“Mamãe não trabalha”

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Quando eu tinha lá meus nove anos de idade, aluna da 3ª série da Escola Estadual Barão do Rio Branco, fui apresentada a um conto que muito me marcou e ajudou a moldar minha visão sobre as mulheres na sociedade.

Profundo isso, não? Mas imaginem que, vinte anos depois, o texto tenha vindo na minha cabeça inteirinho, mesmo com minha crônica memória fraca, e eu o tenha encontrado em dezenas de sugestões de textos didáticos na internet. Sinal de que é mesmo um texto poderoso, que influenciou muitas gerações.

Trata-se do “Mamãe não trabalha”, de autoria atribuída a Hália Pauliv de Souza, que pode ser lido, por exemplo, na página 67 deste material didático para professores do Rio de Janeiro.

Reproduzo abaixo:

“Era uma vez uma mulher que perdeu seu nome de batismo, ou melhor, trocou-o por outro muito usado: o de Mãe. Sendo mãe, tornou-se uma pessoa essencialmente chata.
A maior cobradora da paróquia: faça isso, faça aquilo… O relógio toca. Começa a batalha.
— Vamos acordar, pessoal! Corre liga a água para o café. O leite também (quando tem).
— Vamos, crianças, vistam o uniforme. O pai já está no banho.
— Rápido. Tem aula. Coa o café. Serve a mesa.
— Vamos, pessoal. Olhe a hora. Comam todo o pão. Escovem os dentes.
Pronto. O marido foi para o trabalho e os filhos para a escola.
Trocou de roupa, tirou a mesa, limpou a louça do café. Arrumou as camas.
Varreu a casa. Retirou o pó dos móveis.
Chegou o verdureiro.
Feitas as compras, corre ao açougue. Aproveita a saída e passa pelo banco e paga as contas de água e luz. Volta correndo. Faz o almoço.
Olha o relógio. Está na hora do marido e das crianças chegarem.
Chegaram. Serve o almoço.
— Menino, não belisque sua irmã!
O pai pede que lave seu macacão.
Conta que hoje o trabalho melhorou um pouco, mas é para cuidar das despesas. Breve repouso e volta ao serviço. A mãe lava a louça do almoço.
A filha seca os pratos e o filho os talheres e se manda para o quintal. O cachorro aparece com os pelos da cauda bem aparados.
— Esse menino! Foi por isso que ele pegou a tesoura…
— Crianças, façam a lição.
— Sim, claro, arranjar figuras para a tarefa de Geografia.
Costurar a barra da calça do menino.
Pregar botão na blusa da menina.
— Mãe, amanhã é aniversario da professora.
Tenho que levar um bolo. Pronto.
O bolo está no forno. Enquanto assa, lava o macacão.
— Vamos ao dentista. Cuidado ao atravessar a rua.
Passam na panificadora. Voltam para casa.
— Tomem banho!
Providenciar o jantar.
— Não gosta de ovo? Tem que comer. Faz bem para a saúde. Fiquem quietos. Deixem o pai assistir ao noticiário sossegado. Ele está cansado, trabalhou o dia todo. Vão para o banho! Já arrumaram o material para a aula de amanhã? Mas que turma! Desde que chegamos do dentista estou dizendo pra irem pro banho.
Todos deitados. Verificação total da casa.
Deixar a mesa arrumada para o café matinal. Ora veja!
O menino esqueceu de guardar o caderno. Abriu-o.
Deu uma olhada na lição.
Ele preencheu uma página com dados pessoais: seu nome completo, data de nascimento, local, e também dados familiares. Profissão do pai: mecânico.
Profissão da mãe: não faz nada, só fica em casa.”

O texto tem algumas imprecisões modernas, mas reproduz muito bem uma realidade de uma dona de casa, vinte ou trinta anos atrás (e algumas de hoje em dia). E causa o impacto na criança que o lê, aos nove anos, e descobre, sozinha, a existência de outras formas de trabalho. Há o mecânico, o jornalista, a psicóloga, o médico, o engenheiro… e a mãe. (Hoje em dia, mundo mais equilibrado, há também a divisão de tarefas que leva à “profissão” do pai.)

Um site especializado em carreiras fez um estudo em que estimou que as mães, se fossem recompensadas financeiramente por seu trabalho, ganhariam um salário anual de R$ 227,2 mil — ou R$ 18.933 por mês. A forma como o cálculo foi feito está NESTA matéria. “O estudo considera que mulheres com filhos acumulam as funções de presidente-executivo da casa, gestor de infraestrutura, lavadeiro, operador de computador, faxineiro, cozinheiro, professor de creche, chofer, zelador e psicólogo”, diz o texto.

O estudo também considerou a mãe que concilia os afazeres de casa com uma carreira fora de casa. Minha mãe era assim. Conciliava dois empregos de psicóloga fora de casa com o trabalho dentro de casa, de administração financeira e cuidados com os quatro filhos — contando com a parceria do meu pai, que também trabalhava suas 12 horas por dia.

E há quem bate ponto de oito horas por dia, paga faxineira (achando ruim que as domésticas conquistaram, de forma bastante atrasada, parte dos direitos de outros trabalhadores e não podem mais ser escravizadas), tem só um filho ou nenhum, conta com a divisão de tarefas com o marido (que deveria ter existido desde sempre), e ainda reclama que trabalha demais.

Não leram o texto de Hália Souza. Nem conheceram meus pais.

Espero que as escolas de hoje ainda apresentem esse texto a seus alunos, ou ao menos uma adaptação mais moderna dele, que ainda valorize o trabalhoso trabalho doméstico e de cuidado com os filhos.

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2 comentários sobre ““Mamãe não trabalha”

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