Tem livro novo na Biblioteca do Blog!

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Imagem: Reprodução / Flickr

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Reprodução / Flickr

Na verdade, é um livro velho 😀

Uma eterna aprendiz no PT“, de Sandra Starling, foi publicado em primeira mão, em fevereiro de 2008, em meu primeiro blog. Como a página entrou definitivamente no limbo da internet, após a desativação do Blogger, em junho deste ano, o livro também se perdeu. Por isso, resolvi colocá-lo na Biblioteca deste blog, junto aos outros nove livros que estão disponíveis para download gratuito. CLIQUE AQUI para baixá-lo à vontade, para ler no computador, tablet ou depois de impresso.

ATUALIZAÇÃO EM 25/5/2016: O livro foi removido da biblioteca do blog, a pedido da autora.

E por que ler um livro de memórias de uma das fundadoras do PT, escrito ainda na era Lula? Acho que o livro desperta interesse renovado agora que o partido, há 12 anos no poder, virou alvo de críticas e questionamentos inclusive de sua militância. Sandra Starling romperia definitivamente com a sigla que ajudou a fundar em 2010 e, nas últimas eleições, chegou a declarar voto em Aécio Neves, do PSDB. Mas, antes, sempre pelo Partido dos Trabalhadores, foi candidata ao governo de Minas em 1982, eleita deputada estadual em 1986, deputada federal de 1990 a 1998 e ministra interina do Trabalho no governo Lula em 2003.

Como muita água já rolou por baixo da ponte de 2008 pra cá, ela diz que ainda fará um posfácio para ser acrescentado ao livro. Avisarei por aqui quando estiver pronto 😉

Enfim, para completar a sugestão de leitura, republico aqui o artigo que meu pai escreveu em 30 de janeiro de 2008, que está guardado no meu backup do blog Tamos com Raiva, apresentando o livro aos nossos leitores daquela época:

“No segundo semestre de 2006, telefona-me Sandra Starling. O jornalista Acílio Lara Resende, que como ela escreve uma coluna semanal no jornal “O Tempo“, dera-lhe o meu telefone. Ela estava precisando de alguém para fazer a revisão de seu livro. Prontifiquei-me e nos encontramos pouco depois em minha casa, onde ela apareceu com o marido, Thales. Como jornalista, eu vinha acompanhando a carreira política de Sandra, mas nunca havíamos falado. Logo depois comecei a ler Uma eterna aprendiz no PT e verifiquei que não teria quase nenhum trabalho pela frente.

Sandra Starling é uma escritora que sabe lidar com a palavra escrita e falada. Na juventude, trabalhou na Refinaria Gabriel Passos, da Petrobras, e batalhou para fundar o sindicato dos petroleiros em Minas, sendo eleita sua primeira secretária-geral. Depois do golpe de 1964, ameaçada de prisão, demitiu-se do primeiro emprego. Era grande oradora, como demonstrou nas escaramuças dentro do PT antes e depois da fundação do partido e nas suas campanhas políticas: para governadora, em 1982, para deputada estadual uma vez e por duas vezes para a Câmara dos Deputados. Com exceção da primeira vez, quando disputou com Tancredo Neves e Eliseu Resende e teve 110 mil votos, foi sempre vitoriosa em suas campanhas, mas não quis tentar a terceira reeleição como deputada federal por achar que ninguém deve virar um político profissional. Saiu para voltar a dar aulas.

Mas, voltando ao livro. Afonso Borges, o inventor do Sempre um Papo e único agente literário da atualidade em Minas, ofereceu-o a algumas editoras e fechou com a Ediouro. Sandra estava muito animada. Já havia sido marcada até uma data provável do lançamento. De repente, sem maiores explicações, o projeto foi arquivado pela editora.

Decepcionada, a autora preferiu não insistir. O livro estava destinado a ficar na gaveta ou a ser lido por uns poucos amigos. Mas o Tamos com Raiva começou a divulgar livros de minha autoria, que teriam também o mesmo destino, se fossem depender da indústria editorial brasileira. Sandra Starling se animou quando o blog se ofereceu para publicar o livro dela.

É um verdadeiro presente para os leitores do nosso blog. Não se trata, como afirma de cara a autora, de um livro de história. São memórias, que, como diz Sandra, não se baseiam em documentos ou testemunhos, mas que “retratam o que uma pessoa viveu, ou pensou ter vivido – já que muitas vezes reescrevemos de outra maneira acontecimentos que nos são muito caros ou que foram muito ruins para nós. Foi com o que me lembro que escrevi este livro”.

E ela se lembra de muita coisa que faz história.

Sandra Starling podia ter sido, por tradição familiar, advogada ou juíza. Afinal, se formara como melhor aluna da Faculdade de Direito da UFMG, em 1972, recebendo a “Medalha Rio Branco”, e foi logo selecionada para o curso de Doutorado da escola. Seu pai, Benedito Starling, era juiz de Direito. E o avô paterno, Alonso Starling, foi juiz e desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Mas esse mesmo avô foi deputado constituinte estadual, entre 1905 e 1907, tendo exercido mandato em duas legislaturas. O outro avô tinha sido chefe político em Caratinga e não era um bom exemplo: ao saber, às vésperas de uma eleição, em que havia sido traído por correligionários, morreu fulminado por um ataque cardíaco.

