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‘O Quinze’: o gosto amargo da carne em tempos de seca e fome

Foto: Dan Gold / Unsplash / Divulgação

O primeiro livro que li nas férias foi também o primeiro que li de Rachel de Queiroz. Achei curioso ter pegado “O Quinze” para ler logo depois de ter lido “Nós, mulheres”, da jornalista Rosa Montero, que trata de histórias de mulheres impressionantes que já passaram por este mundo e deixaram uma marca em algum campo do conhecimento, seja na arte, na ciência ou na política.

Bom, Rachel de Queiroz foi uma dessas mulheres, embora ela não esteja entre as 90 escolhidas por Montero em sua seleção. Aliás, percebo só agora que não havia nenhuma brasileira entre elas.

Ao contrário da maioria das personagens retratadas naquele livro, Rachel teve acesso e incentivo à educação. Filha de pais intelectuais, ela teve muitos livros em casa e estudou nas melhores escolas, tendo se diplomado como professora aos 15 anos. Depois que a educação formal foi concluída, ela se entregou à leitura e também passou a escrever em jornais. Apaixona-se pela estética modernista, que estava em sua efervescência, e também se envolve com as causas comunistas. Casa, descasa, casa de novo. Quebra um  tabu ao ser a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. “Me senti satisfeita, porque vivi a vida inteira na luta contra os formalismos, as convenções, os tabus e os preconceitos”, disse ela a respeito. Foi, enfim, uma mulher bastante independente, inteligente e politizada. Pena que acabou marcada para sempre não por tudo isso, mas por ter apoiado o golpe militar de 1964, que depois renegou.

Parte dessa história de Rachel é contada na cronologia e no prefácio que acompanha o livro da Editora José Olympio, em sua 114ª edição, de 2020, escritos pela pesquisadora Elvia Bezerra. Comecei a ler o prefácio com o mesmo interesse com que estivera lendo, dias antes, o livro de Rosa Montero, porque teve essa mesma proeza de trazer o bastidor da artista por trás de sua arte. Mas Elvia comete um dos erros mais graves, que é incrível que ainda aconteçam até hoje: dá spoiler de duas situações importantes do livro que eu ainda estava por ler. Sem qualquer aviso prévio, em duas frases, isso que era para ser uma introdução ao livro acaba revelando (e estragando) partes importantes da narrativa.

Não entendo, não entendo mesmo como uma editora ainda pode cometer um erro assim. Se é pra revelar algo do livro, não coloque no prefácio, coloque num posfácio, ora bolas! Ou avise em letras garrafais: “contém spoiler; leia por sua conta e risco”.

Enfim, dito tudo isso sobre Rachel e sobre o prefácio, passo agora finalmente a falar de “O Quinze” propriamente dito. Trata-se de um livro bastante forte: curto, sem muitas enrolações, com linguagem objetiva, com poucos personagens, mas muito eficaz em nos transportar para aquele duríssimo 1915 no sertão do Ceará, da mais pura miséria, e ao mesmo tempo de uma desigualdade social e econômica tão contumaz no Brasil.

Temos três núcleos principais, que se alternam na narrativa: o de Conceição e sua avó Inácia, o de Vicente e sua família, e o de Chico Bento, Cordulina e seus filhos. O contraste entre os dois primeiros núcleos e o último é gigante. É o verdadeiro abismo. Mas todos eles, em maior ou menor grau, sofrem o impacto da seca.

(Não consegui deixar de pensar que, embora essa não fosse a intenção de Rachel, a seca do livro também pode ser uma metáfora para outros males. Até para a pandemia da Covid-19, digamos, já que é o mal que nos abate no momento. Enquanto uns estão na miséria completa por causa da pandemia, pela crise econômica decorrente dela e pelas mortes, pela falta de leitos, pelo sucateamento da saúde, outros vivem como se nada estivesse acontecendo, ou dão uns trocados para o mais novo mendigo da esquina, sentindo-se de obrigação cumprida com a humanidade.)

Seja como for, embora a seca seja o mote principal do livro (e o tema estava bastante em voga naqueles anos de 1929/1930 dos modernistas), ela não chega a ser o único. Ainda à luz do livro de Rosa Montero, me chamou a atenção, por exemplo, a heroína Conceição e seu feminismo destoante da época. Enquanto todas as mocinhas da geração tinham como única preocupação encontrar um marido, esta estava longe de ser sua prioridade de vida. Além disso, ela era politizada, culta, independente, trabalhadeira e leitora voraz. Bem parecida com a Rachel, não é mesmo? Que, na época em que escreveu este livro, tinha apenas 19 anos e ainda estava às voltas com o Bloco Operário e Camponês e o Partido Comunista do Brasil (PCB).

Ao que parece, o livro foi um sucesso desde o início e, poucos anos depois, Graciliano Ramos escreveria seu “Vidas Secas” com, me perdoem dizer, muitos elementos parecidos aos de “O Quinze”, como se tivesse se inspirado na colega escritora. A diferença é que, quando a história do alagoano foi publicada, ele já tinha 46 anos e uma carreira sólida, como escritor e político. Ele morreu 11 anos antes do golpe militar, e de ver a colega cearense virando a casaca no campo da política…

No todo, “O Quinze” é um livro interessante, que faz, em poucas páginas (são só 140), um retrato importante daquele período e daquele pedaço de Brasil. E com uma linguagem coloquial boa de ler, cheia do vocabulário típico da região e da época.

Deixo vocês com um trechinho, sem spoilers, apenas para sentirem um pouco do livro:

“Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…

E até lhe amargou o gosto daquela carne, lembrando-se de que Cordulina, a essa hora, engolia talvez um triste resto de farinha, e junto dela, devorada a magra ração, os meninos choravam…”

Já se passaram 106 anos desde essa cena descrita no livro, mas ela ainda nos é familiar… Quantas famílias esfomeadas você já viu nas ruas de qualquer lugar do Brasil? E como se tornaram cada vez mais frequentes e numerosas nos últimos anos…! Será que estamos voltando ao Brasil do início do século 20, neste retrocesso avassalador provocado pelo governo Bolsonaro?

 

O Quinze
Rachel de Queiroz
Ed. José Olympio
207 págs. (além da história, tem o prefácio, outras três análises do livro, glossário e cronologia)
R$ 25,89

 

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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