Mulheres guerreiras e, finalmente, livres

Imagem de alunos da Fafich em 1980. Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Rita Trajano

Imagem de alunos da Fafich em 1980. Acima, a pichação feita por Ana Rita Trajano e seu amigo “Guimba”, divulgando a chapa “Reconstrução e Luta”, para o DCE da UFMG. Foto: Marcelo Pinheiro / Arquivo Pessoal

Em 2007, Ana Rita Castro Trajano foi tirar um novo documento de identidade, depois de perder o RG anterior. Dirigiu-se ao posto dentro da Câmara Municipal de Belo Horizonte, que também faz emissão de documentos, via convênio, há vários anos. Pegou a senha, esperou na fila e, quando chegou sua vez de ser atendida, foi surpreendida com um aviso: “A senhora não pode tirar RG aqui. Tem um alerta dizendo que só pode tirar diretamente na Polícia Civil.”

O funcionário não sabia explicar por quê, mas ela entendeu na hora: um fantasma de exatos 30 anos de idade voltava para assombrá-la. O fantasma da ditadura militar.

Naquela semana, assustada e irritada com o que havia acontecido, ela resolveu espanar aquele fantasma de vez. Procurou se informar e deu entrada com o processo para pedir anistia do Estado brasileiro – e um pedido de desculpas oficial por ter passado por vários apertos na vida pela única razão de ter lutado pela democracia em que acreditava e ter sido punida por um governo autoritário.

***

Na véspera do Dia Internacional da Mulher de 2014, sete anos depois de ter entrado com o processo, Ana Rita foi anistiada, obteve um pedido de desculpas formal do Estado brasileiro e receberá uma indenização, ainda sem valor estipulado. No dia 8 de março, ontem, ela postou em sua página de Facebook: “Estou me sentindo livre”.

Assim como ela, outras nove mulheres de várias partes do Brasil também foram anistiadas pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, criada em 2001 para reparar as famílias prejudicadas diretamente pelo golpe militar. Foi uma sessão especial para as mulheres lutadoras deste Brasil. Ana Rita, que é minha sogra, ficara sabendo à 0h de sexta que seu caso iria a julgamento naquele dia, às 9h30. A expectativa era grande.

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Seu “crime”, de ter atentado contra a segurança nacional, jamais tinha ido a julgamento. Ana Rita passou vários anos tendo que comparecer à delegacia da polícia da ditadura para prestar depoimentos e era ameaçada constantemente de ter seu inquérito militar levado a julgamento. A pressão de amigos e familiares e o início da abertura política do país fizeram com que as ameaças nunca fossem cumpridas.

Ana se interessou por política e pela luta contra a ditadura quando tinha apenas 18 anos de idade. Ela diz que vivia uma ditadura dentro de casa, com o pai, bancário, bastante autoritário. Ele queria que ela fosse freira: quando ela passou no vestibular, aos 17 anos de idade, para cursar psicologia, em vez de ganhar os parabéns, levou uma surra.

Ela estudava psicologia na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, que funcionava em um prédio no bairro Santo Antônio, Centro-Sul da capital mineira. Lá, participava de palestras e rodas de conversa com os alunos de psicologia, filosofia, sociologia, história, jornalismo. Respirava-se política. Colegas eram presos e as prisões mobilizavam os demais alunos. Autores eram banidos da grade curricular das escolas, e eram lidos pelos grupos de alunos, às escondidas. A vida acadêmica era agitada, com várias chapas concorrendo aos diretórios acadêmicos e ao DCE.

Em 1975, ela se vinculou ao grupo Liberdade, que também existia em outras partes do país, formou uma chapa para o diretório acadêmico da Fafich e ganhou. O grupo depois teve a dissidência trostkista Liberdade e Luta (Libelu), e Ana se tornou uma das lideranças dessa tendência na Fafich. “Não defendíamos a luta armada e a guerrilha, defendíamos a democracia, as liberdades democráticas e o socialismo.”

Em 1977, os estudantes se uniram para tentar reconstruir a UNE, que tinha sido desmantelada. Um encontro nacional foi marcado no DA da escola de medicina, mas foi proibido. Apesar disso, cerca de 350 estudantes compareceram mesmo assim, Ana Rita entre eles. As discussões políticas entraram madrugada adentro e, quando o dia amanheceu, a escola já estava toda cercada pela polícia. Os estudantes receberam a ordem de sair, passando pelo corredor polonês, e foram colocados em ônibus, que os levaram a um galpão da polícia na Gameleira.

Lá, alguns estudantes foram pinçados para serem fotografados, fichados e responderem a inquérito policial militar. E a Ana também foi escolhida.

Mesmo sob a constante ameaça de ser levada a julgamento e tendo que depor de tempos em tempos, ela continuou no movimento estudantil. Chegou até a concorrer na chapa “Reconstrução e Luta”, para o DCE da UFMG, mas não ganhou. Em 1979, formou-se em psicologia.

***

Foi a partir da vida de formada que ela começou a sentir na pele as consequências da vida política estudantil. Na Mendes Júnior, onde foi trabalhar, os funcionários eram investigados e, por conta de seu passado “subversivo”, ela foi barrada no departamento de psicologia. Conseguiu, por indicação, uma vaga no departamento de recrutamento, que era de nível médio. Anos depois, quando ela já tinha o primeiro filho, de 4 anos de idade, o SNI (Serviço Nacional de Informação) ordenou que ela fosse demitida da Fundação Educar (Mobral), onde trabalhava. Ela conseguiu ficar, bancada pela chefe, “com a condição de ficar mais discreta”. Depois, por apoiar o movimento estudantil, foi demitida e barrada de uma universidade particular onde dava aulas. Vivia uma insegurança trabalhista, até conseguir se firmar profissionalmente, trabalhando mais junto a sindicatos e na academia. Mas, “uma vez criminoso, sempre criminoso”. Trinta anos depois de ser fichada, ela ainda teria restrições para tirar uma simples segunda via de RG.

