Memórias do blog: porque já são muitas!

Já faz alguns dias que comecei a resgatar #memóriasdoblog, no Facebook e no Twitter, relembrando coisas que postei por aqui no mesmíssimo dia, anos antes. Afinal, o que não faltam são posts no arquivo do blog, que já somam mais de 2.200.

Por exemplo, no dia 11 de outubro, exatamente como hoje, mas há dois anos, eu compartilhava duas descobertas musicais que tinha feito no Recife. Há três anos, meu pai escrevia sobre Sérgio Andrade, que virava alvo da Lava Jato.

Há seis anos, eu trazia um dado estarrecedor que diz muito respeito à situação que vemos no Brasil de hoje: mais da metade de todos os ambientalistas mortos na última década em todo o planeta estavam no Brasil.

Há oito anos, meu pai escrevia sobre um episódio de Bom Despacho para falar, a partir dele, sobre os juízes corruptos (e impunes) que persistem no Brasil.

Como vocês podem ver, vale a pena fazer esta experiência de resgatar as memórias do blog, porque os anos passam, mas quase nada muda. Ou melhor: parece que estamos voltando no tempo.

Que o passado nos proteja do futuro!

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‘Reflexões sobre o nacional-socialismo’, em cinco (breves) tópicos

Texto escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da UFOP e colaborador frequente deste blog, sobre o livro ‘Reflexões sobre o nacional-socialismo’:

 

1. Quem são os autores?

São três autores: Arnold I. Davidson, americano, professor de filosofia, que faz uma introdução bastante útil aos textos; Emmanuel Levinas, francês de origem lituana, um dos principais filósofos do século XX, autor de “Totalidade e Infinito”; e Robert Musil, austríaco, um dos principais escritores do século XX, autor de “O homem sem qualidades”.

2. De que trata o livro?

O livro traz dois textos escritos durante os primeiros anos do período nazista, no início da década de 1930. Um ensaio de Levinas, intitulado “Algumas reflexões sobre a filosofia do hitlerismo”, de 1934. E um ensaio de Robert Musil, chamado “Ruminações de um lerdo”, de 1933. Ambos tentam compreender o nazismo como um todo simbólico e um conjunto de orientações para atitudes práticas – ou seja, como uma “cultura”, no sentido antropológico.

3. Por que vale a pena ler?

O livro vale a pena ler porque, em primeiro lugar, está firmemente enraizado na experiência dos autores, que escrevem no mesmo momento histórico em que o fenômeno nazista é produzido. Uma segunda razão para lê-lo é a elegância da escrita e a acuidade das percepções dos autores, registradas em trechos como “foi com olhos bem abertos que não vimos absolutamente nada” (Musil). Além disso, uma razão substantiva para fazer essa leitura é a de vir a ser provocado a pensar o que há de semelhante (e também de diferente) entre movimentos autoritários e antidemocráticos do passado e do presente.

4. Quais são as áreas de interesse relacionadas ao livro?

Este livro interessará bastante àqueles que têm curiosidade sobre o período do nazismo na Alemanha, bem como aos amantes da vertente ensaística e reflexiva da literatura moderna (com Musil) e os leitores de ética e filosofia da cultura (com Levinas). Assim, as áreas de interesse são basicamente: História, Literatura, Filosofia.

5. Qual é o nível de dificuldade da leitura?

O nível de dificuldade da leitura será (talvez, uma vez que não é possível traçar uma “média” abstrata dos leitores) intermediário entre o acadêmico e o de divulgação ampla, considerando a presença, aqui e ali, de termos de uso corrente na cultura alemã do início do século XX, cuja correspondência com o uso comum contemporâneo não é evidente – termos como “espírito”, por exemplo.

Reflexões Sobre o Nacional-Socialismo
Tradução:  Denise Bottmann, Priscila Catão e Flavio Quintale
Editora Âyiné
Ano de publicação: 2016
120 páginas
Preço: R$ 20,90

 

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‘A Favorita’: longe de ser meu favorito

Em cartaz nos cinemas: A FAVORITA (The Favourite)
Nota 7

Assisti ao filme “A Favorita” poucas horas depois de terminar de ver o belíssimo “Roma”. No filme que vi primeiro, e sobre o qual ainda vou escrever, temos fotografia em tons de cinza, muitos silêncios, muitas cenas estáticas, espaço de sobra para deixar as emoções fluírem. Já em “A Favorita”, temos excesso de tudo: cores, móveis, maquiagens, roupas. Todo aquele excesso exaustivo da monarquia inglesa, empoada e bolorenta, do início do século 18. Também há espaço para cenas estáticas, mas as emoções são duras. Ficamos com o rosto tenso durante as duas horas de filme, perplexos diante de tantas frivolidades e frugalidades que podem ter sido responsáveis por moldar a História naquele período. Há, sobretudo, um excesso de trilha sonora, uma trilha sonora incômoda, alta, irritante, às vezes repetitiva, como uma tecla de piano estragada.

