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‘O Encontro Marcado’ e o sentido da vida em suas estradas tortuosas

Uma dessas estradas da vida, em foto minha, de 31 de dezembro de 2020.

Li “O Encontro Marcado”, pela primeira vez, aos 21 anos. Na época, eu tinha passado bem por todo o colégio, estava ainda na faculdade, e sentia que tinha a vida inteira pela frente.

Reli agora, exatos 15 anos depois da primeira vez. E vejam só: no livro, Eduardo Marciano, o protagonista, na despedida do colégio, combina um encontro com outros dois amigos, naquele mesmo lugar, exatamente 15 anos depois.

É como se tivesse marcado comigo, porque vim aqui comparecer na data certa, coincidentemente, com meus 36 anos de idade, só pouco mais do que teria o personagem ao fim do livro, pela lógica, embora ele aparente muito mais.

Que seria deles? Não sabiam, e não se incomodavam“, diz a passagem do livro no momento em que os três amigos se despedem da escola e vão seguir com suas vidas.

Apesar de ter este nome, “O Encontro Marcado”, o livro não gira em torno desse encontro. Na verdade, ele é citado de forma ligeira, como se tivesse pouca importância.

Mas traz algumas reflexõezinhas pra gente. Ou dá pra “puxar uma angústia”, como diz o protagonista e seus primeiros melhores amigos, Hugo e Mauro.

Vamos lá. Pensa em quando seus colegas de turma resolvem fazer uma festa de 10 anos de formados. Você vai, mais pela curiosidade. Aquele cara que era o mais desligado dos estudos, o mais farrista e que levava tudo na piada, de repente virou o mais sério e que trabalha mais. CEO de uma grande empresa, coisa e tal. A outra que sempre trabalhou desde cedo está desempregada há mais de um ano, em busca de oportunidades. Uma outra teve filho bem jovem, já casou, já separou. Aqueles rostos que, anos antes, pareciam tanto com você, todos vivendo a mesma fase da vida e o mesmo mundinho, de repente seguem estradas tortuosas e são reencontrados completamente desfigurados. São outras pessoas, totalmente diferentes, até com outras personalidades e temperamentos.

Isso inclui até mesmo nossos ditos melhores amigos. Quem eram eles no fim da infância? Quem se tornaram, anos depois? Muitos viraram completos desconhecidos.

E a gente? Quando você se formou na faculdade, foi uma das primeiras a entrar no mercado de trabalho, foi pra São Paulo, trabalhar num grande jornal, que era seu sonho. Anos depois, saiu de lá, desiludida com a profissão e determinada a nunca mais acreditar nas empresas nas quais trabalhasse. Na festa de 10 anos de formada, estava desempregada pela primeira vez na vida, porque a revista em que tinha ido parar de repente faliu, mas te recontratou duas semanas depois, só pra falir de novo meses adiante. E hoje você está de novo noutra empresa grande, em cargo de chefia…

Mas a vida não parece resolvida, não parece nunca satisfatória, já repararam? Ou para alguns deve parecer. E não estou nem falando de pandemia, que bota tudo pra fora da curva numa tacada só. Estou falando de você estar com casa, marido, filho, emprego, tudo o que a sociedade espera de você e, mesmo assim, não parecer completa.

Outro dia eu estava lendo um texto no “El País” que fala que, chega num ponto da vida, todo mundo começa a buscar sua missão, seu propósito de vida, o “ikigai”. Um trecho:

“Para a geração dos millennials, um salário não basta mais para se manter num emprego. Precisam se realizar do ponto de vista humano e criativo e enxergar os benefícios na sociedade. Esta visão se espalhou a outras gerações. Os japoneses têm uma palavra muito adequada para esta necessidade de sentido, a qual se potencializou com a pandemia: ikigai. Costuma ser traduzida como propósito vitalrazão de ser ou, mais livremente, como o motivo pelo qual nos levantamos da cama. Algumas pessoas têm clareza sobre seu ikigai, e outras ainda o estão procurando.”

Eduardo Marciano, o protagonista de “O Encontro Marcado”, pode parecer um “torturado”, um perdido e até mesmo um louco, em algumas passagens. Acusam-no de ter pressa de viver, de querer colher o fruto verde do pé para vê-lo apodrecer em suas mãos. Ele é extremamente inteligente e extremamente talentoso, mas não parece conseguir fazer muito a partir dessas duas virtudes. Está lá, o tempo todo, vazio de si e na procura desesperada de seu “ikigai”.

Assim como muitos de nós, em vários momentos.

Tem gente como ele que bota toda a vida a perder, tem gente que enlouquece, tem outros que se redescobrem tardiamente. Por exemplo, li naquele “Nós, Mulheres“, de que já falei aqui no blog, que Ynes Mexia só começou sua carreira como botânica aos 55 anos, 12 antes de morrer. Nesse período, ela coletou mais de 150 mil espécimes de plantas, centenas deles novos. O que devia ser a vida dela até os 54 anos? (Talvez instigante também.)

Eduardo Marciano chega à “meia-idade” daquela época, nos anos 50, depois de viver um monte das aventuras que compõem o que chamamos de “vida”. Nada muito excepcional, se querem saber. Mas é o que foi forjando sua experiência no mundo. Na primeira parte do livro, nos pegamos pensando: como ele há de estar 15 anos depois que saiu daquele colégio? Como estarão seus amigos? A vida vai mudando as pessoas, irremediavelmente…

Quem fala deste livro invariavelmente destaca as seguintes frases, que marcaram a literatura brasileira: “Ele faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro“. Mas, para mim, este parágrafo é o mais importante:

“De maneira que todos se arranjavam, se acomodavam às exigências da vida, abriam com o corpo sua passagem, iam vivendo. O tempo já não tinha importância: não se contava senão em anos, para que se pudesse ver a curva dos dias com mais perspectiva, já convertidos em experiência…”

Assim, de uma maneira totalmente diferente, com uma linguagem muito mais filosófica e numa narrativa densa, amontoada, cheia de citações literárias, de diálogos e de pensamentos, Fernando Sabino acaba chegando a uma conclusão parecida com a do filme de animação “Soul“, que concorre ao Oscar neste ano, décadas depois da publicação deste livro: a verdade é que a vida não precisa de um “ikigai”.

(E, afinal, ainda tenho a vida inteira pela frente…)

 

O Encontro Marcado
Fernando Sabino
Ed. Record
365 págs.
R$ 37,79

 

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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