- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
- Post atualizado em 21.3.2026
Veja trechos e observações sobre as obras “O Lugar”, “A Mulher”, “O Jovem”, “Paixão Simples”, “A Outra Filha”, “A Vergonha”, “O Acontecimento”, “Os Anos” e “Olhe as Luzes, Meu Amor”, da escritora francesa Annie Ernaux
Desde que Annie Ernaux, 84, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 2022, fiquei curiosa para conhecer sua obra. Além disso, duas grandes amigas, leitoras vorazes, já haviam me indicado essa escritora (obrigada, Carol e Marina). Mas foi só no apagar das luzes de 2023 que tive oportunidade de lê-la pela primeira vez.
A verdade é que os livros de Ernaux ficaram muito caros depois que ela foi laureada. Então, foi com alegria que descobri que havia muitos deles na biblioteca que frequento com meu filho. Estão sempre emprestados, mas, como são curtinhos, a rotatividade também é muito alta. Reservei três e eles logo foram liberados para empréstimo. Já os li, em poucos dias:
Paixão Simples
Não sei se “Paixão Simples” foi o melhor livro para conhecer Annie Ernaux. Pelo menos, não para mim. As obras da professora francesa são cheias de memórias, bem autobiográficas (ou “autossociobiográficas“, como dizem sobre ela, por costurar sua experiência pessoal ao quadro mais amplo, de toda a sociedade). E achei meio irritante/decepcionante que a personagem principal deste livro (ela própria) fosse tão obcecada e obsessiva por um homem.
Como bem definiu minha amiga Carol, este livro é “um relato de como pessoas apaixonadas são idiotas”.
Mas, ao longo da leitura, fui ampliando meu olhar, ao perceber que ela descreve a intensidade de um relacionamento, uma entrega de corpo e alma a outra pessoa, que poderia se aplicar a várias coisas da vida – e que tem aquele misto de loucura e de beleza, que a literatura nos fornece:
É estranho pensar que uma pessoa possa se envolver de forma tão intensa com outra que a faça ultrapassar os próprios limites, se sentir efetivamente mais conectada ao mundo – ainda que, em última instância, isso desperte julgamentos dos outros (a começar pelos leitores).
É por isso que ela diz, em dado momento, que “a chance de viver uma paixão” é um verdadeiro luxo. Algo a se pensar: quantos realmente vivem isso? Ou ainda: será que vale a pena?
Ao longo deste livro, Annie Ernaux também reflete sobre a própria escrita. Achei interessantíssimo ela dizer que a vergonha e o medo dos julgamentos devem impedir várias belas obras de serem publicadas:
Esse tipo de reflexão metalinguística, sobre o ato de escrever aquele livro (enquanto ela também corrige provas de alunos etc.), aparece também em outras obras.
Lido no fim de 2023.
“Paixão Simples”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
64 páginas
R$ 42 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
O Jovem
O segundo que li foi este “O Jovem“. Assim como o outro, é uma experiência de amor. Mas, se ali Annie parece completamente entregue a (e dependente de) um homem, neste ela se coloca como uma mulher experiente, disposta a iniciar um rapaz na vida amorosa. Desta vez, é ela que tem controle sobre o jovem, não o contrário.
Enquanto no outro livro (e foi o que me irritou), ela é uma mulher vulnerável e tola, neste ela é poderosa, corajosa, madura, audaciosa, à frente do seu tempo. Levanta simultaneamente as bandeiras do feminismo e contra o etarismo. Como neste trecho:
Logo mais, ela resume: “Os homens sempre souberam disso, eu não entendia por que eu seria proibida de fazer o mesmo“.
Livreto pequeno, de apenas 37 páginas, “O Jovem” se parece muito com uma crônica ou um conto, que se lê em uma sentada. Mas, apesar de tão curto, é neste livro recente de Annie, lançado em 2022, que ela rememora mais coisas, e reflete sobre a passagem do tempo em sua vida.
Reflete também sobre as convenções sociais, sobre o peso do julgamento da sociedade sobre as pessoas (tema que também tinha aparecido em “O Lugar”), especialmente aquelas que não se curvam aos limites do ordinário. Vejam este trecho, em que ela se compara a uma “infratora”:
Achei curioso que os livros dela conversem entre si. É como se ela estivesse sempre navegando entre as mesmas memórias mais marcantes, de sua juventude à atualidade. O aborto que é detalhado em “O Acontecimento”, por exemplo, é citado tanto em “Paixão Simples” quanto em “O Jovem”. A vergonha e esse peso dos julgamentos apareceram nos três livros – ainda que de formas diferentes.
