Mais um passaralho

Lá vem mais um passaralho

Movimentando a Redação

Boatos, cochicho, azia,

Cada dia mais tensão.

 

O próximo será quem?

Nunca se sabe ao certo.

O critério é manter refém

Aquele que é mais esperto.

 

E vai o salário alto,

E o último prêmio Esso

O que derrubou ministro

O inconformado confesso.

 

Um aproveita a deixa

E já pede pra sair

O outro relembra as queixas

Do sangue jorrado ali.

 

Os que ficam fazem o triplo

Trabalho vira uma cruz

Transformam-se logo em suco

— o último apaga a luz.

***

No meio do ano passado, acompanhei de perto a tensão que é um passaralho [demissão em massa]. Já tinha presenciado outros, mas nunca tão grandes como aquele. Foram mais de 30 pessoas dispensadas na “Folha”, algumas com décadas de casa. No mesmo período, houve cortes no Estadão, Band, iG e Diário do Grande ABC. Depois foram demitidos funcionários dos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e foi fechado o esportivo “Marca Brasil“. Ao todo, segundo o site Comunique-se, mais de 1.200 jornalistas foram demitidos no ano passado.

Boatos diziam que novos passaralhos ocorreriam no final do ano. Demoraram um pouco mais, mas o processo voltou com força agora.

Após o fim do histórico “Jornal da Tarde“, com demissões de parte de seus jornalistas, foi anunciado um enxugamento nos cadernos do “Estadão” e a demissão de 50 jornalistas, posteriormente suspensas pelo TRT (alguém sabe em que pé isso está hoje?). Depois o “Valor Econômico” demitiu 50; a Record demitiu 400 (!!); “Trip” demitiu ao menos 14; “Folha de Pernambuco” demite nove. Vejam que irônico: a “Caros Amigos” demitiu 11 por terem exercito o constitucional direito de greve. E há um boato (ah, os boatos! Tornam o passaralho muito mais doloroso) de que a “Abril” demitirá 1.000 (!!!) até setembro.

Como que para fechar o ciclo, volta a “Folha” a demitir nesta semana, desde terça. Desta vez, fala-se em outros 40 jornalistas cortados. Gente da melhor qualidade, até a repórter vencedora do Esso que derrubou o ministro Palocci. A “Folha” se justificou dizendo que “o fraco desemprenho da economia e seu reflexo na publicidade dos jornais” tornou necessários os “ajustes”. E também enxugou, fundiu ou limou cadernos inteiros…

Há tempos a academia se debruça sobre as mudanças no jornalismo, ainda em curso. Como toda revolução em curso, só dá para entender plenamente o que ela significa depois de alguns anos de seu fim. No meio do redemoinho é difícil ter uma percepção clara das coisas. O que os jornais impressos vão virar, com a concorrência da internet em multiplataformas? E, se todos estiverem buscando informação na internet mas a publicidade não acompanha esse ritmo, quem vai sustentar as grandes apurações? Fazer reportagem é caro, e não é fácil. Será que veremos um declínio da qualidade do jornalismo, ou ele vai se reinventar, mais forte? O que me preocupa é que todo país de jornalismo fraco tem democracia também fraca, um fantasma que nunca abandona o Brasil.

Mas, bah, deixemos isso com os acadêmicos, que estão lá debruçados fazendo pesquisas a respeito. O que me preocupa, de imediato, é o que conheço bem: aquele clima de terror que ronda as demissões, as tristezas de quem deu a vida por uma empresa e virou suco e o acúmulo de tarefas que passam a ter aqueles que sobraram — a ponto de um jornalista ter cunhado o termo “Ficaralho“.

Pensando em tudo isso, ontem à noite, eu estava agitada demais para dormir. Para me livrar de uma daquelas bravas insônias, acendi a luz e vomitei esses garranchos que abrem o post. Depois apaguei, efetivamente, a luz, e dormi uma noite cheia de sonhos.

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6 comentários sobre “Mais um passaralho

  1. Entre os demitidos na Folha está o Guto, um pauteiro do Cotidiano sempre muito elogiado por você, Cris. A crise da imprensa tradicional, que é muito grave, deve reorientar muitos estudantes de jornalismo para um outro curso universitário. Os que não o fizerem vão encontrar um mercado muito mais fechado. Aumenta a escassez de vagas e cresce a demanda por empregos nessa área, pois há excessos de cursos de jornalismo em relação ao mercado.

