A ameaça que vem dos bancos

Texto de José de Souza Castro:

Aos poucos, a gente vai descobrindo, pela leitura dos jornais, o que nos ameaça mais uma vez. Somos do tempo em que a ameaça ao nosso bem-estar, quando não à sobrevivência, vinha da dívida externa pública. E quando o governo Lula dizia que, se lhe fosse conveniente, já tinha condições de pagar toda a dívida externa, muitos acreditavam.

Vivíamos no melhor dos mundos, pois ninguém se dava ao trabalho de informar a esses muitos crédulos que, enquanto isso, a dívida interna do governo, pela qual os bancos credores cobravam os juros mais altos do mundo, havia se multiplicado algumas vezes, enquanto as reservas do governo em mãos da banca internacional, pouco rendiam ao Brasil.

Parece loucura, mas para tudo os economistas (e os alienistas) encontram razões. E desse modo podíamos estar tranquilamente a descer a ladeira enquanto saboreávamos nossas goiabinhas (uma imagem que tomei emprestado a Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta).

Mas vamos aos fatos, tais como se nos apresentam hoje. O dólar está cotado a R$ 1,72 e só neste ano já se desvalorizou 8%. O dólar também vai descendo a ladeira, porque o governo americano precisa fabricar moedas para sustentar a banca e desvalorizar sua astronômica dívida externa, principalmente com a China. O real também se valoriza em relação ao euro, porque o Banco Central Europeu precisa emprestar mais 529,5 bilhões de euros (R$ 1,2 trilhão) a 800 bancos, para evitar a bancarrota generalizada.

Como é sabido, dinheiro não dá em árvore. Quando se imprime mais moeda, ela se desvaloriza. Simples assim.

Mas o Brasil, em contrapartida à emissão de moeda estrangeira, não está queimando notas de real, como fez no passado com o café, para que se valorizasse. Na realidade, o real não se valorizou. É o dólar que está valendo menos. No Brasil, a queda do dólar se acelera em razão do excesso de oferta, mesmo que o brasileiro comum se esforce para queimar o excesso. Aproveitando os preços relativamente mais baixos lá fora, nunca viajaram tanto ao exterior, nunca queimaram lá tantos dólares.

Por que há tanto excesso de dólares aqui? Uma explicação pode ser encontrada hoje na “Folha de S. Paulo”. O jornal informa que a dívida externa dos bancos brasileiros dobrou “entre o fim de 2009 e setembro de 2011, saltando para o equivalente a R$ 313 bilhões.” Os bancos buscam recursos baratos no exterior e emprestam aqui aos consumidores, como nunca, cobrando os juros mais caros do mundo.

Um bom negócio para os bancos, mas, se a situação externa mudar de repente, eles ficarão em dificuldade. “Em relatório recente, o banco Morgan Stanley incluiu o Brasil em um grupo de países emergentes mais vulneráveis a uma mudança no contexto externo”, informa a repórter Érica Fraga, de São Paulo.

Eu diria que os banqueiros, vivessem em outro país, enfrentariam outro risco: o de serem presos. Pois, suspeita-se que parte do dinheiro que entrou no país nos últimos anos como investimento direto (IED) teve como destino o mercado financeiro – uma fraude cometida por banqueiros que têm como único objetivo pagar menos tributo. Fraude contra a Receita Federal: nos Estados Unidos, nos bons tempos, Al Capone acabou preso por isso.

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