Lido no fim de 2023.
“O Jovem”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
43 páginas
R$ 32,52 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
O Lugar
Por último, nesta minha primeira leva de empréstimos de livros de Annie Ernaux, fui ler o que se tornou meu favorito: “O Lugar“.
Mais tarde, descobri que este deve ser o primeiro livro de Annie Ernaux para se começar a conhecer sua obra, segundo ela própria.
Trata-se de um relato forte e emocionante, ainda que absurdamente sóbrio, sobre a relação que Annie tinha com seu pai.
Mas, sendo a “autossociobiografia” que é, “O Lugar” também trata de questões de trabalho e de classe social (que também apareceram em “O Jovem”, aliás), sobre o abismo que pode se abrir entre duas pessoas por causa da diferença de renda, de educação, de erudição, de linguagem, de hábitos e costumes, de cultura. De história de vida, enfim.
A pergunta que ela responde é pessoal, mas também pode ser abrangente, e encontrar ressonância nos leitores: por que uma filha e um pai (ou uma mãe) podem se ver tão distantes um do outro à medida que os anos passam? Não necessariamente é falta de afeto ou de respeito, mas outras questões podem atravessar no caminho de uma relação.
Ela faz essa reflexão num momento de luto, logo depois que seu pai morre. Mas, nem por isso, é lamuriosa ou piegas.
Assim como em “Paixão Simples”, Annie Ernaux também trata do ato de escrever neste livro, que foi um de seus primeiros, lançado em 1983. Ela diz que é “O Lugar” que determina sua forma de escrita. Nas páginas 14 e 15, ela explica o que chama de “escrita neutra”, que assume tanto nesta obra como nas demais:
Acho que é por isso que penso nesses livros de Annie Ernaux como crônicas: além de serem autobiográficas (como muitas crônicas são), e de serem curtinhos, perfeitos para páginas de jornais (o espaço das crônicas por natureza), eles têm também uma linguagem direta, simples, “neutra” – quase jornalística.
Sem tantos adjetivos floreados, sem frases longas. Pelo contrário: é tudo sisudo, objetivo, cirúrgico. E nem por isso menos descritivo, menos rico em gestos, gostos e fatos.
Não é preciso ser “cativante” ou “comovente” para nos tocar a fundo. Assim é Annie Ernaux.
Lido no fim de 2023.
“O Lugar”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
88 páginas
R$ 50,92 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
***
P.S. Caso eu venha a ler mais livros de Annie Ernaux (estou com vários reservados na biblioteca ainda), vou acrescentando minhas impressões neste mesmo post, combinado? 😉 Atualização: já coloquei mais aí embaixo!
Uma Mulher
Cinco anos depois de escrever “O Lugar”, reconstruindo sua relação com o pai, Annie Ernaux escreveu este “Uma Mulher”, entre abril de 1986 e fevereiro de 1987. Sua mãe tinha morrido duas semanas antes de ela iniciar o livro e ela resolveu viver o luto por meio da escrita.
Apesar de confessar ser uma “empreitada difícil”, ela diz que não é capaz de fazer outra coisa naquele momento:
“Vou continuar escrevendo sobre a minha mãe. Ela é a única mulher que realmente importou para mim e estava demente havia dois anos. Talvez eu devesse esperar que a doença e a morte dela se dissolvessem no percurso passado da minha vida, como os outros acontecimentos, a morte do meu pai e a minha separação, de modo que eu pudesse ganhar a distância que facilita a análise das lembranças. Mas nesse momento não sou capaz de fazer outra coisa.” (trecho da página 13).
Ou seja, ela até queria ter o mesmo distanciamento neutro e sóbrio de outros livros, mas a verdade é que, diferentemente de outras obras que li de Annie Ernaux, seus sentimentos transbordam nestas páginas de “Uma Mulher”, ainda que de forma sutil.
A figura do pai quase não aparece neste livro, até porque ele já tinha sido o protagonista em “O Lugar”. Mas às vezes ele aparece, para ajudar a compor o retrato da mãe. Como quando ela fala que a mãe sofreu ao ficar viúva, mas teve que tocar o barco, porque não tinha como se dar o luxo de fazer diferente. Um luxo que ela própria estava se dando, ao ficar órfã, como diz na página 43:
“Depois do enterro, ela ficou cansada e triste, me confessando: “é duro demais perder seu companheiro”. Ela manteve a loja como antes. (Acabo de ler num jornal, “o desespero é um luxo”. Esse livro que eu tenho tempo e meios para escrever desde que perdi minha mãe também é, sem dúvida, um luxo.)
Esse exercício de memória que ela faz, essa vivência da vida de sua mãe, para prolongar ao máximo o convívio com ela, nos permite conhecer melhor aquela mulher intensa, brava, cheia de personalidade, que cavou uma estrada para que a filha pudesse ter uma vida melhor que ela – mas se ressentiu do distanciamento que a diferença de classe social consolidou.
O livro começa com a morte dessa mulher, cercada de toda a burocracia fria que temos que viver quando precisamos enterrar um ente, passa por sua infância, sua juventude, pela relação entre as duas, seu envelhecimento, seu adoecimento com demência (numa descrição muito precisa e dolorosa de como o Alzheimer corrói a humanidade das pessoas), e termina, de novo, com sua morte.
É um ciclo completo, uma vida inteira, construído com tijolos de muita ternura e sinceridade, que deixaram claro que a relação entre mãe e filha não era perfeita, mas nem por isso menos cheia de amor. Afinal, existe essa relação perfeita?
Lido em junho de 2025.
“Uma Mulher”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
61 páginas
R$ 50,90 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
A Outra Filha
“A Outra Filha” tem o formato de uma carta, que Annie escreve para sua irmã – morta aos 6 anos, antes de ela nascer.
“A Outra Filha”Annie Ernaux
ed. Fósforo
61 páginas
R$ 48 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
A Vergonha
Neste livro de 1997, Annie já começa, de cara, relembrando um episódio traumático de sua passagem da infância para a adolescência, aos 12 anos:
“Meu pai tentou matar minha mãe num domingo de junho, no começo da tarde.”
Passada essa introdução, ela se debruça sobre aquele ano de 1952, e qual era o contexto em que sua família estava inserida: como era a cidade, o noticiário da época, a escola.
Ao fazer isso, ela tenta entender por que seu pai agiu dessa forma destoante da rotina da casa e como esse episódio pode estar entrelaçado à vergonha que ela passou a sentir a partir daquele momento.
Uma vergonha difusa, que se tornou “um modo de vida” para ela, que estava em seu “próprio corpo”. “Era impossível escapar da vergonha”, escreveu.
Como em outros livros, este vai abordar em vários momentos a questão das diferenças de classe. E não, não há uma explicação concreta para o episódio de violência doméstica – se é que isso algum dia pode ser justificado.
Lido em janeiro de 2024.
“A Vergonha”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
81 páginas
R$ 45,85 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
O Acontecimento
Este foi o sexto livro de Annie Ernaux que li e acho que, ao lado de “O Lugar”, foi meu favorito.
Temos aqui um acontecimento concreto na vida da então jovem de 23 anos: ela engravida e procura, desesperadamente, uma forma de fazer um aborto.
Na França, o aborto foi legalizado em 1975. Ou seja, doze anos depois de quando Annie viveu seu acontecimento.
Portanto, ela teve que passar pelo que as jovens brasileiras passam até hoje, por exemplo: buscar uma ajuda clandestina, ilegal, que oferecia riscos para ela e para o profissional que a ajudasse.
Tudo é contado de forma nua e crua, como em todas as obras de Annie. Ela não esconde nenhum detalhe, e é bastante objetiva em suas memórias. Para isso, recorre muitas vezes aos diários que mantinha na época.
Eis a justificativa que ela dá, em determinado momento:

Quantas realidades de mulheres já foram obscurecidas ao longo dos últimos séculos? Não neste livro!
Lido em fevereiro de 2024.
“O Acontecimento”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
74 páginas
R$ 48,82 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
Olhe as luzes, meu amor
Neste livro “Olhe as luzes, meu amor” Annie Ernaux é, pura e simplesmente, uma cronista. Chega a se definir como repórter em dado momento (página 40) – até porque as crônicas são parte de um gênero literário bem próprio dos jornais. A diferença é que as crônicas costumam ser curtas, e este livro tem 71 páginas totalmente dedicadas ao dia a dia dentro de um supermercado da França, o Auchan.
Seria monótono não fossem as observações típicas de Ernaux, em tom quase de relatório, absolutamente detalhistas, mas também, ao mesmo tempo, objetivas e permeadas de algumas reflexões. Ou, o que é mais comum, de espaços para que nós, os leitores, façamos essas reflexões.
Que podem ser sobre o consumismo (a mais comum), a precarização do trabalho, a discriminação em suas várias formas, a escravização, as diferenças de gênero, o mercado como extensão do ambiente doméstico, a solidão e a socialização, a tecnologia e a alienação tecnológica, e até mesmo sobre o fim dos espaços de leitura e de vendas de jornais e revistas (isso lá em 2016).