***

As outras mulheres anistiadas agora tiveram problemas tão ou mais graves, pelo único fato de terem lutado de alguma forma contra a ditadura.

Segundo reportagem da Agência Brasil, a professora universitária Maria do Rosário da Cunha Peixoto, da USP, trabalhava na Secretaria de Educação de Minas Gerais, em 1969, “quando foi presa, em 15 de junho do mesmo ano, e só ganhou a liberdade em maio de 1970, tendo sofrido torturas durante o período em que esteve detida.” A psicanalista Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues perdeu o emprego no Senac de Pernambuco e teve que se refugiar com o marido no Paraguai. A jornalista Lúcia Leão passou 30 dias detida no DOI-Codi, sob o comando do coronel Ustra, onde chegou a ser agredida. A professora Suzana Van Haute foi condenada a 12 meses de prisão à revelia e obrigada a pedir demissão para fugir do Brasil. Na cerimônia da Comissão da Anistia, Suzana ganhou, além do pedido de desculpas e da indenização (com valores ainda a calcular), o direito de concluir o curso de letras na USP, que foi interrompido na época da fuga.

Essas outras histórias podem ser lidas na reportagem da Agência Brasil, AQUI e AQUI e da repórter Mariana Haubert, da “Folha de São Paulo”, AQUI. Já a história da Ana Rita, mineira de Jequeri, eu coletei ontem, em entrevista gravada.

Ana Rita na época de estudante / Arquivo pessoal

Ana Rita na época de estudante / Arquivo pessoal

As dez mulheres anistiadas são:

  1. Maria do Rosário da Cunha Peixoto, de 72 anos
  2. Suzana Van Haute, 65
  3. Aglaete Nunes Martins, 70
  4. Ana Rita Castro Trajano, 57
  5. Lúcia do Amaral Lopes, 65
  6. Walkiria Dutra de Oliveira, 69
  7. Lótus Dutra de Oliveira, 68
  8. Lúcia Maria Lopes de Miranda Leão, 59
  9. Margarida Portella Sollero, 70
  10. Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues, 79

Seus nomes constam em publicação no “Diário Oficial da União” de sexta-feira. E merecem ser registrados e lembrados, mesmo tantos anos depois.

Que bom que também tivemos mulheres guerreiras no período mais terrível da história recente do Brasil. Que bom que agora, tantos anos depois, elas estão sendo reparadas pela perseguição que sofreram. O Dia das Mulheres ganhou um significado novo neste ano 🙂

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17 comentários sobre “Mulheres guerreiras e, finalmente, livres

  1. Milhares ou milhões de famílias foram prejudicadas pela ditadura e pela sucessiva incompetência dos mais variados governos. Infelizmente esta triste realidade é uma verdade que qualquer pessoa que com mais de 50 anos pode confirmar. A ditadura militar impôs-se precisamente porque a sociedade brasileira estava altamente polarizada e temiam que o Brasil se juntasse a Cuba como parte integrante do bloco soviético, situação politica muito semelhante à que subsiste atualmente, além de termos uma falta de estabilidade governativa dando-nos a sensação de que dificilmente poderemos vir a viver em segurança, com paz e alegria.

    Desejo-lhe uma ótima semana!

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  2. Parabéns as mulheres guerreiras anistiadas …….até que enfim.
    Homenageio a todas, e recordo muito da família guerreira de Angelina Dutra de Oliveira, as filhas Lotus e Walkiria Dutra, Maria do Carmo Dutra junto com Juarez de Brito, genro de Angelina.
    .Dona Angelina foi foi minha madrinha de casamento. Família muito querida, e depois de muitos anos não poderia esquecer ficou traumatizante o sofrimento de todos, com as perseguições, prisões e torturas e assassinatos a todos os envolvidos nesta luta contra a ditadura. Juarez de Brito foi assassinado no Rio de Janeiro. Minha homenagem e respeito a todos e sinto orgulhosa de ter participado desta luta e redemocratização do Brasil.

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  3. Excelente artigo sobre a Nossa Querida Ana Rita, meus olhos lacrimejaram.
    Lembrei de um caso da minha cunhada Maria de Fátima a Mafa colega de curso e de turma da Ana Rita, que quando ainda estudante conseguiu um estagio, só que para esse estagio era pedido atestado de bons antecedentes, ela pediu e como resposta veio consta antecedentes criminais. Eu nunca vi uma pessoa tão doce e frágil como ela e pela Ditadura tida como criminosa.

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  4. Cris querida, coração agradecido pelo seu carinho e reconhecimento de nossa luta contra a ditadura militar. Orgulhosa de você, pela sua competência como jornalista, que faz um jornalismo que se posiciona e divulga acontecimentos importantes de nossa história política e social. Agradeço a tod@s que se manifestaram e se posicionaram em favor de nossos movimentos em prol da Liberdade e Justiça Social , Agora, um comentário bem pessoal, adorei re-encontrar minha foto, tão novinha com semblante feliz para a vida! Viva a Vida! As Mulheres!, a Liberdade!. Grande beijo, Ana Rita

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  5. oi, boa noite
    sou do DCE UFMG e estou construindo um projeto que chama cinema pela verdade, que é um projeto da comissão nacional da anistia, ele se consiste em passar filmes sobre a ditadura e construir debates sobre. seria um imensa honra para mim e para todo DCE poder escutar essas mulheres guerreiras, assim gostaria de saber se tem como me passar o contato da ana rita.
    muito obrigada
    e parabens pelo texto

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