‘Amiga de Juventude’, de Alice Munro: reencontros com o passado

Foto: Laura Louise Grimsley / Unsplash

“Enquanto bebem vodca com suco de laranja no parque dos trailers, nos penhascos sobre o lago Huron, Neil Bauer conta uma história a Brenda.”

“– Eu contratei uma menina vistosa de Shawtown – disse o pai de Murray.”

“Três semanas antes de morrer – afogado em um acidente de barco em um lago cujo nome ninguém o ouvira mencionar – Austin Cobbett se via refletido bem no fundo de três espelhos na Crawford Roupas Masculinas (…).”

“Bugs disse adeus à terra que desaparecia, um trecho azul-escuro de Labrador.”

“Uma vez Georgia teve aulas de escrita criativa e seu instrutor lhe disse: ‘Coisas demais’.”

“Quando a mãe de Anita estava morrendo no Hospital de Walley, ela voltou para sua cidade natal para tomar conta dela – embora já não fosse enfermeira”.

As frases acima abrem alguns dos contos deste livro da canadense Alice Munro. O que todas elas têm em comum, além de serem inícios de histórias? Todas introduzem os personagens principais, sempre de forma casual, citando seus nomes, como se já os conhecêssemos antes.

Neil e Brenda, Murray, Austin, Bugs, Georgia, Anita. São todos nomes que – mesmo depois que terminamos de ler os dez contos deste livro, com histórias bem diferentes umas das outras – ainda nos marcam com suas peculiaridades.

Foto: Anita Jankovic / Unsplash

Eles têm mais coisas em comum em suas histórias – não são tão diferentes assim umas das outras, no fim das contas. São quase sempre histórias de pessoas que já viveram um bocado, chegaram a uma idade madura, e se voltaram, de alguma forma, para o passado. Neil, por exemplo, revive a história de Maria, que conheceu na infância. Georgia se encontra com o viúvo de Maya, que já foi sua melhor amiga antes de ela romper em definitivo a relação. Anita reencontra com Margot e relembra a época em que as duas tinham 14 anos e eram pobres e pegavam o mesmo ônibus da escola pra casa.

Apenas o primeiro conto, o que efetivamente se chama “Amiga de Juventude”, é narrado em primeira pessoa. E todos carregam em si a nostalgia da juventude, dos relacionamentos de muitos anos antes, do amor e ódio que cerca as vidas daquelas mulheres.

As personagens principais são mulheres mesmo, vale dizer. Até mesmo na história do pastor Austin, é Karin quem acaba virando a protagonista. E elas têm mais em comum: um certo cinismo ao tratar do passado, um dar de ombros, uma amargura. Nenhuma das personagens parece minimamente feliz, no máximo conformadas. O amor também é de ocasião, sempre. A gente termina as histórias muitas vezes sem viver nenhuma empatia por suas personagens, e às vezes tentando entender a intenção de Alice Munro ao revelar aquelas vidas tão prosaicas. Mas nunca saberemos: os contos sempre acabam de um jeito aberto, e a gente que se vire pra pensar no que aprendemos com aquelas pessoas.

Foto: Josh Hild / Unsplash

E talvez a graça seja esta. Talvez tenha sido isso o que rendeu o Prêmio Nobel a Munro, há alguns anos. Ela não promete ensinar nada. Ela narra, sempre daquele jeito casual, vidas que podem ser as nossas, as das nossas mães, das nossas vizinhas. Das nossas amigas de juventude. E um dia, quando nós estivermos maduras o suficiente, seremos nós a entender que a vida é isso aí mesmo, não precisou de nada de muito extraordinário para preencher 20 e poucas páginas (ou anos) de sentimentos (nem tão sentimentais assim).

Munro hoje tem 91 anos, segue viva. Quando lançou este livro, tinha 59. Eu tenho 37, e já me vejo capaz dos mesmos reencontros e recordações do passado, nem tão distante assim. Já coleciono algumas “amigas de juventude”. Recentemente, reencontrei uma delas, que não via desde os tempos do colégio. Me entristeci ao saber que ela já se aposentou, com um problema grave de saúde. Ela me viu e disse, como se fôssemos duas velhinhas: “Você ainda tem o mesmo sorriso!”

Este livro é sobre isso, sobre os anos que passam e as histórias que permanecem – dentro das pessoas.

Amiga de Juventude
Alice Munro
Ed. Globo
303 págs.
R$ 31,48

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Por Cristina Moreno de Castro (@kikacastro)

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Redes sociais: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro e www.instagram.com/arvoresdascidades.

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