Mineroduto da Anglo American: transtornos muito além dos rompimentos

Em março, o mineroduto da Anglo American se rompeu duas vezes, “levando poluição a um manancial que abastece a cidade Santo Antônio do Grama (MG), impactando uma população de 4.200 pessoas.” O resultado foi uma multa aplicada pelo Ibama e suspensão das atividades da mineradora por 90 dias.

Meu pai escreveu sobre isso aqui no blog no começo do mês, mas as aspas que peguei emprestadas no parágrafo anterior são do repórter Léo Rodrigues, que publicou uma matéria muito interessante na Agência Brasil, nesta segunda-feira. Ele divulga o lançamento do livro Violências de mercado e de Estado no contexto do empreendimento minerário Minas-Rio, feito por pesquisadores da UFMG, que ouviram moradores das comunidades afetadas pelo empreendimento.

Relata Léo Rodrigues:

“Foram identificados violações e danos ainda não devidamente reconhecidos pela mineradora e pelo Poder Público. Entre as situações descritas, estão a extinção de nascentes, a poluição e o assoreamento de mananciais, que acarretariam a escassez de água. Também são mencionadas remoções forçadas, prejuízos à agricultura e pecuária familiar, morte de peixes, impactos na pesca, trânsito intenso de veículos, incômodos gerados por poeira e lama, barulhos intensos das obras, falta de transparência que impede o direito à informação, invasão de propriedades por máquinas, entre outros.”

A matéria também dá amplo espaço ao “outro lado”, com posicionamentos da mineradora, do Ibama e da secretaria estadual responsável por liberar as licenças ambientais. É possível ler tudinho clicando AQUI.

Mas eu gostaria mesmo era de ler o livro, que foi distribuído gratuitamente no dia de seu lançamento, em 3 de maio, na Casa do Jornalista. Quero me debruçar sobre as histórias dessa gente sofrida, que vê um mineroduto enfiado goela abaixo, levando embora sua água, e nada pode fazer. Se alguém souber como consigo o PDF do livro, favor compartilhar aí nos comentários 😉

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Mulheres guerreiras e, finalmente, livres

Imagem de alunos da Fafich em 1980. Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Rita Trajano

Imagem de alunos da Fafich em 1980. Acima, a pichação feita por Ana Rita Trajano e seu amigo “Guimba”, divulgando a chapa “Reconstrução e Luta”, para o DCE da UFMG. Foto: Marcelo Pinheiro / Arquivo Pessoal

Em 2007, Ana Rita Castro Trajano foi tirar um novo documento de identidade, depois de perder o RG anterior. Dirigiu-se ao posto dentro da Câmara Municipal de Belo Horizonte, que também faz emissão de documentos, via convênio, há vários anos. Pegou a senha, esperou na fila e, quando chegou sua vez de ser atendida, foi surpreendida com um aviso: “A senhora não pode tirar RG aqui. Tem um alerta dizendo que só pode tirar diretamente na Polícia Civil.”

O funcionário não sabia explicar por quê, mas ela entendeu na hora: um fantasma de exatos 30 anos de idade voltava para assombrá-la. O fantasma da ditadura militar.

Naquela semana, assustada e irritada com o que havia acontecido, ela resolveu espanar aquele fantasma de vez. Procurou se informar e deu entrada com o processo para pedir anistia do Estado brasileiro – e um pedido de desculpas oficial por ter passado por vários apertos na vida pela única razão de ter lutado pela democracia em que acreditava e ter sido punida por um governo autoritário.

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Na véspera do Dia Internacional da Mulher de 2014, sete anos depois de ter entrado com o processo, Ana Rita foi anistiada, obteve um pedido de desculpas formal do Estado brasileiro e receberá uma indenização, ainda sem valor estipulado. No dia 8 de março, ontem, ela postou em sua página de Facebook: “Estou me sentindo livre”.

Assim como ela, outras nove mulheres de várias partes do Brasil também foram anistiadas pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, criada em 2001 para reparar as famílias prejudicadas diretamente pelo golpe militar. Foi uma sessão especial para as mulheres lutadoras deste Brasil. Ana Rita, que é minha sogra, ficara sabendo à 0h de sexta que seu caso iria a julgamento naquele dia, às 9h30. A expectativa era grande.

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Seu “crime”, de ter atentado contra a segurança nacional, jamais tinha ido a julgamento. Ana Rita passou vários anos tendo que comparecer à delegacia da polícia da ditadura para prestar depoimentos e era ameaçada constantemente de ter seu inquérito militar levado a julgamento. A pressão de amigos e familiares e o início da abertura política do país fizeram com que as ameaças nunca fossem cumpridas.

Ana se interessou por política e pela luta contra a ditadura quando tinha apenas 18 anos de idade. Ela diz que vivia uma ditadura dentro de casa, com o pai, bancário, bastante autoritário. Ele queria que ela fosse freira: quando ela passou no vestibular, aos 17 anos de idade, para cursar psicologia, em vez de ganhar os parabéns, levou uma surra.

Ela estudava psicologia na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, que funcionava em um prédio no bairro Santo Antônio, Centro-Sul da capital mineira. Lá, participava de palestras e rodas de conversa com os alunos de psicologia, filosofia, sociologia, história, jornalismo. Respirava-se política. Colegas eram presos e as prisões mobilizavam os demais alunos. Autores eram banidos da grade curricular das escolas, e eram lidos pelos grupos de alunos, às escondidas. A vida acadêmica era agitada, com várias chapas concorrendo aos diretórios acadêmicos e ao DCE.

Em 1975, ela se vinculou ao grupo Liberdade, que também existia em outras partes do país, formou uma chapa para o diretório acadêmico da Fafich e ganhou. O grupo depois teve a dissidência trostkista Liberdade e Luta (Libelu), e Ana se tornou uma das lideranças dessa tendência na Fafich. “Não defendíamos a luta armada e a guerrilha, defendíamos a democracia, as liberdades democráticas e o socialismo.”

Em 1977, os estudantes se uniram para tentar reconstruir a UNE, que tinha sido desmantelada. Um encontro nacional foi marcado no DA da escola de medicina, mas foi proibido. Apesar disso, cerca de 350 estudantes compareceram mesmo assim, Ana Rita entre eles. As discussões políticas entraram madrugada adentro e, quando o dia amanheceu, a escola já estava toda cercada pela polícia. Os estudantes receberam a ordem de sair, passando pelo corredor polonês, e foram colocados em ônibus, que os levaram a um galpão da polícia na Gameleira.

Lá, alguns estudantes foram pinçados para serem fotografados, fichados e responderem a inquérito policial militar. E a Ana também foi escolhida.

Mesmo sob a constante ameaça de ser levada a julgamento e tendo que depor de tempos em tempos, ela continuou no movimento estudantil. Chegou até a concorrer na chapa “Reconstrução e Luta”, para o DCE da UFMG, mas não ganhou. Em 1979, formou-se em psicologia.

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Foi a partir da vida de formada que ela começou a sentir na pele as consequências da vida política estudantil. Na Mendes Júnior, onde foi trabalhar, os funcionários eram investigados e, por conta de seu passado “subversivo”, ela foi barrada no departamento de psicologia. Conseguiu, por indicação, uma vaga no departamento de recrutamento, que era de nível médio. Anos depois, quando ela já tinha o primeiro filho, de 4 anos de idade, o SNI (Serviço Nacional de Informação) ordenou que ela fosse demitida da Fundação Educar (Mobral), onde trabalhava. Ela conseguiu ficar, bancada pela chefe, “com a condição de ficar mais discreta”. Depois, por apoiar o movimento estudantil, foi demitida e barrada de uma universidade particular onde dava aulas. Vivia uma insegurança trabalhista, até conseguir se firmar profissionalmente, trabalhando mais junto a sindicatos e na academia. Mas, “uma vez criminoso, sempre criminoso”. Trinta anos depois de ser fichada, ela ainda teria restrições para tirar uma simples segunda via de RG.

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As outras mulheres anistiadas agora tiveram problemas tão ou mais graves, pelo único fato de terem lutado de alguma forma contra a ditadura.

Segundo reportagem da Agência Brasil, a professora universitária Maria do Rosário da Cunha Peixoto, da USP, trabalhava na Secretaria de Educação de Minas Gerais, em 1969, “quando foi presa, em 15 de junho do mesmo ano, e só ganhou a liberdade em maio de 1970, tendo sofrido torturas durante o período em que esteve detida.” A psicanalista Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues perdeu o emprego no Senac de Pernambuco e teve que se refugiar com o marido no Paraguai. A jornalista Lúcia Leão passou 30 dias detida no DOI-Codi, sob o comando do coronel Ustra, onde chegou a ser agredida. A professora Suzana Van Haute foi condenada a 12 meses de prisão à revelia e obrigada a pedir demissão para fugir do Brasil. Na cerimônia da Comissão da Anistia, Suzana ganhou, além do pedido de desculpas e da indenização (com valores ainda a calcular), o direito de concluir o curso de letras na USP, que foi interrompido na época da fuga.

Essas outras histórias podem ser lidas na reportagem da Agência Brasil, AQUI e AQUI e da repórter Mariana Haubert, da “Folha de São Paulo”, AQUI. Já a história da Ana Rita, mineira de Jequeri, eu coletei ontem, em entrevista gravada.

Ana Rita na época de estudante / Arquivo pessoal

Ana Rita na época de estudante / Arquivo pessoal

As dez mulheres anistiadas são:

  1. Maria do Rosário da Cunha Peixoto, de 72 anos
  2. Suzana Van Haute, 65
  3. Aglaete Nunes Martins, 70
  4. Ana Rita Castro Trajano, 57
  5. Lúcia do Amaral Lopes, 65
  6. Walkiria Dutra de Oliveira, 69
  7. Lótus Dutra de Oliveira, 68
  8. Lúcia Maria Lopes de Miranda Leão, 59
  9. Margarida Portella Sollero, 70
  10. Lúcia Maria de Cerqueira Antunes Borges Rodrigues, 79

Seus nomes constam em publicação no “Diário Oficial da União” de sexta-feira. E merecem ser registrados e lembrados, mesmo tantos anos depois.

Que bom que também tivemos mulheres guerreiras no período mais terrível da história recente do Brasil. Que bom que agora, tantos anos depois, elas estão sendo reparadas pela perseguição que sofreram. O Dia das Mulheres ganhou um significado novo neste ano 🙂

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