O que o encantamento dos bebês pode nos ensinar

Foto: Pixabay

Quando passeio com Luiz de carrinho – coisa que ele adora! – é um encantamento só.

Ele vê um passarinho e aponta o dedo para lá, exclamando em sua língua de bebê:

– Hum!

Vê um cachorro mais adiante, e repete o ritual:

– Ãhn!

O mesmo com as árvores, flores, carros, prédios, e, claro, outras pessoas.

Ele é um explorador. Mesmo quando não está livre, engatinhando ou andando, está observando tudo, com as anteninhas do radar ligadas.

O mundo enche seus olhos, atiça sua curiosidade.

Cada “Hum!” dele é como se dissesse:

– Olha que coisa mais interessante é esse passarinho, mamãe! Ele voa! Ele tem asas! Tem penas coloridas! Tem bico! Mas que coisa maravilhosa que ele é!

(Quando ele aprender a falar, tenho certeza que suas palavrinhas serão exclamativas e admiradas assim)

Às vezes, distraída em meus pensamentos e mergulhada na rotina massacrante em que estamos todos, ando pela rua como se estivesse no automático. Meus olhos não enxergam muito além dos meus próprios passos batendo no chão da calçada.

E sou interrompida a cada “Ãhn!” que o Luiz solta. Saio da absorção direto para a ponta do dedinho dele, que guia meu olhar para alguma nova maravilha, bem ali, à minha frente. Olha só, que pássaro lindo pousado na fiação! Quem diria, tem uma flor colorida nascendo naquele arbusto!

O encantamento do meu filhote me lembra que o mundo é sim, um lugar mágico, cheio de coisas interessantes, curiosas, às vezes maravilhosas. Nós, adultos, é que fechamos nossos olhos para tudo isso, às vezes preocupados demais com algum problema do serviço, ou viciados demais nas telas do smartphone. Ou, simplesmente, cansados demais.

Que o encantamento dos bebês possa nos contagiar e ensinar nossos olhos a mirar para o que realmente importa!

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Coloque o filtro da poesia!

dylan

Em tempos duros, vale a pena baixar o filtro da poesia. Pode ser na lente dos óculos, se você for adepto delas. Vejam o que vi nesta semana, com meu filtro ótico:

 

Um casal bem jovem se beijava carinhosamente em frente a uma balada cult de Beagá. Teriam se conhecido lá na véspera e se despediam, quase às 10h de segunda-feira? Ou são um casal apaixonado em começo de namoro? Um reencontro após vários dias? Só sei que a trilha sonora foi bem apropriada: o uó-uó-uó-uó de uma ambulância subindo a rua Rio Grande do Norte. Paixão-febre-infarto. Achei que combinou.

*

Duas velhinhas passeando com os cachorros. Encontram uma mulher de uns 40 anos, também com o cachorrinho. Se cumprimentam alegremente. Será que se encontram todos os dias, no mesmo horário, para aliviar as bexigas dos bichinhos? Conversam sobre os peludos, trocam figurinhas sobre pet shops, cartões da nova clínica veterinária?

*

Mais adiante, uma mãe com dois filhos. Um de uns 4 anos, outro, idêntico mas maior, com uns 6 anos. Os três se equilibram, braços bem abertos, no meio-fio do canteiro. Riem, como se estivessem numa corda-bamba, no picadeiro de um circo, a 10 metros de altura do respeitável público. Que divertido é brincar pelas ruas, mãe e filhos! Não precisa de celular, de Pokemons, de brinquedos caros de Dia das Crianças: brincar é da natureza humana, requer apenas imaginação.

*

E assim vou seguindo, um quarteirão após o outro, diante de casais apaixonados, velhinhas simpáticas e mães com filhos brincalhões. O mundo ainda não está perdido, mesmo que Dórias, Joões Leites, Kalils e Crivellas me digam o contrário.

*****

A propósito: achei justíssimo que o grande poeta Bob Dylan tenha sido reconhecido com um Nobel de Literatura. Definitivamente, The Times They Are A-Changin’… Ainda bem!

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Você tem olhado o que vê pela frente?