    A Internet ainda não fez o que talvez um dia faça: oferecer meios de sobrevivência aos jornalistas. Sou testemunha de uma coisa: você nunca ganhou um tostão com os seus blogs. Talvez um dia, quem sabe…

    Curiosamente, li hoje algo que confirma que blog e jornalismo escrito podem ser uma via de mão dupla. O “Hoje em Dia” informou que contratou uma jornalista, a Cris Carneiro, de Belo Horizonte, para fazer a partir de amanhã uma coluna na página 7 do caderno de Cultura. Diz que ela se tornou conhecida por causa do Blog Cris Carneiro (http://www.criscarneiro.com.br/blog/), especializado em modas.

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    • É, a internet ainda está longe de dar dinheiro a jornalistas. Os que existem fazem muito mais opinião do que reportagem (que é caro e difícil), e conheço poucos leitores dispostos a pagar por opinião tendo um mar tão grande de opções gratuitas para cumprirem essa necessidade. O jornalismo vai ter que se reinventar logo, sob pena de perder muito em qualidade, já que a rede não diferencia muito facilmente quem é qualificado e profissional de quem apenas é bem articulado.

      Realmente, o Guto foi um dos meus mestres. O passaralho anterior já tinha cortado outro dos meus mestres, o Julio Veríssimo. Ainda bem que passaralho nenhum me cortará o maior de todos os meus mestres, que é você 😀

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  2. Essas demissões foram tema da ombudsman da Folha, Suzana Singer, neste domingo:

    Desequilíbrio
    Folha elimina 24 vagas e fecha ‘Equilíbrio’, de olho num futuro de “Redação enxuta e jornal menor”

    A Folha enterrou o caderno “Equilíbrio”, concebido há 13 anos com a promessa de ajudar o leitor a viver com “menos estresse”.

    O que era um tabloide semanal de oito páginas sobre saúde e comportamento, com seis colunistas, vira um arremedo do que foi, agora publicado como uma página em “Cotidiano”, nos mesmos moldes do “Folhateen” na “Ilustrada”.

    O fim do suplemento foi anunciado num corte que incluiu o fechamento de 24 vagas na Redação (6% do total) e o desligamento da colunista Danuza Leão. É a segunda leva de demissões em um ano e acontece na sequência das feitas pelo “Estado de S. Paulo” e pelo “Valor” –a Editora Abril começou sua “reestruturação” na sexta-feira passada.

    Parece que os jornalistas brasileiros estão vivendo o pesadelo que os colegas americanos enfrentaram nos últimos anos. Nos EUA, onde se registrou queda violenta da circulação e da receita publicitária, as vagas nas Redações de jornais encolheram 26% desde 2007.

    Hoje, esses veículos empregam 40.600 profissionais, um pouco menos do que em 1978, quando eram 43.000. É um retrocesso de 35 anos.

    A sangria dos anunciantes do impresso, nos EUA e na Europa, não vem sendo compensada pela publicidade na internet. Os jornais americanos calculam que, para cada dólar ganho com publicidade nos seus sites, tenham sido perdidos US$ 15 no impresso (dado de 2012).

    A situação é melhor na Ásia, graças ao crescimento de vendas de jornais na China e na Índia.

    Por aqui, os jornais não cansam de divulgar dados otimistas sobre si mesmos. A Folha publicou, em março, que a publicidade em jornais cresceu 0,7% no ano passado. Segundo o “Estado”, a circulação geral aumentou 1,8% nesse período.

    Se está tudo bem, por que sacrificar o produto? A Secretaria de Redação diz que o caderno “Equilíbrio” foi extinto porque “não era mais viável economicamente”.

    Sobre as demissões, afirma que “o fraco desempenho da economia obrigou a Folha a fazer ajustes pontuais em suas despesas”.

    Segundo a Secretaria de Redação, “o crescimento da receita publicitária é menor que a inflação” e o aumento de circulação veio principalmente dos “jornais populares”.

    A situação econômica da Folha é boa, a empresa não tem dívidas, mas, segundo a direção, “as Redações do futuro deverão ser cada vez mais enxutas, assim como o produto impresso”.

    É uma fórmula difícil de dar certo: estruturar um jornal menor, mas mais sofisticado para fazer frente às informações gratuitas oferecidas na internet, com uma equipe reduzida e menos experiente, encarregada também de manter um site de notícias 24 horas.

    Enquanto um novo modelo de negócio não se impõe, é assim que as empresas de mídia estão tocando o barco. Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo.

    Aos fãs de Rosely Sayão: a colunista continuará escrevendo na página de “Equilíbrio”, no “Cotidiano”.

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    • Eu tava mesmo ansiosa pra ler a ombudsman deste domingo. Na quinta passada, se não me engano (ou quarta), logo após o passaralho da Folha, a Ilustrada trouxe na capa o corte de 400 vagas na Record — e nenhuma linha sobre as próprias demissões. Ficou feio pro jornal.

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