Ir para conteúdo

‘Klara e o Sol’: sobre pessoas insubstituíveis e o que podemos nutrir por elas

A menina e o sol. Em foto de Sasha Freemind / Unsplash

“Klara e o Sol” já chama a atenção, de cara, por sua narradora excepcional. A Klara, que conta tudo em primeira pessoa, não é uma pessoa. Ela é uma inteligência artificial. Como tal, ela tem um jeito todo peculiar de ver as coisas e de se referir a elas. Mas é perspicaz e observadora como uma criança comum.

Assim como ela, estamos descobrindo este mundo fantástico e futurista criado por Kazuo Ishiguro aos pouquinhos.

Nos primeiros momentos do livro, ela só conhece a loja em que vive, os outros AAs (amigos artificiais) e a Gerente — assim mesmo, em caixa alta, como se a função fosse o nome dela. Portanto, não esperem que Klara entenda muito melhor que a gente o que está acontecendo.

Mas ela vai aprendendo. E vai traduzindo tudo pra gente, descortinando, daquele jeito especial que esse autor tem de revelar os mistérios aos pouquinhos, deixando ainda vários fios soltos no ar, pra nos agarrarmos nesse suspense e nunca termos vontade de deixar de ler.

Leia também as resenhas de outros quatro livros de Kazuo Ishiguro:

Dos cinco livros que já li de Ishiguro, todos excelentes, acho que este mais recente dele foi o mais instigante. Ao mesmo tempo em que é uma ficção científica, com pitadas de “Black Mirror”, ele nos faz pensar sobre tanta coisa que é quase também uma alegoria — sobre amizade, sobre amor, sobre o que temos de especial em cada um de nós, sobre os rumos que esta sociedade doida em que vivemos pode tomar, sobre desigualdade, sobre fé, e até sobre deus.

Outra palavrinha muito repetida neste livro é “solidão”. O que somos capazes de fazer (ou imaginar fazer) para não nos sentirmos sós? Será possível seguir em frente quando perdemos a pessoa mais importante de nossas vidas? Esta é só uma das reflexões que surgem ali no meio desta historinha cheia de ternura, boa vontade e inocência.

Quando eu já estava para acabar, faltando umas 30 páginas para chegar ao fim do livro, fiquei com dó de perder a companhia de Klara e dos demais personagens e enrolando para terminar, pesarosa. Quando terminei a leitura, senti aquela tristeza que só os bons livros nos proporcionam quando terminamos de lê-los. “Ai, acabou!”

Mas este é certamente um livro para ler mais uma, duas, três vezes. E tenho certeza que as próximas experiências vão ser diferentes da primeira, porque já saberemos de antemão muitas coisas que Klara só vai entender no fim.

E, entre uma leitura e outra, espero aproveitar muitas vezes a “nutrição especial do sol”, como diz a doce Klara. E a companhia de pessoas que são, todas elas, insubstituíveis.

 

Klara e o Sol
Kazuo Ishiguro
Tradução de Ana Guadalupe
Editora Companhia das Letras, 2021
330 páginas
R$ 47

 

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: