“É pelas mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando”

Reprodução/Facebook

Reprodução/Facebook de Nana Queiroz

Até quinta-feira da semana passada, a jornalista e escritora paulistana Nana Queiroz, de 28 anos, tinha uma vida tranquila: trabalhava oito horas por dia, como editora de cultura do jornal “Metro”, em Brasília, ia e voltava de bicicleta para casa, curtia o marido e o cachorro nas horas de folga. De lá pra cá, ela tem que administrar cinco horas diárias de sono com entrevistas a veículos de imprensa do mundo inteiro – do “Wall Street Journal”, nos Estados Unidos, à BBC britânica, à árabe Al Jazeera, passando ainda por jornais de Japão, França, Austrália, e de todas as partes do Brasil.

Tudo porque ela decidiu protestar contra o assédio sexual vivido pelas mulheres – e tabulado em pesquisa do Ipea, divulgada na última quinta-feira, 27 de março – criando um evento no Facebook, naquele mesmo dia, em que convidava as internautas brasileiras a fazerem topless e empunharem uma placa de escrito óbvio (mas, infelizmente, nem tanto): “Eu Não Mereço Ser Estuprada”. A própria Nana ilustrou o convite com uma foto em que aparece seminua, em frente ao Congresso Nacional. O resultado foi rápido: 45 mil pessoas, inclusive algumas bem famosas, deram apoio à causa – e começou toda essa repercussão mundial que sacudiria a vida pacata da escritora.

Para a entrevista abaixo, Nana tirou 25 minutos da sua noite de quarta-feira (2/4), enquanto estava em trânsito no carro, a caminho de uma fotografia que faria para uma revista de circulação nacional, para conversar comigo por telefone. Com a fala ultrarrápida e articulada, mostrando uma cabeça com as ideias fervilhando, ela pontuou suas convicções de maneira bastante enfática, que tentei reproduzir com os devidos pontos de exclamação.

Aqui, ela conta como sua vida pessoal virou de cabeça para baixo, fala das ameaças que sofreu e dos apoios que recebeu (até a presidente Dilma Rousseff a apoiou pelo Twitter), fala dos abusos sexuais que já viveu no passado e de como está se articulando, com ajuda de autoridades políticas, para que projetos que combatem os crimes sexuais contra as mulheres sejam aprovados no Congresso Nacional. Confira a conversa na íntegra, abaixo:

***

Como surgiu a ideia de fazer essa campanha?

Quando saiu a pesquisa Chega de Fiu Fiu [em setembro de 2013], fiquei pensando muito sobre como as mulheres eram tratadas, como o corpo delas era tratado, e resolvi começar a responder na rua quando os homens me ofendiam ou faziam xavecadas de mau gosto. Isso foi crescendo, crescendo, e, quando saiu a pesquisa do Ipea, explodiu.

Você se considera feminista? Se envolvia em movimentos feministas antes?

Eu me considero. Mas sempre achei que minha militância no feminismo ia se manifestar em livros e reportagens. Estudo há muito tempo o sistema carcerário feminino – no fim do ano vai sair meu livro “Presos que Mestruam”, pela editora Record – e eu já pensava que meu próximo livro ia se chamar “Estupro”. Mas nunca imaginei que eu ia botar minha cara na rede ou fazer reunião com autoridades, achava que isso estava muito além de mim.

E de onde surgiu essa ideia de colocar a “cara na rede”, afinal?

Na hora [que viu a pesquisa do Ipea] bateu na minha cabeça: “Ah é? Não posso mostrar meu corpo, que aí eu mereço ser estuprada? Então vou mostrar meu corpo e esfregar na cara de todo mundo que eu NÃO mereço!” Só isso! E surgiu, não me pergunta de onde. Eu animei as colegas que estavam do meu lado naquele momento – uma topou fazer o topless e a outra não –, depois chamei outras quatro pela internet, elas toparam e, de repente, a coisa ficou desse tamanho. Nunca esperava que fosse participar tanta gente, imaginei que seriam no máximo cem pessoas, e, quando vi as 45 mil, fiquei enlouquecida.

Como você faz para administrar um movimento que nasceu despretensioso e se tornou essa bola de neve?

Na própria quinta-feira eu já recebi o auxílio de várias mulheres e homens para moderar o grupo. Estão fazendo um trabalho incansável, até as 4h da madrugada, moderando a discussão, para criar um ambiente seguro para as mulheres, banindo ameaças ou ofensas. A gente agora também tem uma assessora para mídia internacional e uma promotora cultural, que está tentando organizar um grande evento aqui na Esplanada, com shows de artistas mulheres, para defender o tema. Acreditamos que não é tanto uma questão de protestar, mas de promover a ideia. Estamos convidando a Gaby Amarantos, que lançou uma música que pode ser o hino da campanha – Não vou mudar o meu look– e a Daniela Mercury. A ideia é que essas artistas façam um trabalho voluntário pela causa, porque não temos nenhum meio de pagá-las – eu mesma estou tirando dinheiro do meu bolso para a campanha.

