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‘O Olho Mais Azul’, de Toni Morrison: a história da criança negra que queria existir

Desenho na capa do livro “O Olho Mais Azul”

 

Terminei de ler este “O Olho Mais Azul” logo depois que veio à tona a notícia absurda, revelada pelo site Intercept, de que uma criança de 11 anos estava sendo mantida em um abrigo pela Justiça por mais de um mês para evitar que fizesse um aborto legal depois de ter sido estuprada.

Acho que os dramas doem mais quando são inspirados na realidade, né?

Neste primeiro livro da prêmio Nobel Toni Morrison, conhecemos outra criança estuprada chamada Pecola Breedlove. Seu estuprador é seu próprio pai.

(No Brasil, mais de 70% dos casos de abuso sexual de crianças e adolescentes são praticados por pais, mães, padrastos ou outros parentes das vítimas, segundo dados do Disque 100).

O livro se passa nos anos 40, nos Estados Unidos. Ainda havia, por exemplo, entradas “só para negros”, separadas das passagens dos brancos em locais públicos e nos ônibus.

Não bastasse esse racismo institucionalizado, existia, obviamente, outras formas rotineiras de violência discriminatória por cor. Pecola sofre todas essas violências que você puder imaginar. Todas. Na escola, com as amigas, na família. Acho que um dos episódios mais fortes é o que mostra a violência que ela sofre da mãe, na frente da criança loirinha de olhos azuis que vivia na casa onde a mãe trabalhava como doméstica. Uma violência brutal, e não estou nem falando de agressões físicas.

 

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O estupro e consequente gravidez da menina Pecola é anunciado logo no início do livro, pela voz da narradora Claudia MacTeer, outra criança. Mas é daquele jeito infantil, numa mesma frase que anuncia que os cravos-de-defunto não nasceram em nenhum canteiro de nenhum jardim naquele ano de 1941.

A brutalidade passa quase batido amenizada pela voz da criança. Mais ou menos como acontece em “Festa no Covil“. E isso acontece na narrativa como um todo, que é diluída, entrecortada como se fossem contos que pudessem ser lidos em ordem aleatória.

Eles vão montando um quadro em mosaico, que vão nos trazendo toda a dimensão daquelas vidas de meninas negras nos Estados Unidos racista da década de 40. Você começa um capítulo com uma certa leveza, e ela vai deixando vazar a gravidade das coisas, e termina com um soco na cara. Para, na página seguinte, começar de novo mais devagar, muitas vezes com um personagem completamente novo.

E assim vamos conhecendo não só Pecola e Claudia (que é uma narradora que só aparece em alguns momentos, numa alternância da narrativa em primeira pessoa com a terceira pessoa), mas também a mãe de Pecola. O pai dela. As vizinhas prostitutas. A colega que se sente superior por não ser “preta retinta”, por ser “apenas” mulata.

Bonita. Feia. Esses conceitos de beleza completamente atrelados à cor da pele também aparecem constantemente no livro. São mais uma das violências sofridas rotineiramente por aquelas meninas. Pecola rezava todos os dias para ter olho azul – o olho mais azul possível. Como os olhos das bonecas que ela via e das meninas que faziam sucesso na TV. Como Shirley Temple. Se ela acordasse com olhos azuis, seria bonita. O que para ela era uma extensão de ser vista, inclusive pelos pais. O que, por óbvio, é uma extensão de ser amada. De existir.

Não é isso o que todas as crianças (todos os humanos?) querem, em última instância? Respeito, amor. Crianças como Pecola e como a garotinha que foi estuprada em Santa Catarina e depois violentada em plena audiência da Justiça estão abandonadas. E acontece a elas o que menos se espera que aconteça a uma criança.

(Felizmente, no caso brasileiro, um veículo de imprensa cumpriu o papel do jornalismo, de trazer luz a uma história que passaria por baixo dos panos, e a criança começou a ganhar amparo e apoio. Mas o mesmo não aconteceu a mais de 17 mil outras crianças, só em 2021).

Como eu disse lá em cima, os dramas doem mais quando são inspirados na realidade. Na edição que eu li, havia um posfácio de Toni Morrison em que ela revela que conheceu efetivamente uma garotinha negra, quando ambas tinham uns 6 anos, que disse que queria ter olhos azuis. E aquilo a marcou por vários anos, até ela decidir escrever  a respeito, na década de 60.

“Implícita em seu desejo estava a aversão por si mesma, de origem racial. E vinte anos depois eu continuava me perguntando como é que se aprende isso. Quem disse a ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberração do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a achado tão deficiente, um peso tão pequeno na escala da beleza? Este romance busca relances do olhar que a condenou”, explica a autora.

A narradora Claudia também ouve frases depreciativas, assim como Pecola. A diferença entre as duas está nas famílias de cada uma, daí porque a autora também quis resgatar, lá atrás, na infância dos outros, as histórias também da mãe e do pai de Pecola. O que pode tê-los tornado esses adultos tão desprezíveis com a própria filha? A gente vai descobrindo isso ao longo da narrativa entrecortada que já descrevi, que se descortina aos pouquinhos, como se a autora tivesse medo de revelar tudo de uma vez e nos matar de desgosto com este drama tão verossímil com o mundo real.

E tudo culmina, lá no fim, com o que já tinha sido anunciado bem no comecinho: com a gravidez da menina Pecola. Uma criança. Que quando menstruou achou que estava morrendo.

Termino a leitura e ainda não sei responder às perguntas que Toni Morrison se propôs ao escrever este livro. “Quem disse a ela? Quem a fez sentir que era melhor ser uma aberração do que ser o que ela era? Quem a tinha olhado e a achado tão deficiente, um peso tão pequeno na escala da beleza?” Quem? Quem?

Ou melhor, a gente sabe responder, o difícil é entender. De onde veio a lógica do racismo. Como alguém pode ser maltratado de todas as maneiras possíveis apenas por sua cor, pelo crespo do cabelo. Como alguém pode se sentir melhor por ter a pele mais clara, os olhos azuis.

É inaceitável que tão pouco tenha mudado depois de tanto tempo. Que todos os dias a gente ainda noticie casos de injúria racial descarada, de violência, de socos no estômago como os que Pecola, Claudia e vários outros personagens dessa história sentiram. É ilógico ver a desproporção de bonecas negras nas vitrines das lojas – enquanto quase todas são loirinhas, ainda hoje remetendo à Shirley Temple (que fez sucesso há quase 100 anos, deus do céu).

“Eu passava o dedo pelo rosto, pensando nas sobrancelhas desenhadas com um único traço; cutucava os dentes perolados, enfiados como duas teclas de piano entre lábios vermelhos em forma de arco. Contornava o nariz arrebitado, enfiava o dedo nos olhos de vidro azul, torcia o cabelo loiro. Não conseguia gostar dela”, descreve Claudia, sobre a boneca que odiava.

O racismo é ilógico e doentio e criminoso. E destrói muitas vidas, de muitas Pecolas, de muitas formas. Desde a infância, até o ciclo perverso da vida adulta. Desde as bonecas que não criam identidade e distorcem o senso de beleza até os estupros e gravidezes indesejadas. Desde 1941, até 2022. Até quando?

 

O Olho Mais Azul
Toni Morrison
Cia das Letras
216 págs.
R$ 39,90

 

 

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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