Uma boa pergunta (e algumas respostas)

Texto de José de Souza Castro:

“O que é barraginha?”, perguntou-me a dona deste blog, quando comuniquei a ela, na manhã de hoje, que escreveria um artigo sobre as quinhentas mil barraginhas construídas no Brasil nos últimos 19 anos. Se a Cris nunca ouviu falar sobre esse projeto nascido em Minas quando ela era ainda menina, algo está errado, pensei com meus botões.

Mas, que saberia eu sobre o tema, não tivesse lido pouco antes a reportagem de José Silvestre Gorgulho na “Folha do Meio Ambiente”? Nada, certamente. O que sei agora, informado por meu colega no curso de jornalismo da UFMG e fundador, há 23 anos, daquele importante jornal, é o seguinte, em resumo:

1. O projeto Barraginhas nasceu de uma ideia do engenheiro agrônomo Luciano Cordobal de Barros, na Embrapa de Sete Lagoas, na boca do sertão mineiro.

2. Ele propôs a construção de mini barragens nas propriedades rurais situadas nas regiões de cerrado, para conter as enxurradas e os processos erosivos.

3. As águas das chuvas ali empoçadas se infiltram lentamente no solo, caem no lençol freático e revitalizam as nascentes dos córregos e abastecem cisternas e cacimbas que matam a sede de homens e outros animais, e reduzem os prejuízos com as devastadoras enchentes.

4. Hoje as barraginhas se espalham por vários estados.

Os que puseram em prática essa ideia simples parecem concordar com tais benefícios, entre outros. Milhares de pequenos agricultores, segundo Barros, não foram engrossar o número de favelados nas grandes cidades, permanecendo em suas terras, porque a partir das barraginhas tiveram condições de sobreviver ali.

Só em Minas, foram construídas trezentas mil barraginhas. As outras duzentas mil se espalham pelo Piauí, Ceará, Tocantins, Mato Grosso e Alto Pantanal.

Por que, então, não tínhamos ouvido falar desse projeto? Acho que é porque as barraginhas não proporcionaram votos a governadores, senadores e deputados e nem milhões de reais a grandes empreiteiras. É obra isolada de pequenos agricultores ou de associações deles, que tomam conhecimento da tecnologia em “dias de campo” promovidos pela Embrapa, não por dispendiosos anúncios na imprensa. E provavelmente, não foi pauta para nenhum grande jornal ou revista. Não sei dizer se o Globo Rural já tratou disso.

A gente costuma se interessar por projetos mais vistosos. Como a barragem do Açu, construída durante a ditadura militar (ela foi inaugurada em 1983) pelo Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), com 2.553 metros de comprimento e 41 de altura, para armazenar 2,4 bilhões de metros cúbicos de água.

Ou pelas barragens construídas pela Cemig durante o governo Newton Cardoso para “mudar a vida do Vale do Jequitinhonha”, como fartamente anunciado naquela época. E nada mudou, pois as barragens não serviam nem para gerar eletricidade, nem para irrigar terras. Mas que custaram 158 milhões de dólares, conforme reportagem que escrevi em agosto de 1991, publicada pela “Veja Minas Gerais”, revista da Abril, então editada por Carlos Alberto Cândido, meu ex-colega no JB.

As barraginhas, que podem ser construídas com apenas três horas de trabalho de uma retroescavadeira ou por uma hora e meia de pá carregadeira, mudaram a vida de milhares de pessoas. E fizeram um bem danado ao meio ambiente. Mas não se transformaram em anúncios e nem deram lucro à imprensa. Portanto…

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