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Não sei se foi a temporada morando sozinha ou se sempre tive esses momentos de introspecção, mas foi com eles que aprendi a perceber que estava olhando o mundo ao redor. Porque acho que às vezes a gente se esquece. A gente se concentra em um foco e desfoca o redor dele. Ou, muitas vezes, andamos tanto no automático que nem o foco entra direito em nosso cérebro.

Vou dar um exemplo: vamos supor que você dirija, todos os dias, cerca de 15 km entre sua casa e seu trabalho. É um trajeto respeitável e você o cumpre, religiosamente, de segunda a sexta. Passando por um mesmo lugar com tanta frequência, deveríamos, no mínimo, saber descrever tudo o que se encontra pelo caminho, certo? Mas quanto desse percurso você consegue detalhar, se parar pra pensar? Quantas bancas de revista cruzam seu caminho? E quantas quaresmeiras floridas? Já reparou naquela casa linda que fica na esquina da avenida com a ruazinha íngreme?

Na verdade, você entra no carro e avisa ao seu cérebro: “Olha, você só precisa me levar praquele lugar de sempre, naquele caminho de sempre, e dirigir daquele jeito que você já sabe, passando as marchas de acordo com o barulho do motor e parando nos sinais vermelhos. Beleza?”. O cérebro concorda, começa a viagem, e você vai indo, distraída em seus pensamentos, sem olhar muito o que acontece ao redor. No máximo, tendo que se concentrar com um ou outro barbeiro que corta seu caminho.

Na hora que o sinal fecha, ainda dá tempo de espiar o carro ao lado, o casal passeando com um cachorro na calçada, a quaresmeira florida — que bonita! — do outro lado da rua. Mas a verdade é que, nessas horas, muita gente já está trocando o prazer de olhar pelo vício de checar rapidamente o celular e ver se nenhuma nova mensagem de WhatsApp pipocou nesse meio-tempo.

Mas de carro é complicado ver o mundo mesmo, pode-se alegar. É caminhando que a gente consegue ler realmente todas as plaquetas das casas, descobrir que o prédio da outra rua esconde uma escada na garagem que você nunca tinha visto antes, se maravilhar com as costelinhas assadas que o mercado do bairro vende, detectar que existe uma lojinha de coisas encantadoras naquele caminho, reparar no verde escandaloso com que pintaram aquela casa, se alegrar com a existência de um cachorro tão grande que mais parece um bezerro, preso naquele quintal, se impressionar com a forma redondíssima da copa daquela árvore, que até parece cuidada por um jardineiro da Disney.

Mas, fala a verdade: mesmo a pé você tem conseguido ver o mundo ao seu redor? Reparar nas pinturas de flores que fizeram no portão daquela casa abandonada? Se impressionar com as flores estranhas e coloridas que surgiram no meio daquele lote vago? Perceber que aquela babá cuida com muito mais carinho da menininha que seus pais impacientes? Cumprimentar os malabaristas do sinal, que trabalham ainda com mais afinco  nos domingos e feriados? Descobrir que existe um boteco novo naquela esquina, mas, puxa vida, este é bem copo-sujo? Se emocionar com as luzinhas se acendendo na favela, uma a uma, formando uma gigantesca árvore de natal contra o céu da hora mágica?

O automatismo é uma arma que nosso cérebro criou para descansar um pouquinho. Ele nos permite saber chegar em casa, respirar, colocar um pé diante do outro, desviar dos buracos e parar nas faixas de pedestre sem ter que pensar seriamente em cada um desses gestos. E assim nos deixa com tempo e segurança para pensar em outras coisas mais importantes, como a sobrevivência no mundo, uma preocupação incômoda qualquer ou a mais nova ideia para um best-seller. Mas o automatismo também pode nos desviar da absorção do mundo. Da incrível oportunidade de sugar as imagens, sons e cheiros que existem nas ruas. Das descobertas maravilhosas que fazemos com o simples gesto de olhar.

Então, deixo esta sugestão ao seu cérebro acomodado, com tendências a sempre buscar o que é mais fácil: Ô, massa cinzenta! Sacode um pouquinho essas células aí e deixa o mundo entrar! Cansa, mas vale a pena. Só assim você ainda poderá se surpreender enxergando o que nunca antes conseguiu ver. Inclusive os olhos de outra alma interessante que estiver à solta nas ruas, como você.

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