Reflexões sobre aptidão, trabalho e o aprendizado além da escola

Foto: CMC

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A vida inteira, desde criança, eu sempre quis ser jornalista. “Jornalista ou escritora”, eu dizia. Aos seis anos de idade, eu criava meus livrinhos, que ilustrava e grampeava. E escrevia no expediente, como eu via nos livros de verdade: “Autora: Cristina Castro. Editora: Cristina Castro. Diagramadora (aprendi esse palavrão bem cedo!): Cristina Castro. Ilustrações: Cristina Castro.” E assim por diante.

Mais tarde, já na escola, passei a criar jornais de duas a seis páginas, com entrevistas com os colegas de sala. Eu mesma diagramava no PageMaker, entrevistava, transcrevia a fita, editava. Inventava enquetes, pesquisas de opinião, materinhas… Isso tudo na era pré-blog, pré-Facebook, quando a impressora colorida ainda era um luxo em casa.

Depois, aos 19, fui trabalhar no Banco do Brasil. E tirava as horas de folga, fora do expediente, para fazer um jornal mural, que eu trocava semanalmente da parede da cantina. Os colegas gostavam, eu adorava fazer!

O jornalismo sempre esteve em mim, mesmo que amadoramente. (Profissionalmente já está há nove anos, quando comecei na Rádio UFMG Educativa e no jornal de bairro “O Carrilhão”, depois passando pela “Folha de S.Paulo”, G1, UOL e “O Tempo”). Por isso, nunca me ocorreu fazer qualquer outra coisa da vida.

Mas, nesses tempos de crise na indústria do jornalismo, de passaralhos e outras aberrações, às vezes me pego pensando: será que não sirvo pra mais nada?

Passei tanto tempo debruçada sobre o jornalismo, que nunca prestei realmente atenção nas outras profissões. Mas fico pensando como deve ser interessante estudar os pássaros, por exemplo. Que estresse pode haver na vida de um ornitólogo? Ele trabalha em campo, observa, fotografa e documenta espécies incríveis e maravilhosas de aves. Não é demais?

Ou um entomólogo. Como deve ser legal e fascinante o trabalho de um Ângelo Machado, com suas descobertas fascinantes sobre as libélulas, borboletas, besouros e aranhas! Depois, ele passou todo aquele conhecimento complexo para a literatura infantil, traduziu tudo de um jeito que até as crianças pudessem entender e se admirar. Criou pequenos cientistas.

A vida inteira eu fui doida com a natureza. Sempre gostei de observá-la, principalmente esses pequenos bichinhos. Quando eu tinha 4 ou 5 anos, meu passatempo favorito era coletar formigas “para domesticar”. Eu e minha melhor amiga — a Laura — catávamos formigas com nossos dedinhos ávidos e as colocávamos em sacolas plásticas (com furinhos, para respirarem), cheias de terra, folhas e até grãos de açúcar. Depois iam parar na lata de lixo de casa…

Quando a família ia para o sítio, sempre me levavam para um “passeio ecológico”, quando coletávamos pinhos, flores exóticas, pedrinhas coloridas e outras maravilhas perdidas nas ruas de terra. Na praia, eu colecionava conchinhas, que depois catalogava por tipo e cor. Eu era uma naturalista e nem sabia. Adorava folhear o livro “O Naturalista Amador“, que meu pai tem em casa, e ver as diferenças da natureza encontrada em tundras, prados, silvados, florestas, desertos, grasslands e cercas-vivas. Aprendi o que é uma “tundra”, que nem existe no Brasil, quando ainda era bem nova.

No entanto, na escola, a disciplina de que eu menos gostava era justamente a Biologia. Era nela que tirava as piores notas. O estudo de tecidos, de protozoários, de doenças sexuais, de moléculas. Aquela mistureba de assuntos, da microbiologia ao cosmos, ensinada por professores que foram tão pouco marcantes que nem consigo lembrar de seus rostos e nomes.

Penso agora: a culpa é das escolas! Não conseguimos descobrir nossa verdadeira vocação ou aptidão com esses livros didáticos insossos e professores burocráticos. Não há uma disciplina que nos estimule a amar e observar a natureza — isso é metido entre dois capítulos em meio a aulas chatas de biologia molecular. Por outro lado, a melhor professora da minha vida foi de português, e ela me estimulava a ler, escrever, divulgar meus textos, fazer peças de teatro e até jornaizinhos para serem mimeografados e distribuídos por toda a escola. Sem dúvida, acalentou meu sonho de ser “jornalista e escritora”, assim como o convívio com meu pai-herói.

Mas será que eu também não daria uma boa bióloga? Ou uma matemática? Eu sempre amei matemática, adorava queimar neurônios tentando resolver desafios impossíveis (coincidentemente, também fiz muito isso ao lado da amiga Laura, mas muitos anos mais tarde). Nunca fui genial em matemática, mas tinha boas notas e adorava ver a simplicidade de um problema resolvido!

Aos 17 anos, verdes de tudo na vida, somos obrigados a escolher uma profissão, prestar vestibular e seguir em frente naquela escolha. Aos 30, já com uma bagagem boa, quando deveríamos estar começando o auge daquela profissão que requer tanta energia, é meio frustrante perceber que poucas empresas valorizam o profissional que é ao mesmo tempo dedicado, criativo e entusiasmado. Não são as características que mais encantam os patrões, sabe-se lá por quê. E será tarde para tentar um segundo caminho? Ir estudar os passarinhos ou fazer curso de detetive?

Sigo pensando: em algum lugar do mundo, hão de querer minha paixão, que já me rendeu até o apelido de “bomba atômica”. Se não for no jornalismo, que seja em outra área do conhecimento. É uma pena que a escola não tenha me mostrado que eu sou capaz de seguir por dezenas de rumos, e não só por um. Que não preciso pôr uma viseira: posso me aventurar, explorar, dividir. Teria facilitado as coisas. Mas a escola da vida está me ensinando isso agora, e acho que nunca é tarde para mudar.

Veremos por onde andarei aos 40. Espero ainda ter o blog para compartilhar as aventuras de então 😉

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8 comentários sobre “Reflexões sobre aptidão, trabalho e o aprendizado além da escola

  1. Cris, há anos venho tentando deixar de ser esse professor burocrático e seguidor de conteúdos com a finalidade de “preparar alunos para o vestibular” ( e agora o ENEM, embora a proposta original desta avaliação seja louvável). Não é tão fácil devido à estrutura e organização curricular e da própria escola que ainda continua estagnada lá no início do século XX sob muitos aspectos, mas tenho conseguido realizar algumas coisas bacanas quanto ao lúdico-criativo em sala de aula.

    A escolarização costuma ser cruel com alunos mais curiosos e criativos. Vejo muitos de meus alunos com 16, 17 anos desesperados com o ENEM… e alguns deles com potencial criativo muito grande para música,desenho, dança. Como eles podem explorar seus talentos, suas preferências, desenvolver a criatividade e a autonomia? É isso que a escola deveria motivar, orientar… tudo bem estudar sobre os aspectos hidrográficos da Ásia, mas que tal estudar também sobre o rio que passa perto da escola e hoje está poluído?

    Mas tenho visto muitas pessoas seguindo por caminhos diferentes à escolarização e resistindo ao padrão de “você-precisa-escolher-sua-profissão-agora-aos-18-anos” e até mesmo graduados que estão mudando suas vocações e pessoas que estão experimentando, criando e caminhando sem necessariamente se atrelar a uma faculdade pelo menos momentaneamente.

    Espero que aos 40 você continue compartilhando suas experiências e pontos de vista cá no blog. 🙂

    Deixo, apenas como sugestão, dois vídeos: um é sobre a escolarização – “escolarizando o mundo” e o TED com Ken Robinson “Como as escolas matam a criatividade”. É só buscar tais títulos no youtube.

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    • “tudo bem estudar sobre os aspectos hidrográficos da Ásia, mas que tal estudar também sobre o rio que passa perto da escola e hoje está poluído?” — Você disse o que eu queria dizer, Groo! E o que disse em seguida também: acho que a criatividade, as experiências didáticas mais bacanas, acabam tendo que depender sempre de um professor inteligente e bem-intencionado, como você, e como aquela minha professora de Português. Ela também explorava os talentos das pessoas, inventava formas incríveis de ensinar, e despertou/reforçou em mim o gosto por escrever. O mesmo não aconteceu, pra ficar num exemplo, com os professores de Ciências e de Biologia. Bom seria se toda a escola, a grade curricular etc fossem pensados para apoiar todos os professores nesse processo criativo. Mas imagino que esta seja uma demanda antiga entre os pedagogos, né? Vou buscar os vídeos que você recomenda! bjos

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  2. Oi Kika 🙂

    Na época do vestibular, prestei para Psicologia, pois adorava ouvir as pessoas, Jornalismo, para viajar pelo mundo fazendo reportagens como a Glória Maria, e Pedagogia por gostar de crianças… mas fiquei com Administração, adoro o que faço, converso o dia inteiro, recebo muitos problemas e viajo nas férias rsrsrsrsrsrs. Mas sinto falta da pedagogia, fazer alguma coisa pelas nossas crianças…

    Gosto muito de uma Revista chamada Sorria, ela me inspira e sempre tem assuntos relacionados com a minha vida, parece que foi escrita para mim, rsrsrsrsrs

    Veja a entrevista da Roberta Faria e depois me conta 🙂

    http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/videos-veja-entrevista/roberta-faria-jornalista-e-criadora-da-revista-sorria/

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    • Muito legal e inspiradora a iniciativa da Roberta, Silvana! 🙂 E é mais legal ainda por ver que ela teve a ideia e soube executá-la com menos de 28 anos de idade (hoje ela deve estar com 33 anos, então é só um pouquinho mais velha que eu). Mas ela tem uma qualidade excepcional, que eu gostaria de ter (quem sabe um dia?): é uma empreendedora. Ou seja, além de ser jornalista, é também uma “mulher de negócios”. Acho que todas as faculdades deveriam trabalhar isso com a gente, né? Seja em qual área for.

      E um comentário à parte: impressionante como o Augusto Nunes não consegue sorrir NUNCA, né? Está entrevistando uma jovem simpática e sorridente, sobre uma revista chamada “Sorria” e não consegue desfechar a cara por um segundo! 😀 rss

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      • Cris, para ser justo, captei um sorrizinho do entrevistador, quando ele perguntou se Roberta toparia trabalhar em outro lugar. Não consegui captar o significado do sorrizinho, mas não sou bom nisso. Se você desistir do atual emprego, pode seguir a dica da Roberta, para quem o mercado seria receptivo a revistas como a “Sorria”, para divulgar boas causas com patrocinadores.

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      • Sim 🙂 🙂 🙂 Não gostei do entrevistador… parece um robô! Não dá para sair um pouco do script? Enfim, estou cansada de notícias tristes… preciso ler sobre pessoas que me inspirem 🙂

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