Você pediu licença do trabalho?

Pedi, porque não tenho condições [de conciliar]. Meu chefe está me apoiando integralmente. Eu ia voltar ao trabalho hoje [quarta-feira], mas ele concordou que eu volte na semana que vem.

“Agora minha mãe tem que marcar horário pra falar comigo!”

Como foi essa sua semana?

Louca, louca. Eu tinha consulta marcada e não fui, meu cachorro tinha veterinário e não foi. Meu marido cancelou uma viagem que faria a trabalho, e eu parei de trabalhar. Estou o tempo inteiro, continuamente, respondendo a mensagens, emails, entrevistas, falando com autoridades, fazendo campanha. Não tenho dormido, só cinco horas por noite – teve uma noite em que eu dormi por três horas.

Antes, minha vida era muito tranquila. Eu ia de bicicleta para o tralho, trabalhava oito horas por dia. Não sou workaholic, valorizo muito o tempo que eu passo com meu marido em casa, sou muito presente na vida dos meus cinco irmãos, falo com muita frequência com eles, e agora minha mãe tem que marcar horário pra falar comigo!

Mas sua família está apoiando essa campanha?

Meu pai, no início, ficou sentido com a foto em que eu aparecia seminua; ficou com medo de eu ser agredida, de o pessoal do trabalho tirar sarro da cara dele (rs). Mas agora ele percebeu o tamanho da coisa e está me apoiando integralmente.

“A cada dez mensagens de apoio que recebi, uma foi de agressão”

E você, teve medo? Já pensou: “Putz, onde fui me meter?”

Nunca me arrependi – pelo contrário, sempre tive uma inquietação muito grande de que eu deveria fazer alguma coisa pelas mulheres. Pela primeira vez, essa inquietação está silenciando no meu coração.

As reações foram mais de apoio ou te xingando?

Mais de apoio: a cada dez mensagens de apoio, uma de agressão.

Ficou espantada com essas mensagens de agressão?

Eu esperava agressão, mas não esperava ameaças [de estupro], né? Estas me espantam. Procurei a polícia, e é uma burocracia tremenda para descobrir um agressor na internet hoje. Procurei a Delegacia da Mulher, e aqui em Brasília eles têm UM investigador especializado em crime virtual. Um só, acho pouco demais! Estou procurando tempo para ligar para o governador para pedir a ele que contrate pelo menos mais uma pessoa.

Desde que começou a campanha, também surgiram muitos homens falando que estupram mesmo, e teve até um que divulgou um vídeo falando isso, sem medo de esconder o rosto. Você acha que a cobertura jornalística deve mostrar sempre, ou é melhor não dar visibilidade a essas pessoas?

Minha opinião é que a imprensa deve, sim, divulgar, para que a identidade dessas pessoas seja revelada. E a imprensa é também um importante meio de pressão para que a Justiça faça algo a respeito.

Você já disse em outras entrevistas que seu marido [o também jornalista João Fellet] também sofreu ameaças. Como ele está reagindo a essa semana?

Nossa relação tem sempre sido eu abdicando de coisas pelo João, largando meu emprego para morar com ele, e ele sempre me dizia que, algum dia, iria me devolver. Agora ele está devolvendo (rs). E está feliz em me ver sanar uma inquietação que eu tinha.

“É difícil encontrar uma mulher brasileira que não tenha sofrido algum tipo de abuso”

Muita gente questionou a credibilidade da pesquisa do Ipea. A metodologia, os números, o termo escolhido (“atacada”). Como você vê a pesquisa que foi seu estopim?

Foi superimportante. Se eu duvidava dos resultados, depois das ameaças que recebi, não duvido mais. O uso da palavra “atacada” é extremamente preciso, porque, no Brasil, as pessoas acham que, se não teve penetração, não é estupro. Mas é sim! Uma mulher atacada é uma coisa gravíssima, seja qual for o ataque, seja verbal ou físico. Eu não tenho nada a ver com o Ipea, não fiz a pesquisa, e as pessoas têm todo o direito de criticar a pesquisa, mas não devem diminuir o significado da palavra “atacada”.

Você já sofreu algum abuso sexual?

Nunca fui estuprada, mas já sofri abusos, como todas as mulheres. Quando eu tinha 14 anos, um velho, nojento, escroto, foi atrás de mim no carro, me seguindo numa rua escura, se masturbando e falando barbaridades. Já teve gente passando a mão em mim em baladas, no Carnaval etc. É difícil encontrar uma mulher brasileira que não tenha sofrido algum tipo de abuso. É importante dizer que, sim, isso é abuso, isso é gravíssimo. Passar a mão numa mulher numa balada é uma coisa animalesca, é deplorável, não é menos grave do que atacar e bater.