É curioso como tudo o que ela descreve em um supermercado da França de mais de dez anos atrás é extremamente parecido com o que vivemos em nossos supermercados brasileiros de 2025 (talvez com a diferença de que os caixas de autoatendimento só estejam chegando aqui agora, e lá já eram populares). Talvez ela tenha conseguido a proeza de escrever um livro-síntese do século 21 no mundo ocidental.
“Olhe as luzes, meu amor” é um livreto muito interessante, um dos melhores que li de Annie Ernaux, e muito diferente dos outros que já tinha lido dela, mais focados em sua história íntima e familiar. Vale a pena conhecer. Leia a resenha completa do livro, com trechos da obra.
Lido em maio de 2025.
“Olhe as luzes, meu amor”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
71 páginas
R$ 53 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
Os anos
Embora não tenha sido meu livro favorito de Annie Ernaux (mesmo sendo o mais famoso dela, inclusive incluído na lista dos melhores livros do século 21), gostei de muitos pontos de “Os Anos”.
A começar pelo começo. E quando digo começo, me refiro ao começo mesmo, antes do começo, ou seja à epígrafe escolhida pela autora. Esta citação de Tchékhov:
“Sim. Seremos esquecidos. É a vida, nada podemos fazer. Aquilo que hoje parece importante, grave, cheio de consequências, um dia será esquecido, deixará de ter relevância. E o curioso é que não podemos saber hoje o que será um dia considerado grande e importante ou medíocre e ridículo. (…) Pode ser também que esta vida de hoje à qual nos agarramos seja um dia considerada estranha, desconfortável, desprovida de inteligência, insuficientemente pura e, quem sabe até, passível de culpa.”
Depois, já quando é a voz de Annie Ernaux que se inicia, a obra dela começa de cara com esta paulada:
“Todas as imagens vão desaparecer.”
E aí ela desfia uma porção de cenas, imagens e memórias, e conclui, quatro páginas depois:

No capítulo seguinte, não numerado, outra paulada:
“Milhares de palavras vão sumir de repente, palavras que serviram para nomear coisas, rostos de pessoas, ações e sentimentos. Palavras que serviram para organizar o mundo, disparar o coração e umedecer o sexo.”
E segue listando várias dessas frases, palavras, ideais, reflexões que também vão ser esquecidas. Concluindo, pouco depois:
“Tudo vai se apagar em um segundo. O vocabulário acumulado, do berço ao leito final, será eliminado. Restará somente o silêncio, sem palavra alguma para nomeá-lo. Da boca aberta não vai sair mais nada. Nem eu, nem meu. A língua continuará inventando o mundo com palavras. Nas conversas ao redor de uma mesa em dias de festa, nós seremos apenas um nome, cujo rosto vai se desvanecer até desaparecer na massa anônima de uma geração distante.”
Bom, se começamos de cara com estas certezas, de que tanto as imagens das memórias quanto as palavras que as descrevem vão em breve desaparecer, o que vemos, nas mais de 200 páginas seguintes, é o esforço da escritora para preservá-las, guardá-las para a posteridade, documentá-las enquanto continuavam vivas dentro de si.
E é assim que se passa “Os Anos”, com a documentação e registro detalhado de tudo o que Annie viveu e de que se lembra, desde sua infância (ela nasceu em 1940), até os dias atuais (o livro foi publicado em 2008).
Desta vez, contendo muito menos “autobiografia” do que “sociologia”. Ela usa, sim, sua experiência íntima e individual para contar sobre todos aqueles anos do conturbado século 20, inclusive com muitas descrições de fotografias em que ela aparece, desde bebê até idosa, e de almoços em família, com os assuntos que eram tratados ali.
Mas o foco do livro não é ela, nem sua família. É o coletivo, é a sociedade francesa, quiçá mundial. Tanto que ela nunca usa o pronome “eu”. É sempre “ela” (marcando o distanciamento proposital da sua pessoa) ou, no máximo, “nós” (reforçando a ideia de que estava querendo retratar a coletividade).
Ao tratar dos almoços, por exemplo, ela não descreve quem diz o quê, mas o que era discutido naquela época, entre aquela geração. Como era o relacionamento entre pais e filhos. Como os jovens tratavam os mais velhos. Qual guerra era o tema do momento etc.
Tanto os almoços quanto as fotos servem de respiros para abordagens mais detalhadas sobre o que se passava naqueles anos. Ou como costuras entre um período e outro.
E, assim, ela relembra a Segunda Guerra Mundial, e depois tantas outras: na Argélia, no Vietnã, no Afeganistão, no Irã, nas Malvinas, no Líbano, na Iugoslávia, no Kosovo, no Iraque.