Depois deste parágrafo, há quem possa pensar que detestei este filme, que concorre a 10 estatuetas do Oscar. Bom, ele está longe de ser meu favorito, e certamente não acho que mereça o prêmio de melhor filme, mas tem, sim, seus méritos. O mais interessante deles é mostrar como três mulheres – veja bem, mulheres – podem ter sido tão poderosas no ano de 1708. A rainha Ana, interpretada de forma impressionante por Olivia Colman, é retratada como uma mulher de temperamento explosivo, muito mimada e volúvel, mas também extremamente frágil e deprimida (inclusive pelo fato de ter perdido 17 bebês, que já nasciam mortos ou morriam pouco depois de nascer). A nobre Lady Sarah Churchill (parente do futuro premiê), que exercia influência sobre o governo e sobre as decisões da rainha. E Abigail Hill, que aparece para embolar a história.

Se a intenção era destacar a importância dessas mulheres, o filme consegue até com certo exagero, ao, por exemplo, ignorar completamente a figura do rei, que, segundo consta, ainda estava vivo quando Abigail apareceu, e cuja morte agravou a depressão da rainha Ana. Os outros homens, de resto, aparecem quase que como meros figurantes.

A gente sempre imagina as cortes daquela época cheias de intrigas, traições, mesquinharia etc (como, aliás, também acontece com as repúblicas). O filme retrata essa sordidez com requinte de detalhes, de forma até exaustiva. Talvez seu grande mérito seja despertar nossa curiosidade de querer saber mais sobre aquela época, sobre a rainha Ana, nem que seja lendo mais numa Wikipédia da vida.

Olivia Colman deu vida à rainha Ana e ficou até parecida fisicamente com ela.

“A Favorita” é o filme com mais indicações do ano (empatado com “Roma”), o que não quer dizer absolutamente nada. Em 2014, o filme “Trapaça” (ao qual também dei nota 7) liderava a lista, também com dez indicações – e não ganhou nada. Já em 2017, “Estrelas Além do Tempo” foi o segundo filme com mais indicações – oito! –, e também não levou nada. As três protagonistas de “A Favorita” (as outras são Emma Stone e Rachel Weisz) estão muito bem, mas acho que apenas Olivia Colman deve levar o prêmio de melhor atriz. O filme também deve emplacar com figurino e direção de arte. E acho que só. Quem viver, verá.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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As capas de jornal, as charges e o melhor discurso sobre a prisão de Lula

Hoje é um daqueles dias em que eu me vejo na obrigação de ver como estão as primeiras páginas dos jornais do Brasil. Porque é daqueles dias que entram para a História, que serão estudados futuramente pelo meu filho na escola. Lembram o que escrevi no dia 16 de fevereiro? Que estamos caminhando para a volta da ditadura militar no Brasil? Naquele post, contei 10 passos preocupantes. De lá pra cá, outros tantos ocorreram:

1- Marielle Franco foi executada no Rio da intervenção militar

2- Sua memória foi difamada por uma desembargadora e um deputado federal impunemente

3- Um general do Exército dá declarações absurdas (que até a “Folha” viu como perigosas) e não recebe qualquer punição pelo presidente da República

4- O STF decide contra um habeas corpus sem antes votar as ações diretas de inconstitucionalidade que dizem respeito diretamente ao mesmo assunto, e atropela a Constituição Federal – algo que até o Reinaldo Azevedo, que praticamente cunhou o termo “petralha”, admite que aconteceu

5- Um juiz de primeira instância, Sergio Moro, determina a prisão de um ex-presidente da República contrariando o acórdão da segunda instância que previa que a prisão só poderia ocorrer depois de esgotados todos os embargos naquela instância

Já estamos em plena ditadura, meus amigos. Porque o Estado Democrático de Direito foi ferido, a Constituição foi rasgada, e todos nós estamos sujeitos a ter nossa presunção de inocência substituída, arbitrariamente, por presunção de culpa. Ninguém está acima da lei, mas ninguém deveria estar abaixo dela também – como sabiamente disse um senador que voltarei a citar mais abaixo.

Ao ver as capas dos jornais de hoje, não me surpreendi: todas completamente acríticas, como era de se esperar de uma imprensa que tem contribuído com o golpe desde que ele se instalou no Brasil, em 2016. Aí estão algumas delas: Continuar lendo

Estamos caminhando para a volta da ditadura militar? 10 passos preocupantes

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#1 Primeiro, grupos conservadores da elite saíram às ruas batendo panelas e exigindo o fim de um governo de esquerda, (re)eleito por maioria de votos, acusado de corrupção.

#2 Depois, houve um impeachment baseado num motivo no mínimo frágil (alguém se lembra das pedaladas?), questionado por entidades internacionais de peso.

#3 Em seguida, um vice assumiu contestadamente o poder, promovendo várias medidas que representaram grande retrocesso para o país.

#4 Vários direitos dos trabalhadores, garantidos desde os tempos de Vargas, foram estraçalhados por esse grupo no poder.

#5 O país foi ficando cada vez mais polarizado, dando margem ao fortalecimento de figuras patéticas como Jair Bolsonaro, fã confesso do coronel Ustra, único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça até o momento.

#6 Foi ganhando força, também, discursos reacionários que pregam censura a expressões artísticas, que já se tornaram inclusive projetos de lei.

#7 Um ex-presidente foi julgado e condenado até em segunda instância em tempo recorde, com base em provas também frágeis e, de novo, contestadas por seu caráter político (que, muitas vezes, fez lembrar processo quase idêntico sofrido por JK nas mãos dos militares).

#8 Agora, um general do Exército é nomeado interventor de segurança no Estado do Rio de Janeiro, ganhando “poderes de governo“, nas palavras do ministro da Defesa, pelo menos até o dia 31 de dezembro de 2018. Por meio de um decreto já questionado por juristas, e também por políticos à esquerda e à direita.

#9 Esse general poderá tomar decisões apenas referentes à segurança pública, mas segurança pública pode significar muito mais que tanques andando pelas ruas do Rio: pode resvalar nas escolas e na saúde pública, como bem desenhou Renato Rovai.

#10 Pior: podemos nos preparar para, nos próximos meses, assistir a notícias incríveis mostrando como o Rio se tornou um Estado pacífico e maravilhoso depois da intervenção do Exército sob batuta de Temer. Isso deve ser tão martelado que, daqui a pouco, outros Estados que estiveram recentemente embebidos em violência urbana, como Espírito Santo e vários do Nordeste, poderão, quem sabe, ganhar uma ajudinha de um interventor do Exército. E, se essa moda pega, logo teremos um chefe do Exército em cada uma das 27 unidades da Federação.

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Teoria da conspiração? Neste momento, prefiro pensar que é uma pequena lição da História recente do Brasil. Mostrando que o que aconteceu na década de 60 e levou a uma ditadura militar de 21 anos poderá, sim, se repetir. Afinal a polarização do país, que existiu no governo de Jango, já se repetiu agora, a marcha da família já se repetiu também, a censura voltou a mostrar suas garrinhas, parte dos direitos trabalhistas foi cassada, agora até o Exército volta a receber um poder no Executivo que nunca tinha tido, desde 1988, quando o país ganhou sua Constituição democrática.

O que pode vir no futuro? Segundo nos lembra o passado, coisas como: restrição do direito de voto, fim dos partidos políticos, suspensão dos direitos políticos dos cidadãos, cassação de mandatos parlamentares, eleições indiretas para governadores, proibição das greves, ampliação da repressão policial-militar, exílios, prisões, torturas e desaparecimentos de cidadãos, restrições a todas as formas de manifestações artísticas e culturais etc.

Pode não acontecer nada disso também. Pode ser que a intervenção do Exército tenha sido só uma manobra do Temer para não passar vexame na votação da reforma da Previdência, como dizem alguns analistas com bola de cristal. Pode ser que o interventor consiga o milagre de acabar com a banda podre da polícia fluminense e de conter o organizadíssimo tráfico do Rio. Pode ser que as eleições deste ano transcorram sem turbulências que mereçam menção e os últimos dois anos de instabilidade política do Brasil fiquem para trás.

Mas está mais fácil — bem mais — ser pessimista do que otimista no Brasil de hoje.

Por isso, ponho minhas barbas de molho, ao som de Cazuza (eu vejo o futuro repetir o passado), e sigo no aguardo de dias melhores para todos…

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