De carecas, trombadinhas e surras

Vocês vão entender a escolha da foto 🙂

“Está vendo aquele carequinha, com bermuda e sacola de compras na mão?”, perguntou o taxista, quando o carro parou num semáforo do Viaduto do Chá, centro de São Paulo.

Depois de muito procurar, na expectativa de que fosse alguém importante ou que dele viesse uma história sensacional, ouvi a resposta:

“Viu lá? Então, o que são dois pontinhos na cabeça dele?”

“?”

“Dois piolhos sem-teto! Hahahahahaha!”

Assim começou o repertório do taxista, que trabalha no centro da cidade há uns 40 anos. Mas esta foi a única piada (politicamente incorreta) que ele contou.

Em seguida, desfiou uma história bem mais triste:

“Sempre acerto. Outro dia vi um sujeito olhando pros lados e falei com o passageiro: ele vai assaltar alguém. Não deu outra. E também já vi dois trombadinhas andando aqui perto e comentei: vão bater carteira de alguém. Mas o que eles fizeram foi muito pior. Roubaram de um velhinho, todo estrupicado, que estava pedindo esmola na rua. Pegaram todo o dinheiro dele e, não satisfeitos, pediram mais. Como ele não tinha, começaram a chutar ele.”

Que horror!

“O passageiro ficou tão triste quando viu aquilo que saiu do carro pra dar um susto neles. Falei: não bate neles, senão você que vai pra cadeia! Mas ele não conseguiu nem alcançar os moleques.”

Mundo cão, pensei. E teve mais.

“Tem gente que vai entrar na briga dos outros e só se dá mal. Outro dia um amigo meu foi defender o marido, que tava apanhando da mulher com uma vara. Resultado: ele acabou com essa parte em cima do olho sangrando toda. Machucou feio mesmo.”

E ele ria, ria, ria, enquanto lembrava mais histórias do amigo azarado. Achava mais engraçadas que a piada dos piolhos sem-teto.

A única hora em que ficou triste foi ao falar o quanto o crescimento de São Paulo piorou o negócio dele.

“Antes eu não ficava nem cinco minutos parado no ponto, sempre tinha cliente. Agora às vezes fico duas horas encostado e ninguém quer pegar táxi”, lamentou.

Fiz as contas. R$ 3 pelo metrô ali pertinho ou bandeirada de R$ 4,10 + bandeira de R$ 2,50 ou R$ 3,25 + hora parada de R$ 33?

O táxi de São Paulo é um dos mais caros do país, se não o mais caro, mas, pelo menos, muitas vezes vem com boas histórias.

(Vejam outra história de taxista AQUI.)

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