Apesar disso, o apelo da política foi mais forte. Sandra desistiu da pós-graduação em Direito e foi fazer a de Ciências Políticas na UFMG. Ela não se esquecia dos tempos de Diamantina e acompanhou o pai juiz a um jantar em homenagem ao presidente JK. Sobretudo, guardava no coração os ensinamentos do Padre Geraldo Magela Teixeira, vigário da Matriz, que a acolheu na JEC (Juventude Estudantil Católica), quando tomou consciência da questão da exclusão social e da necessidade de lutar pela justiça na Terra.

Passados alguns anos, Sandra Starling começou a lecionar na PUC/MG, campus Coração Eucarístico, dando aulas nos cursos de Comunicação e de Serviço Social. Sobre esse tempo, ela escreveu:

E logo estoura a primeira greve pós-68, justo no Serviço Social. Para tentar salvar os estudantes da repressão, todos nós, professores, pedimos demissão. Nessa época, reencontro o padre Geraldo Magela, que, na ocasião, ocupava a pró-reitoria de graduação da universidade. Convidou-me para assumir a coordenação do curso básico da área de Ciências Humanas. O convite me deixou lisonjeada, mas o recusei. Magela nunca entendeu a razão desse ato. Considerou estranha a recusa, em face de nossa amizade, pois ele confiava em mim e precisava de uma pessoa de confiança para ocupar o cargo. Nunca declinei as minhas razões. Na verdade, eu já circulava na periferia de uma organização clandestina de esquerda de que falarei mais adiante. Sabedores da possibilidade de indicação para o preenchimento desse cargo, os dirigentes de tal organização determinaram que eu me abstivesse de aceitá-lo, para que envidassem esforços na indicação de um quadro militante para preenchê-lo.

Depois fui convidada a lecionar Introdução ao Estudo do Direito, que, embora fosse disciplina do Curso de Direito da UFMG, era ministrado no “Ciclo Básico” da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). Daí foi apenas um passo para eu começar a participar das ações do Movimento Feminino pela Anistia e a colaborar na imprensa alternativa. No jornal Movimento eu vendia assinaturas e participava das reuniões de elaboração de pauta e de avaliação do semanário. Depois, ajudei a fundar o Em Tempo, onde também escrevi meus primeiros artigos, além de distribuir exemplares para a venda em bancas e de vender o jornal, toda sexta-feira, à tarde, na porta da FMB, em Betim. Mergulhei na militância, acompanhando a greve dos operários da construção civil (como chorei vendo o massacre jurídico dos sindicalistas na audiência do Dissídio Coletivo, no Tribunal Regional do Trabalho, em Belo Horizonte) e acompanhando, dia a dia, a grande greve dos trabalhadores do ensino, que gerou a fundação da União dos Trabalhadores do Ensino (hoje Sind-UTE).

Não me estenderei na descrição do livro, para não estragar o sabor da leitura. Concluindo: se alguém espera encontrar, nessas páginas bem condimentadas de emoção e verve, louvores ao PT e a Lula (a autora participou dos primeiros 207 dias de seu governo, como secretária-executiva do Ministério do Trabalho, e saiu exonerada) ou críticas acerbas à atual direção e aos rumos de um partido que ela ajudou a fundar e que conheceu de perto, convivendo com figurões, como o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, e tornando-se uma das poucas mulheres a ter “vez e voz” no período inicial de existência do PT, se alguém espera, vai ter que ler, pois não sou eu, um admirador de Hitchcock, quem vai quebrar o suspense de uma boa leitura.

Um parêntesis: os leitores de Sandra Starling no “O Tempo” devem saber o que ela pensa a respeito do partido que ajudou a fundar. No artigo desta terça-feira, em que analisa a situação política americana, ela conclui dizendo:

Confesso que sinto uma inveja danada. Sempre lutei para que o PT fosse expressão viva de uma democracia participativa forte, de massas engajadas, politizadas, que tomam nas próprias mãos à construção do futuro. Sinto-me frustrada ao ver que isso, até hoje, não se concretizou. E o pior é dar a mão à palmatória e constatar que precisamos aprender algo nesse sentido com os norte-americanos, sempre tão criticados por estas plagas. Não me sinto, entretanto, desencorajada. Sempre tive como norte na política que não sou detentora de verdades definitivas e que é preciso estar sempre com a mente aberta para aprender com as experiências dos outros, ainda que pensem muito diferente de você. É o que procuro fazer nesse período em que o PT, como diz Tarso Genro, apresenta “baixo horizonte estratégico”.

Se não continua a ter voz e vez no PT, não é por culpa de Sandra Starling, mas dos que, bem postos no alto de um tamborete, acham que já sabem tudo e nada têm a aprender com esta eterna aprendiz.”

A própria Sandra também escreveu sobre a publicação do livro, em sua coluna semanal no jornal “O Tempo”, em 13/2/2008. CLIQUE AQUI para ler o artigo dela.

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