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Homenagem às mulheres guerreiras

Foto que Letícia Moreira tirou de Edicleide Maria dos Santos, outra mulher guerreira que entrevistei para a reportagem sobre os órfãos do Rodoanel (http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/948538-obras-do-rodoanel-deixam-orfaos-na-regiao-do-abc.shtml).

Neste dia 8 de março, deixo vocês com um belo texto publicado ontem na “Folha” e no blog Mural, sobre as mulheres da periferia, tão acima de todos os estereótipos:

 

Nós, mulheres da periferia

Por Bianca Pedrina, Jéssica Moreira, Mayara Penina, Semayat Oliveira e Patrícia Silva

Se a periferia tivesse sexo, certamente seria feminino. Como coração de mãe, ela abraça os seus filhos sem distinção, sem ver se é belo ou feio, dentro ou fora dos padrões.

No dicionário, periferia é a região mais afastada do centro. Um termo que designa apenas um espaço geográfico, não o pior lugar da cidade.

Em São Paulo, há mais de 650 mil mulheres vivendo na periferia -e presentes em toda a cidade, trabalhando, estudando e saindo com os amigos. No Brasil, quase 22 milhões de mulheres são chefes de família.

E para quem é considerada uma favelada, alcançar o ensino superior é quase impossível. É como se ela nascesse com seu destino determinado. Jamais vai ter dinheiro para pagar a universidade e a escola pública não vai prepará-la.

Mas agora, belas, agressivas, cheias de gana e autoconfiança, essas mulheres estão driblando as dificuldades para ascender socialmente. Passaram a incluir mais uma atividade em sua dupla jornada, que se tornou tripla, pois também estudam.

Hoje, mais do que nunca, mães que não tiveram oportunidades de ensino podem sonhar com o estudo dos seus filhos. Na periferia, a mãe tem orgulho de dizer à patroa que seu filho “fez faculdade”.

Não que o diploma de ensino superior tire a sensação de ser marginalizada. “Ela é formada, mas não na USP. É uma ótima profissional, mas mora muito longe.” Essa é a realidade de muitas das 3,6 milhões de brasileiras que fazem faculdade.

Situação que apaga e esconde diversas características da população que está longe dos grandes centros. A periferia tem, sim, pessoas interessadas em arte, moradores engajados em movimentos sociais e políticos que querem mostrar a pluralidade deste “outro mundo”.

Yhorranna Ketterman, moradora de Taipas, zona norte de São Paulo, é um exemplo. Ficou grávida aos 17 anos. Sugeriram que ela abortasse, ela recusou. Aos 28 anos e com dois filhos, Yhorranna sonha com uma casa, pois vive em uma moradia irregular. Na favela onde mora, os becos são apertados. Ao abrir a porta, só vê casas coladas -ao menos pode pedir para a vizinha ficar de olho nas crianças quando vai trabalhar.

Ela é metalúrgica e se separou do marido depois de uma briga que a deixou com o dedo torto. Já apanhou, mas também bateu. Como mulher forte que é, decidiu fazer a operação para não ter mais filhos, encarando o machismo do então parceiro, que não quis fazer a vasectomia.

Sozinha e chefe do lar, Yhorranna manda na sua vida.

Não basta, no entanto. Quem de nós nunca ouviu a famosa afirmação: “Você não parece que mora na periferia.” Bom, até onde sabemos e vemos, as mulheres da periferia não têm apenas um padrão de beleza, não usam as mesmas roupas e não gostam de um único tipo de música.

Somos negras, brancas, jovens, idosas, mães de outras meninas. Gostamos de fotografia, balé, funk, teatro. Na entrevista de emprego, o local onde moramos cria constrangimento. “Sim, tomo ônibus. Trem. Dois metrôs. E ônibus de novo.” No happy hour, é comum escutar: “Lá entra carro? Essa hora é perigoso. Quer dormir na minha casa?”. A resposta é não. Saímos cedo, voltamos tarde, mas sempre voltamos.

Trabalhamos perto, trabalhamos longe, dirigimos carros, usamos ônibus. Somos várias, diferentes histórias, o mesmo lugar. É impossível nos reduzir a um estereótipo.

Com o tempo, a mulher aprende a dizer que seu bairro não é tão perigoso quanto pregam. Aprende a não ter vergonha de dizer que é da periferia, pois é lá que estão suas raízes e tudo aquilo que aprendeu.

Ser mulher na periferia é também esperar mais de um mês para ir ao ginecologista. É não conseguir creche para seus filhos. Mas nada disso intimida. Nesta semana da mulher, vale lembrar que pobreza maior é não ter espaço para ser. Na periferia, elas são: mulheres guerreiras.

BIANCA PEDRINA, 27, é jornalista e mora em Taipas
JÉSSICA MOREIRA, 20, estuda jornalismo e mora em Perus
MAYARA PENINA, 21, de Paraisópolis, estuda jornalismo
SEMAYAT OLIVEIRA, 23, jornalista, vive na Cidade Ademar
PATRÍCIA SILVA, 23, é jornalista e mora no Campo Limpo
Todas são correspondentes do blog Mural, da Folha.com

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “Homenagem às mulheres guerreiras Deixe um comentário

  1. Quase nunca comento seu blog, Cris, – apesar de ler sempre – mas esse texto merece. Ficou muito bonito! Sei que devia comentar lá no lugar original, mas vai por aqui mesmo: parabéns às autoras! 🙂

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  2. Cris, também conheço muitas mulheres guerreiras. Só aqui em casa, são quatro. Quando comecei no jornalismo, em 1972, na sucursal do JB em Minas, não havia ali nenhuma mulher. Posso me orgulhar de, como chefe de redação, ter aberto a porta para elas, ainda naquela década terrível. Pena que não deu tempo para que as mulheres jornalistas salvassem aquele jornal. Sobre muito que li hoje sobre as mulheres, gostei bastante do artigo do Ricardo Kotscho no blog dele. (http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/). Vale ler a íntegra, mas deixo aqui o finalzinho:

    “Sei que ao escrever sobre este assunto a gente sempre corre o risco de ser xingado de machista, mas posso garantir uma coisa a vocês: bem antes que elas se tornassem protagonistas na nossa sociedade, eu já era amplamente favorável ao trabalho feminino e a igualdade de oportunidades. Só espero que elas deixem um espaço para nós, sem a necessidade de criarmos um sistema de cotas para homens nos postos de comando dos governos e das empresas. Como diz o mineirinho, ao brincar com o gaúcho muito orgulhoso porque na terra dele só tem macho: “Pois na minha terra, lá em Minas, tem homem e tem mulher, e a gente se dá muito bem…”. Melhor assim. Se dependesse de mim, aliás, o mundo seria das mulheres só da porta da casa para fora. Aqui dentro mando eu, como se dizia antigamente, mas ninguém me ouve. Brincadeira, claro. Ou não…”

    Ou não!

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