Relembra também outros tantos momentos marcantes da história, como maio de 68, a queda do Muro de Berlim e o 11 de Setembro.
A luta pelo divórcio, a luta pelo direito ao aborto, a luta pela liberdade das mulheres, o declínio das religiões, a xenofobia, a islamofobia, as várias passeatas e greves, o surto de Aids, os atentados terroristas, as chegadas de novas tecnologias, como a TV, o fax, o computador, o celular. (Ela descreve o espanto que sentiam todos quando surgiu o celular, e a vergonha que era quando o telefone tocava no meio da rua.)
Muito politizada, ela relembra várias eleições na França, em detalhes. O medo quando a extrema-direita começou a se fortalecer de novo, com o discurso de Le Pen (não a Marine, que assombra os franceses hoje, mas seu pai, Jean-Marie Le Pen). Deixa claro, nesta breve história de 1940 a 2008, o quanto o mundo é cíclico, dá voltas, o quanto os fatos e discursos se repetem, as modas e ideologias vão e voltam, os conflitos geracionais, no fundo, se parecem.
Só uma coisa parece irrefreável: o consumo. Não só irrefreável, mas crescente mesmo, tendendo ao infinito.
Ela descreve, extraordinariamente, como a sociedade do consumo surgiu no pós-guerra, com a invenção de bens que ninguém tinha, que eram totalmente prescindíveis na vida das pessoas, e subitamente passaram a ser vistos como inestimáveis. Desde a TV, lá atrás, até os hipermercados modernos, abarrotados de quinquilharias pensadas para atender a milhões de “necessidades” desnecessárias:
“Tudo o que existe, o ar, quente e frio, a grama e as formigas, o suor e o ronco noturno, poderia infinitamente gerar mercadorias e produtos em uma subdivisão contínua da realidade e em um desdobramento dos objetos. A imaginação comercial não tinha limites.” (página 198)
E esse consumismo desenfreado, essa comercialização de tudo, também está intimamente ligado ao surgimento contínuo de novas tecnologias: “Não acompanhar os novos produtos significava aceitar o envelhecimento”. (Paralelamente a essa profusão crescente de produtos para serem consumidos, até como se fosse “um preço a se pagar”, o aumento dos pobres, dos moradores de rua e da mendicância.)
Acho que isso foi o que mais me pegou neste livro. Ver como o tédio e a paradeza da infância dos anos 40 foram dando lugar a uma sociedade irrequieta, do ultraconsumo e da ultravelocidade. E olha que muito mais já aconteceu, numa velocidade ainda mais irrefreável, entre 2008, quando o livro saiu, e este 2026.
Achei bem diferente de outros livros dela, que eram mais focados na sua história pessoal. Por outro lado, embora este tenha a pretensão de capturar todo um tempo, achei que muitos trechos acabaram ficando regionalizados demais, com personagens que só dizem respeito à França e aos franceses, desconhecidos do resto do mundo. Com uma pequena edição, poderia ter ficado mais universal, mais palatável para uma brasileira nascida nos anos 80, por exemplo.
Mas, no capítulo final, deu pra ver que ela queria mesmo era salvar essa memória afetiva que dizia respeito ao seu povo, mais do que a um tempo universal. E, por mais difícil que tenha sido essa missão que ela perseguiu por anos, acho que ela conseguiu a proeza que mais queria, diante do inevitável apagar de memórias, imagens e palavras sobre o qual já falamos:
“Salvar alguma coisa deste tempo no qual nós nunca mais estaremos.”
(Lembrando que o “nós”, neste livro, é ela própria – e sua geração.)
Pronto, Annie, você conseguiu. Suas memórias não vão mais ser esquecidas. Você tampouco. Estão salvas, e assim ficarão por muitos anos ainda, até muito depois que você se for.
Lido em março de 2026.
“Os anos”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
219 páginas
R$ 70,48 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
Mais autores que ganharam o Prêmio Nobel de Literatura:
- Olga Tokarczuk, polonesa – Nobel de 2018
- Kazuo Ishiguro, japonês – Nobel de 2017
- Bob Dylan, norte-americano – Nobel de 2016
- Alice Munro, canadense – Nobel de 2013
- Mario Vargas Llosa, peruano – Nobel de 2010
- José Saramago, português – Nobel de 1998
- Wisława Szymborska, polonesa – Nobel de 1996
- Toni Morrison, norte-americana – Nobel de 1993
- Gabriel García Márquez, colombiano – Nobel de 1982
- John Steinbeck, norte-americano – Nobel de 1962
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