- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
No dia em que o tio Dodó morreu, eu estava na casa dele, conversando com minhas duas irmãs e um dos meus primos, quando o assunto embrenhou para uma reflexão meio pessimista, com aquelas perguntas que a filosofia, a religião e a mitologia tentam responder há milênios: pra que serve a vida? Qual é seu sentido, lógica ou utilidade?
O primo tinha lido “O mito de Sísifo“, que o Nobel de Literatura Albert Camus publicou em 1942. Ali ele reflete sobre a história de Sísifo, personagem que foi condenado pelos deuses a empurrar incessantemente uma pedra até o alto de uma montanha, de onde ela sempre tornava a cair.
E meu primo falou que é como ele às vezes se sente, empurrando aquela pedra, dia após dia, para depois ela cair e ter que começar tudo de novo. E, no fim das contas, pra quê? No que nós três concordamos.
Eu (ainda) não cheguei a ler o livro, mas vi um comentário na página da Amazon que achei tão bonito, que achei que valia compartilhar aqui. Assinado por uma moça chamada Joyce Ruiz, ele diz o seguinte:
“A vida, para Camus, é como um sopro de vento que insiste em nos tocar, mesmo quando estamos parados no meio do caos. Ele não nega o absurdo, a rocha que rola ladeira abaixo todos os dias, mas encontra nessa queda uma espécie de beleza inexplicável. Não se trata de ignorar o peso da existência, mas de abraçá-lo com uma estranha leveza.
“Assim como, em certos dias, a descida é feita na dor, também pode ser feita na alegria”, ele diz. E é aí que mora a revolução: na capacidade de transformar o fardo em dança, de rir diante do inevitável.
A vida, mesmo absurda, é boa. E essa bondade não está no fim da luta, mas no próprio ato de empurrar a pedra, de sentir o suor escorrer e, ainda assim, escolher continuar. “É a vida acontecendo”, como costumo dizer diante das adversidades ou percalços da vida.
Camus não promete um sentido último para a existência, mas nos ensina que o sentido está justamente na falta dele. Quando aceitamos que a vida não tem um propósito último, podemos nos concentrar no que está ao nosso alcance: o presente, as pequenas alegrias, os momentos de conexão.
É como se ele dissesse: “Olha, a rocha vai cair de novo amanhã, mas hoje você pode olhar para o céu e sentir o sol no rosto”. E isso, por mais simples que pareça, é revolucionário. Porque é uma recusa em se render ao desespero, uma aposta na alegria mesmo quando tudo parece conspirar contra.
A vida não precisa de um porquê para ser vivida; ela já é, em si, uma razão suficiente. E quando as adversidades surgem, não há como negar: é a vida acontecendo. E acontecer, para Camus, já é o bastante.
“É preciso imaginar Sísifo feliz.””
Não sei se foi a mesma interpretação que meu primo fez ao ler esta obra que tanto mexeu com ele. Mas achei muito interessante. Como em outros momentos, a morte do meu tio me fez pensar na vida, e deve ter feito várias outras pessoas da família pensarem também.
Ainda sem conhecer a fundo o que diz Camus em seu livro, me arrisquei a ter algumas ideias minhas a respeito.
Por exemplo, a ideia de que só os honestos, como nós, precisam realmente carregar essa pedra diária. Os desonestos encontram atalhos: colocam o fardo sobre uma escada rolante, pagam para alguém carregar para eles todos os dias, ou até obrigam, usando algum tipo de violência.
Mas, ainda assim, preferimos ser honestos, certo? Então como podemos tornar esse peso mais leve?
Pensei em algumas possibilidades:
- interagindo com outros humanos ao redor, que também estão subindo aquela montanha, tornando-nos seus amigos, e ouvindo suas histórias e contando as nossas;
- aprendendo coisas novas com nossas experiências no meio do caminho;
- admirando a paisagem do entorno, especialmente a esplêndida natureza que deve existir por perto;
- ouvindo o canto dos pássaros e outras melodias e músicas;
- mergulhando em nossos pensamentos, em meditações profundas ou memórias doces dos tempos em que éramos crianças e nossas pedras mais pareciam bolinhas de gude;
- por fim, descansando: sim, parando para DESCANSAR durante a jornada, sempre que possível e/ou necessário.
A vida não é fácil, meus amigos. Muitas vezes é triste, uma barra tão pesada quanto a pedrona de Sísifo. E quase nunca faz sentido. Mas podemos tentar torná-la mais leve, como bem disse a Joyce Ruiz depois de ler Camus.
***
P.S. Não tenho certeza, porque ainda não tive tempo de ler, mas acho que achei o livro todo digitalizado, que pode ser lido aqui. Para comprar, acesse o link abaixo:
O mito de Sísifo
Albert Camus
Ed. Record
160 páginas
R$ 39 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Mais autores que ganharam o Prêmio Nobel de Literatura:
- László Krasznahorkai, húngaro – Nobel de 2025
- Han Kang, sul-coreana – Nobel de 2024
- Annie Ernaux, francesa – Nobel de 2022
- Olga Tokarczuk, polonesa – Nobel de 2018
- Kazuo Ishiguro, japonês – Nobel de 2017
- Bob Dylan, norte-americano – Nobel de 2016
- Alice Munro, canadense – Nobel de 2013
- Mario Vargas Llosa, peruano – Nobel de 2010
- José Saramago, português – Nobel de 1998
- Wisława Szymborska, polonesa – Nobel de 1996
- Toni Morrison, norte-americana – Nobel de 1993
- Gabriel García Márquez, colombiano – Nobel de 1982
- John Steinbeck, norte-americano – Nobel de 1962
Leia também:
- Pessoas em cargos de liderança estão EXAUSTAS
- Sobre a importância de não fazer nada
- Reflexões sobre trabalho, burnout e a importância do DESCANSO
- 1 ano após pedir demissão: como mudei minha vida
Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO
Descubra mais sobre blog da kikacastro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




