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‘Fragmentos de uma boa onda’: poemas com o frescor do presente

O autor e seu segundo livro de poemas. Foto: Reprodução / Facebook

Em outubro do ano passado, fui procurada pelo Júlio Tauil, mineiro de Guaxupé, que disse que tinha acabado de conhecer meu blog e que queria que eu fizesse uma resenha do seu segundo livro de poemas, “Fragmentos de uma Boa Onda”, que foi lançado em novembro pela editora Chiado.

Recebi uma cópia do e-book do livro do Júlio no apagar das luzes de 2020, e terminei de ler em uma única tarde, bastante agradável, do meu último dia de folga deste janeiro de 2021.

É importante deixar claro aqui, como sempre, que não sou crítica literária, e muito menos de poesia. De vez em quando compartilho minhas impressões das minhas leituras aqui no blog, mas como uma amante de livros e uma mera leitora, como qualquer outra. Não sou especialista em nada.

Portanto, sempre que alguém, como o Júlio, me pede para escrever uma resenha, acho importante deixar claro para essa pessoa que faço isso na condição de leitora, mas bem despretensiosa. Quem está acostumado a me ler por aqui nos últimos dez anos e que já viu que tem opinião ou gosto parecidos com os meus pode achar útil o que eu comento sobre alguma obra – e nada além disso.

Na minha profissão, introduções gigantes como a deste post são chamadas de “nariz de cera”. Então agora deixem-me ir direto ao ponto: o livro do Júlio é muito bem escrito, ele domina de verdade a língua portuguesa e até se dá ao luxo de brincar com as palavras como um dos poetas que ele homenageia no texto “Me Dite”, o curitibano Paulo Leminski, nascido 42 anos antes de Júlio Tauil.

Seu livro não tem uma temática única. Ele fala sobre vários assuntos, os tais fragmentos, que ele conseguiu reunir em suas “ondas boas”. Como leitora, os textos mais românticos, digamos, não foram os que me atraíram mais. O verso “Meu tato é o mapa, seu corpo o tesouro”, por exemplo, não foi o ponto alto do livro.

Mas, tirando essas declarações de amor ou os poemas mais afoitos, o que encontrei neste livro foram algumas pérolas de sabedoria sarcástica, repito, muito bem escritas, e que têm um frescor muito grande ao abordar os assuntos contemporâneos: pandemia, fake news, Amazônia e fascismo estão entre eles.

A seguir, vou destacar meus favoritos. Acho que o Júlio não vai se importar que eu coloque alguns trechos, porque ele tem feito o mesmo em sua página no Facebook.

O primeiro poema que me chamou a atenção foi “Tipos de Silêncio”, já na página 13. Um trechinho:

“Silêncio que carrega uma mensagem
Silêncio dolorido de saudade
Silêncio que camufla ansiedade
Silêncio disfarçado de barulho
Silêncio que omite uma verdade
Silêncio mergulhado na visagem”

Mas acho que os poemas de que mais gostei foram os que conversaram mais diretamente com o período em que estamos vivendo, todos mais politizados.

O “2013”, por exemplo, sobre todos aqueles protestos varrendo as ruas. Trecho:

“Nação de confusão faminta
Não sabe se pede o cardápio
ou se vomita sobremesa”

E “Arma-zônia”, que é quase uma crônica do que vimos acontecer na Amazônia no início de 2020. Trecho:

“Neobandeirantes atravessando fronteiras
Navegantes de águas doces
Cruzam selvas,
pirateiam iguarias,
disseminam especiarias Andinas

Subimperialismo tupiniquim: Anauê!
Federal passando pano
Antipresidência no INPEto
de massacrar Flora e Ciência
Consciência amputada no cinismo,
raiz do fascismo.”

E há ainda poema sobre o coronavírus, fincando ainda mais o livro do Júlio Tauil na temporalidade dolorosa de 2020. Como em “Glauber Rosa”:

“Kuárentena
Dysmorfia çossyal
Kultura da Nekropolítyca
synapses-newrotranzmiçores
Brazyl paralerdos
Síndrome Respiratórya Aguda
S.U.B.N.O.T.Y.F.Y.C.A.Ç.Ã.O
Ewgênya Tupynykyn
Sacy Pererê lutando na rua contra o nazi-fascismo
Organizadas pela Demokracya
Curupira passando álcool InJel nus Kalcanhares
“I can´t breath”
Y.N.C.Ê.N.D.E.Y.A
toma a nota derrepúdio aí!”

Ele também foi muito feliz ao abordar um dos maiores problemas que vivemos nos últimos cinco anos e ainda viveremos com mais e mais força nos próximos: as fake news. Está no poema que, de forma maravilhosa, chama-se “WhatsApp”, a rede social de Zuckerberg que é uma das grandes responsáveis pela disseminação da boataria e do negacionismo no planeta:

“Quatro de paus
vem de zap
Truco! Cadê a fonte?
Informações embaralhadas
Naipe de fatos
Checagem das cartas
Investidas mensagens metralhadas
Velha manilha nova
Blefadas, fake news
Desmantelando as covardes jogadas
do gabinete do ódio.”

Para não dizer que só gostei dos poemas mais sérios, destaco o bom humor de “Água Benta” e o ótimo “Obras Penadas”. “Largato” também é muito bom, sobre a opressão “mal-dita” da gramática erudita.

Mas um dos meus favoritos foi bem bairrista mesmo. “Minas já foi mar”, que quase encerra o livro, e que também deve ser um dos preferidos do autor, já que foi o que ele escolheu para me enviar por email e me atrair para a leitura de todo o livro. Vejam por vocês:

“Assim como o Sertão,
Minas já foi mar

Antes das mulas carregadas dos tropeiros,
das Igrejas Barrocas,
do contraste entre pobreza e riqueza,
ou da intimidade entre doença e miséria

Minas, pedacinho de oceano
Foste quadradas águas perdidas
Sem fim, nem começo

Antes dos jantares requintados,
regados a conchavos políticos brindados
Num tempo sem mãos calejadas,
sem ouro verde dominando paisagem

Antes da bandeira escrita em latim,
antes do horizonte belo,
antes dos traços da cabocla
ou clubes, esquinas e serenatas

Minas, labirinto de corais,
nos seus múltiplos cantos e sotaques

Antes da insana busca pelo ouro,
dos Emboabas, do Café com Leite,
do frango caipira ou do Diabo de Guimarães

Antes da viola, dos bandoleiros,
das beatas, putas, mexeriqueiras e neo-coronéis
Minas estava escondida, submersa

Antes dos corpos fatigados na senzala,
do apito do trem, do cheiro de pão de queijo,
da publicidade enganosa do governo,
ou da falsa liberdade de expressão

Cabreiro mar mineiro,
esquecido no suspiro do marulho,
já conspirava poemas eternizados”

Bom, é isso. Recomendo a leitura desses “Fragmentos de uma boa onda”, especialmente dos poemas que acho que conversam mais com o mundo em que estamos vivendo. Poesia é sempre bem-vinda em meio a tanta dureza.

Fragmentos de uma boa onda
Júlio Tauil
Chiado Books
96 páginas
R$ 20 (Kindle ou e-book)
Vejam com o autor como adquirir o livro físico

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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