- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Como acharam que ia dar certo? Todos esses homens e mulheres, políticos e apáticos, esquerdistas e direitistas, socialistas e capitalistas, progressistas e reacionários, democratas e fascistas, rebeldes e conformistas, os corruptos e os fingidos, machistas e feministas, misóginos, misantropos, os místicos e os céticos, heterossexuais e homossexuais, cisgêneros e transgêneros, gregos e troianos, judeus e palestinos, russos e ucranianos, os tímidos e os despudorados, os castos e os prostituídos, indecentes e puritanos, solteirões e polígamos, os bem-humorados e os cínicos, vegetarianos, veganos, carnívoros, os sedentários e os atletas, hipocondríacos e doentes, os drogados, alcoólatras, bêbados sociais, viciados, abstêmios e recuperados, os homeopatas e os alopatas, os obesos e os famintos, homofóbicos, feminicidas, pedófilos, abusadores, psicopatas, sociopatas, racistas, etaristas, os capacitistas e os cadeirantes, os mentirosos, os lunáticos e os ponderados, os eruditos e os rasos, os evangélicos, católicos, muçulmanos, hindus, budistas, espíritas e espiritualizados, macumbeiros e umbandistas, crentes, agnósticos e ateus, fanáticos e sábios, gênios e loucos varridos, pretos, pardos, brancos, amarelos e indígenas, ambientalistas e gananciosos, uma meia dúzia de bilionários, toda sorte de privilegiados e a maioria de pobres e miseráveis, os favelados e os coxinhas, tiranos e escravizados, intocáveis e encarcerados, os médicos e os monstros, os poetas e os cientistas, burocratas e artistas, os influencers e os jornalistas, os comunicadores e os trolls, os alienados e os preocupados, os professores e os charlatães, os patrões e os explorados, os workaholics e os desempregados, os mercenários e os voluntários, os exaustos, estressados, carreiristas, bajuladores e os herdeiros, os boêmios e os caseiros, solitários e festeiros, masoquistas, hedonistas, niilistas e altruístas, tecnológicos e saudosistas, velhos e jovens, os pacientes e os explosivos, gentis e agressivos, os solícitos, solidários, generosos e os egoístas, os empáticos e os mesquinhos, os impulsivos e os pensativos, os ativistas e os consumistas, os idealistas e os negacionistas, lógicos e terraplanistas, atleticanos e cruzeirenses, roqueiros e sertanejos, predadores e criancinhas.
Como acharam que ia funcionar? Todos esses tipos, toda essa gente, mais de 8 bilhões de pessoas, fora as mais de 900 milhões de cabeças de gado, todos os outros animais, as cinco nonilhões de bactérias, as plantas, casas, todas as coisas, são tantas COISAS!, os móveis e imóveis, carros e caminhões, trens e aviões, todos os eletrodomésticos e eletroeletrônicos, os minerais raros que os compõem, as mineradoras e minerodutos, os data centers, o lixo e as sucatas, tudo isso, tudo isso junto, vivendo sobre uma casquinha, uma crosta de até 80 km de espessura envelopando um caldeirão insalubre e hostil, cheio de elementos radioativos, gases tóxicos, altíssima temperatura e pressão, toda essa gente impossível, vivendo junta em uma área de 150 milhões de km², cercada por outros 360 milhões de km² de mares e oceanos, ainda tendo que se espremer entre 195 países, falando mais de 7.100 línguas diferentes. Sem se entender, se desentendendo sempre.
Como, me digam, alguém, do divino ou do acaso, achou que isso ia dar certo? Que conseguiríamos conviver com todas essas diferenças e discórdias, com as insuportáveis desigualdades, ontem, hoje, qualquer dia? Com respeito e tolerância, harmonia e equilíbrio, flexibilidade e união, compreensão, sensibilidade, fraternidade, amor? Se a lei universal que rege tudo isso é a do benefício próprio, do preciso-tirar-vantagem-a-qualquer-custo, do olhar pro próprio umbigo, do outro que se exploda?
Adivinhem! Não conseguimos: a história da humanidade é esta história de guerras sem fim, revoltas, revoluções, traições, golpes e muito ódio, em que a última bandeira que se pensa em hastear é a da paz (aliás, como ter paz diante do atroz?). Os humanos são a única espécie que está pavimentando a própria extinção. Quanto tempo vai levar até que sejamos extintos por conta do aquecimento global e de tudo o que fizemos conosco e com a Terra? Milhões de anos? Trezentos? Ou só trinta? Há quem diga que a IA já vai nos dizimar até o fim desta década (não dizem como, mas dizem).

Tem como manter o otimismo e a esperança? Como pensar que a próxima geração vai ser melhor, mais consciente, racional, saudável, humana, inclusiva e justa, quando a última geração trouxe as bets, o Discord, os red pills e o caminho para o fim da democracia?
O que vem depois? O que ainda podemos fazer, sozinhos ou no coletivo? Dá pra fazer alguma coisa? Haverá saída?
E uma última pergunta: isso é um planeta ou uma armadilha?
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