregadas, e o mundo olha para nós e normaliza esse fato.

É aqui que ela disse a um público majoritariamente de mulheres a frase que achei mais importante: “Exaustão feminina não é problema individual como fazem a gente pensar. É um problema coletivo, social e estrutural.” E mais adiante:
“Mulheres são responsabilidade coletiva, porque este país está nas nossas costas.”
E ela nos convida a avançar coletivamente, enquanto sociedade, e também a saber a hora de parar, individualmente, de reconhecer como cada uma de nós está, e inclusive de saber ser improdutiva ou entregar menos:
“Você não precisa aguentar tudo. Deixa alguns pratinhos caírem, não tem problema. O único prato que não pode cair é aquele em que você coloca você mesma.”
Foi uma bela palestra, que conversou comigo enquanto mulher, enquanto profissional e enquanto pessoa que já pifou, e que também já decidiu deixar alguns pratinhos caírem para me reequilibrar.
Recomendo que todas as leitoras deste blog assistam também, e ajudem a espalhar esta reflexão e este convite da Tábata para mais e mais pessoas, especialmente para outras mulheres:
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