As pessoas têm que entender isso, o homem brasileiro tem que parar com esse comportamento. Principalmente nossos adolescentes, porque eles são os que estão fazendo o clima de ódio na internet contra as mulheres, eles são as pessoas que passam a mão nas baladas, eles são os caras que beijam a mulher à força. Por isso que eu estou batendo nessa tecla com os deputados: a gente tem que educar essa molecada! Essa molecada tá achando que estupro é piada, e eu não sei qual é a graça. Ninguém tá rindo!

Com quais deputados você já falou?

Jean Wyllys (Psol-RJ), Érika Kokay (PT-DF), a senadora Vanessa (PCdoB-AM) me telefonou, a ministra Eleonora Menicucci (Secretaria de Políticas para as Mulheres) também… Nós estamos pensando em focar essa campanha na prevenção. A gente acredita que a melhor maneira de prevenir é educar, fazer com que os homens não se transformem em estupradores. Estou entrando na campanha para que o Plano Nacional de Educação, que está sendo votado nas próximas semanas no Congresso, inclua o ensino de questões de gênero nas escolas.

O outro foco da nossa campanha está na inclusão de crimes virtuais contra a mulher na lei brasileira. A gente aposta muito mais na indenização e no trabalho voluntário em instituições femininas – lares de senhoras, prisões e hospitais femininos etc – do que na cadeia. Essas pessoas merecem ser educadas e punidas. Legisladores estão dando umas ideias, professoras estão dando outras, advogados também. Muitas mulheres dizem no grupo [do Facebook] que foram estupradas por alguém da família e não tiveram coragem de denunciar. Queremos que um amigo que viu ou soube do crime possa denunciar no lugar dela.

“A ideia agora é fazer o tema ser debatido à exaustão e o Congresso aprovar algumas medidas em nosso favor.”

Qual o futuro desse movimento? Vão fundar uma associação, por exemplo?

A ideia de criar uma associação não passou pela nossa cabeça. Imagino que o debate deve se seguir muito forte por mais algumas semanas, o grupo do Facebook deve ser mantido pelos moderadores, e nossa expectativa é que esse movimento funcione como uma espécie de Marcha das Vadias: entre em ação nos momentos críticos, mas sem se institucionalizar. A ideia agora é fazer o tema ser debatido à exaustão e o Congresso aprovar algumas medidas em nosso favor.

Ao mesmo tempo em que os números do Ipea mostram uma realidade tão ruim, temos movimentos crescendo no sentido oposto, como o seu. Você vê algum progresso nessa luta, está otimista?

Acho que a gente já está progredindo há um tempo, desde que a escolaridade feminina começou a aumentar, desde a primeira heroína que saiu de casa quando o marido bateu nela. A luta feminina tem sido uma luta a passos curtos, mas o empoderamento da mulher é a melhor maneira de fazer com que a coisa mude – não só o econômico, mas também o empoderamento de autoestima. Temos que abominar a prática de botar a mulher “photoshopada” na revista – aquela mulher não existe e faz as outras se sentirem péssimas.

Essa cultura contribui para que tantas mulheres estejam te agredindo também?

Acho naturalíssimo que elas me agridam: o pai dela e o namorado a agride e manda nela, então é claro que ela vai me agredir. Ela é muito mais vítima do que eu, porque nem opinião própria ela pode ter. É para as mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando. É por elas. É por essas mulheres que estão no fundo do poço absoluto, que é o fundo do poço de achar que são cidadão de segunda categoria.

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8 comentários sobre ““É pelas mulheres que estão me agredindo que eu estou lutando”

  1. Esta é uma luta de todas nós! Parabéns Nana Queiroz! Parabéns Cristina Moreno! Mulheres corajosas de hoje, enfrentar o machismo impresso em nossa cultura e que se manifesta em nosso cotidiano, como mulheres livres e desejosas de viver é um ato de coragem, de liberdade!
    Muito bonito este movimento, estamos juntas nesta luta! Abraços solidários!

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  2. Este grave problema social do estupro, seja psicológico ou físico, seja desde uma simples palavra conectada com violência sexual ou uma foto ou um toque impróprio num transporte público, é desde sempre e para sempre uma luta diária da mulher contra o machismo chauvinista do ser humano.
    É um tema regional, estadual, mundial, que eu tenho acompanhado e conversado em família, o qual pode ser abordado dos mais variados modos, mas neste momento vou abordá-lo com um vídeo indiano.

    http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/10/video-que-ironiza-culpa-da-mulher-em-caso-de-estupro-faz-sucesso-na-india/

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