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‘Kindred’: um livro que nos transporta para as feridas da História

Ilustração dentro do livro da editora Morro Branco.

 

Como já adiantei aqui há alguns dias, “Kindred” é um livro que marca a gente, e que nos faz arregalar os olhos a cada meia dúzia de páginas.

A história se passa em dois cenários bem diferentes (mas nem tanto assim) dos Estados Unidos: no primeiro, temos um casal formado por uma jovem de 26 anos negra e um homem branco, que vivem na Califórnia, em 1976. No segundo, temos a mesma jovem, agora vivendo na violenta Maryland pré-Guerra Civil.

A diferença é que, apenas por sua cor de pele – de novo: apenas por sua cor de pele – ela já é automaticamente considerada inferior no segundo cenário, mesmo sendo muito mais culta que qualquer pessoa do século 19. É escrava ou, no mínimo, escrava liberta (mas, como não tem nenhum documento para comprovar sua liberdade, é só escrava mesmo).

Corre riscos. Pode ser morta a qualquer momento. Ou vendida.

E a Dana, protagonista desse relato,  trafega entre um mundo e outro à sua revelia, e sem saber como interromper estas jornadas. Ela só se esforça para sobreviver. E tentar entender aquele mundo que, de alguma forma, ajudou a forjar o seu próprio mundo – e até sua própria vida enquanto indivíduo.

O livro é uma ficção científica com traços de ficção histórica, ao retratar, com bastante riqueza de detalhes, a sociedade escravagista daquele tempo. Uma das frases mais fortes é esta: “Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitar a escravidão”. A maneira como ela chega a esta conclusão é muito impactante.

Quantos de nós – quantas de nós – se negras, numa Maryland do século 19, conseguiríamos nos desvencilhar da escravidão, mesmo com todo o conhecimento adquirido depois, mesmo com a superioridade intelectual de quem foi educado no século 20? A vara e a chibata não deixam. A lei da época não deixava. Tudo está contra Dana, assim como tudo estava contra seus parentes daquela época.

E, por parentes (significado da palavra “kindred”, que também pode ser interpretada como ANTEPASSADOS nesse caso), entende-se não apenas os parentes óbvios, da árvore genealógica de uma família, mas também os parentes de alma, de espírito, de história, como todos os afroamericanos descendentes de escravos. Que carregam, como Dana, cicatrizes que atravessam os séculos.

Octavia E. Butler poderia ter feito um romance similar, em que a personagem Diana, digamos, viaja de uma Belo Horizonte atual para uma Diamantina no auge da exploração de pedras preciosas, ainda no século 18. A forma como o abolicionismo se deu nos dois países é diferente e até a luta pelos direitos dos negros é muito distinta nos Estados Unidos e no Brasil, mas daria para se imprimir o mesmo choque de constatação nos leitores de que muita luta e muita dor existiram até que uma Dana – ou uma Diana – pudessem viver com liberdade.

(Ainda que nem sempre com liberdade econômica. Ainda que nem sempre livres de agressões policiais. Ainda que nem sempre livres dos crimes de racismo).

Enfim. As reflexões são por sua conta. O que garanto é uma leitura fácil, cheia de diálogos, daquelas em que a gente mergulha de um fôlego só, com personagens cheios de personalidade (como o ambíguo Rufus), e que, sim, vai te provocar muitos sentimentos conflitantes, muitos arrepios, muita taquicardia e aqueles olhos arregalados que já mencionei.

E você sairá da leitura, com sorte, percebendo que somos todos parentes – e que a história deveria ter sido outra.

 

Kindred – Laços de Sangue
Octavia E. Butler
Morro Branco, 2019
432 páginas
R$ 27,89

 

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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