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A história de mulheres invisibilizadas pela História dos homens

Mulheres incríveis, de várias épocas e gerações diferentes, que fizeram algo notável (para o bem ou para o mal, em alguns casos). Todas estão biografadas no livro de Rosa Montero.

Foi só no fim do ano passado que tomei conhecimento de uma iniciativa interessante da revista “Time”, de listar apenas “mulheres do ano”, desde 1920 até 2020.

Quando vi a lista, espantei-me com o fato de que eu conhecia bem poucas daqueles mulheres. E olha que foram importantes, foram personalidades em sua época, a ponto de merecerem esta homenagem atrasada.

Quando comentei isso na internet, minha grande amiga Carol viu e comprou um livro para me dar de presente. É este “Nós, mulheres – Grandes vidas femininas“, da jornalista espanhola Rosa Montero.

Coincidentemente, terminei a leitura neste dia 8 de março, um dos piores dias internacionais das mulheres das últimas décadas, em que nós não temos nada a comemorar. Como bem mostra esta excelente reportagem de Fernanda Mena, na “Folha” de hoje, a pandemia fez com que as mulheres retrocedessem 30 anos economicamente, ficassem absolutamente exaustas na vida doméstica e no cuidado com as crianças, sem falar na disparada de violências e abusos domésticos que passaram a sofrer.

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Bom, voltando ao livro, o que ele traz são 16 biografias mais extensas e 90 minibiografias de mulheres notáveis, desde 2.700 a.C. até a atualidade. São sultanas, astronautas, matemáticas, cientistas, guerreiras, programadoras, musicistas, escultoras, escritoras, poetas, agitadoras, políticas, pintoras, piratas, aventureiras, bruxas, imperatrizes, nobres, milionárias, miseráveis.

Não se tratam de heroínas – muito pelo contrário, a leitura, principalmente das biografias mais extensas, mostra algumas mulheres absolutamente cruéis, sádicas e, em alguns casos, completamente lunáticas. Como a autora diz em mais de um momento do livro, as mulheres são tão capazes de ser tudo o que os homens são, inclusive más. Somos iguais nas qualidades e nos defeitos.

E o que essas mulheres todas têm em comum? Terminada a leitura, penso que elas têm duas coisas em comum, embora seja muito diferentes, inclusive pelas épocas em que viveram (algumas se beneficiaram de terem vivido em anos mais libertários, enquanto outras foram esmagadas pelo machismo predominante; algumas puderam frequentar uma universidade, por exemplo, enquanto outras foram rejeitadas até pelas mães apenas por terem ido estudar com um mentor).

O que elas têm em comum são o fato de serem todas personagens interessantíssimas (até pela repulsa que algumas delas provocam) e, sobretudo, pelo fato de terem sido invisibilizadas ao longo das décadas ou séculos depois que morreram. Ao contrário de muitos guerreiros, cientistas, artistas e governantes homens, que continuaram vivos na memória e na história muitos séculos depois de mortos, o que aconteceu a quase todas essas mulheres escolhidas a dedo por Rosa Montero foi que elas foram duplamente mortas: depois que morreram, tiveram os vestígios de suas histórias também apagados com o tempo, porque os historiadores se ocuparam, em boa parte do tempo, de destacar os feitos apenas dos homens.

Houve até casos sinistros de mulheres que fizeram grandes descobertas científicas que foram atribuídas a homens. Ou de mulheres que escreveram grandes obras literárias, que foram atribuídas ao marido (me lembrou o filme “A Esposa“). Ou de mulheres que fizeram esculturas belíssimas, atribuídas a seu mentor.

Felizmente, assim como Rosa Montero, outros historiadores passaram a se preocupar em cavar as histórias dessas mulheres geniais do passado, para nos mostrar, aqui em 2021, que sim, podemos fazer qualquer coisa e chegar a qualquer lugar, porque outras, antes de nós, o fizeram.

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A autora também fala de mulheres bem reconhecidas, como a “rainha do crime” Agatha Christie, a pintora Frida Kahlo e as irmãs Brontë. Sem falar em Simone de Beauvoir. Mas deu preferência às muitas outras que passaram quase incólumes pelo tempo, como Mary Wollstonecraft, Lady Ottoline Morrell, Alma Mahler, María Lejárraga, a bruxa Laura Riding, a cruel e louca Aurora Rodríguez e Irene de Constantinopla.

Sua ideia com o livro é justamente fazer um trabalho arqueológico, espanando a poeira de nomes que ou são desconhecidos de quase todas nós, ou são conhecidos da forma errada (era filha de não-sei-quem, era irmã daquele outro, era amante do fulano).

Um trabalho, enfim, extremamente necessário.

Mas eu não estaria aqui elogiando este livro se fosse só pela necessidade do feito. O fato é que a narrativa de Rosa Montero é deliciosa! Ela não tem medo de julgar sua personagens, de colocar os pingos nos is e os adjetivos todos que ela quer. Por isso que, como ela diz mais adiante, este não é exatamente um livro de biografias, mas mais um ensaio. Ela escreve de forma apaixonada sobre aquelas vidas e nos faz compreender todo o contexto histórico também. Assim, somos transportados, de uma hora pra outra, do império Bizantino para a revolução francesa. Percorremos as páginas com muita rapidez e, principalmente, curiosidade.

Curiosas, enfim, por finalmente sermos apresentadas a tantas mulheres incríveis.

A propósito: nem mesmo depois de ler todas as 106 biografias e minibiografias contidas neste livro ainda não conheço todas as 100 mulheres listadas pela “Time”. Ou seja, outras obras terão de dar continuidade a esta, porque ainda há muitas personagens empoeiradas nas prateleiras da História, ansiosas por vir a público e inspirar meninas, adolescentes e mulheres ao redor do planeta.

 

Nós, mulheres – Grandes vidas femininas
Rosa Montero
Ed. Todavia
285 págs.
R$ 45,90

 

 

 

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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