- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Ela era uma mulher absolutamente normal. Era alta, muito magra, tinha o cabelo pintado de verde-lima e umas tatuagens de um vermelho bem vivo, que escorriam de seus braços brancos como se fossem gotas de sangue. Mas, fora isso, era mesmo totalmente normal.
Sempre que andava pelas ruas, sua aparência inevitavelmente chamava a atenção. Aqueles mais próximos, mais extrovertidos ou curiosos não resistiam e perguntavam: por quê? Alguns, mais abusados, sugeriam: quer chamar a atenção?
A resposta nunca era tão esotérica, doentia ou fabulosa como esperavam. Nenhum motivo que merecesse ter saído de um roteiro de filme.
Aos poucos, aqueles que conviviam com ela acabavam por se acostumar. Passavam a ver aqueles veios vermelhos como se fossem uma pinta na bochecha, que, depois de um tempo, ninguém mais enxerga.
O cabelo verde, que antes parecia magnético, agora era como uma mecha grisalha que às vezes causa estranheza no início, mas acaba se incorporando ao rosto de forma totalmente óbvia.
Até mesmo a altura e a magreza impressionante passavam batido, como de resto acontece com os amigos obesos, as muito peitudas, os musculosos demais: todos completamente invisíveis aos olhos acostumados.
Mas um mistério ainda pairava para os olhos inéditos, para quem cruzava seu caminho pela primeira vez. No início, viam os tufos verdes, que cairiam muito bem num duende, mas vinham de uma figura com mais de um metro e oitenta de altura. Depois, percorriam os braços finos, tentando entender por que eram tão brancos e que coisas eram aquelas, vermelhas, por toda parte, como uma alergia incurável.
Desviavam o olhar, rapidamente, envergonhados. Não queriam ser pegos no flagra, admirando uma paisagem que parecia meio deslocada, como se um pedaço de praia surgisse depois de uma esquina em Belo Horizonte.
Mas logo não resistiam e olhavam uma segunda vez, até virar a cabeça para continuar tateando com a vista, tentando absorver o quê, como, e, principalmente, por quê.
Seguiam o caminho de casa, ainda se perguntando tudo isso, sem imaginar que ela fosse, na verdade, tão tão normal. Sem imaginar que o único motivo foi ela querer, justamente, atrair olhares e, principalmente, perguntas. Se transformar, poucos segundos a cada vez, em um mistério, em uma incógnita, em um ser quase místico, em uma louca varrida.
Tão normal, tão absolutamente normal, que ela quis criar um mundo à parte para si, criar uma narrativa, virar uma narrativa. Sorriu, pensando isso tudo, depois que mais um pescoço se virou em sua direção. De novo.
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