Antes de mais nada, acho que vale situar este livro em sua categoria certa. Para mim, ele é um conto de fadas. Mas sua protagonista, Elizabeth Zott, está longe de querer um príncipe encantado, como os Irmãos Grimm imaginavam para suas cinderelas.
Ela quer é ser respeitada por suas habilidades profissionais. Na verdade, ela quer ser respeitada e ponto.
Dito isso, eu queria comentar como as frases escolhidas pelos editores para tentar vender o livro, ao longo da capa e contracapa, me pareceram deslocadas da obra de estreia de Bonnie Garmus:
“Um romance que espalha alegria a cada página”. Oi? Será que ela leu o mesmo que eu li?
“Um romance espirituoso e otimista”, diz outra.
“Engraçadíssimo e cheio de vida, generosidade e coragem”, diz uma terceira.

Mas o grande problema do romance de Garmus, na minha opinião, foi justamente a falta de humor. Ele também é um tanto inverossímil em alguns aspectos, mas isso é perdoável nos contos de fadas. O fato é que Elizabeth Zott, a protagonista tão admirável – em vários sentidos – não pode ser admirada por seu senso de humor, alegria ou graça.
Ela é daquelas pessoas incapazes de sorrir, ou que desaprenderam a fazê-lo. E não adianta dizer que é porque as histórias descritas nestas quase 400 páginas são tapas na cara de qualquer mulher (de novo: de onde a pessoa tirou que o livro “espalha alegria a cada página”? Ficamos indignadas, frustradas, revoltadas e tristes em momentos de sobra, diante da servidão a que as mulheres eram – eram? – submetidas naqueles anos 50 e 60). Afinal, abundam na literatura personagens tão ou mais trágicos, mas que souberam lidar com suas desgraças com algum humor.
Apesar dessa crítica que estou fazendo, o livro, no geral, é muito bom. E a personagem Elizabeth é realmente daquelas que a gente torce por ela instantaneamente, por mais fleumática que às vezes possa parecer.

Como disseram as outras aspas das orelhas do livro, com as quais, agora sim, concordo:
“Elizabeth Zott me arrebatou com sua inteligência, sua sinceridade e sua corajosa individualidade. Este é um romance para todas as mulheres que se recusam a emburrecer apesar de uma cultura que lhes exige isso.”
“É o mundo contra Elizabeth Zott, uma mulher extraordinária e determinada a tomar as próprias decisões.”
“Uma mulher que se recusa a ser massacrada, que acredita que a filha é um ser humano que deve ser acolhido em vez de moldado”.
É isso. Estamos diante de uma mulher que apenas queria muito se dedicar à Ciência desde os anos 50, quando o papel relegado às “costelas de Adão” era exclusivamente de esposa, mãe, dona de casa ou, no máximo, se elas quisessem muito trabalhar, de secretária. Não só era raro ver mulheres numa faculdade, mas impensável vê-las seguindo carreira acadêmica, tornando-se doutoras, capas de revistas científicas.
Então Elizabeth consegue um jeito diferente de exercer sua amada Química: com um programa de culinária na TV. Onde ela acaba exercendo também outras ciências, como as políticas e sociais, ao acordar suas telespectadoras para a potencialidade em cada uma delas.
A mensagem do livro é puro suco de feminismo. Com o mérito extra (ao meu ver) de também conceber personagens masculinos à frente de seu tempo, que servem de apoio para Elizabeth fazer esta revolução corajosa que ela acaba fazendo, só por insistir em ser quem é.
Existem uns bons exageros na história, como a criança e o cachorro muito fora da curva, mas, como já disse, os contos de fadas têm suas licenças poéticas. O que importa é que, no percurso que vamos caminhando junto com Elizabeth, sentimos as mesmas dores que ela, diante de cada injustiça ou sabotagem. E, quando as fadas-madrinhas agem, finalmente, também eu me emocionei, feliz, como se a carruagem de abóbora fosse para mim.
Claro que não vou contar que carruagem é esta, a da minha metáfora, porque não quero estragar a história para vocês. Mas que bom seria se todas as pessoas, homens e mulheres, lessem este conto de fadas, assim como leram para nós (centenas de vezes) a Cinderela, a Rapunzel e a Bela Adormecida…!
Talvez assim aprendêssemos, de uma vez por todas, a valorizar, de um lado, a ciência (contra o obscurantismo e o charlatanismo), e a defender com unhas e dentes, de outro, a igualdade de direitos para todos – independentemente de gênero, raça, renda, credo ou origem.
Uma Questão de Química
Bonnie Garmus
Ed. Arqueiro
383 páginas
R$ 44,90 na Amazon
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