O prédio de muitas janelas

Fotos: CMC

A janelona do meu quarto dá para várias janelas de um prédio vizinho.

E eu, que sempre dizia que paulistano não gosta de observar a janela, mordo minha língua diariamente desde que me mudei para este apartamento.

Porque ali está o cara sem camisa que fala ao telefone e fica olhando para cá.

E ali está a menininha de sete anos que fica brincando no parapeito olhando para baixo.

E a senhora que mexe na cortina e às vezes espia para fora.

E o adolescente com cabelo esquisito que ficou me mirando por tantos minutos, enquanto eu trabalhava no computador, que me senti desconfortável e quase fechei a persiana.

Tem também a dona de casa, ou empregada doméstica, que está sempre limpando o vidro da janela.

Nas duas janelas acima do cara sem camisa, e uma abaixo da dele, outros caras na mesma faixa etária — lá pelos 30 e poucos — que também gostam de aparecer sem camisa e ficar bebendo ou fumando, enquanto olham o nada.

Sim, porque a vista deles (e a minha) não é para a rua, mas para outras casas e prédios feios e com a tinta descascando das paredes.

Às vezes me perco olhando para aquele prédio de janelas coloridas e rostos que se revezam e muitas vezes me encaram e até desafiam.

Tento imaginar quem são essas pessoas, se moram sozinhas ou com família, se pagam aluguel como eu ou se são donas daquele apartamento. Por que pintaram a parede do quarto de um rosa tão brega, por que puseram uma cortina na sala amarela e com flores azuis que mais parecem astros cheios de espinhos. Por que sempre têm roupa estendida no varal. Por que nunca recebem visitas naquele sofá.

E, é claro, por que diabos gostam tanto de espiar a janela e me obrigam a trocar de roupa no banheiro todo dia.

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