Ir para conteúdo

‘O Gigante Enterrado’: um livro sobre a memória, pessoal e coletiva

A árvore na capa de “O Gigante Enterrado”.

Logo no início deste livro absolutamente fantástico, somos apresentados a um casal de velhinhos, Axl e Beatrice. Eles parecem viver em eterno esquecimento. Aos poucos, vamos percebendo que não são só eles: ninguém parece reter nenhum tipo de memória por ali. As pessoas vivem apenas no presente, esquecendo-se rapidamente do que acontecera dias antes, ou até mesmo alguns minutos antes.

Você também pode se interessar:

Axl e Beatrice lembram vagamente de terem um filho. E, um dia, resolvem fazer uma viagem até ele. Mas não sabem como ele é, onde mora ou por que ele foi embora.

E a história que transcorre nessas quase 400 páginas é sobre esta jornada dos dois velhinhos em meio a essa névoa de esquecimento generalizada, em busca de um filho que eles insistem em dizer que os espera ansiosamente, mas que nem sabem onde está. Um percurso árduo, cheio de ogros, fadas malvadas, dragões, guerreiros desconfiados e cavaleiros dementes, por um objetivo que parece intangível.

A narrativa de Kazuo Ishiguro é quase como a que conheci em seus outros livros, “Vestígios do Dia” e “Não me Abandone Jamais“: construída em torno de lembranças, de casos, de alguém contando alguma coisa que vai continuar depois. Mais ou menos como descrevi em “Não me Abandone Jamais”:

“Não sei se deu para entender o ritmo do livro, mas é uma sequência de pequenas lembranças preciosas sendo recordadas, sempre costuradas desta forma, com um breve suspense para o que vem depois. E a gente não quer abrir mão de saber logo o que vai acontecer.”

A diferença é que, desta vez, as memórias são truncadas, os personagens sofrem para encontrá-las, então a história corre de forma estrangulada, com o presente sendo mesclado por um passado em conta-gotas. Ah, e o narrador desta vez é em terceira pessoa.

É só no fim que entendemos por que as memórias de todos se apagaram, como ela pode voltar – e a que custo.

O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro

E este livro traz reflexões muito preciosas sobre a importância dessa memória coletiva que temos, seja para reparar danos, para punir culpados ou para superar barbáries. E também sobre o impacto das memórias em nossas vidas pessoais. Como é viver por décadas ao lado de um companheiro ou companheira sem saber qual foi a história construída a dois, com todas as suas alegrias e dores? E mais: como é recuperar essa memória, por fim?

Um casal de velhinhos sobrevive a suas próprias experiências?

Um mundo forjado por muitas guerras sobrevive aos horrores das batalhas?

Quantos gigantes precisam ser desenterrados para que os povos superem seus traumas?

O Gigante Enterrado
Kazuo Ishiguro
Ed. Companhia das Letras
396 págs.
R$ 41,89

 


Leia também:

faceblogttblog

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

Um comentário em “‘O Gigante Enterrado’: um livro sobre a memória, pessoal e coletiva Deixe um comentário

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: